De primo pobre a candidato ao titulo da NBA: como LA Clippers trouxe Kawhi e Paul George e agora encara os Lakers de Lebron James

A cena era cômica. Steve Ballmer, ex-CEO da Microsoft e dono do Los Angeles Clippers, um homem de 60 e tantos anos e 60 e tantos bilhões de dólares de fortuna, parecia um garoto. Estava agitado, derrubando seus papéis, largando o discurso ensaiado e desafinando enquanto falava.

“Tô animadão!”, ele chegou a gritar nos microfones antes apresentar ao público os homens que iriam mudar a história da sua franquia: Kawhi Leonard e Paul George.

O entusiasmo de Ballmer era compreensível.  Sentados ao seu lado e um tanto constrangidos estavam dois jogadores que somavam quase uma dezena de participações no All-Star.

Kawhi, bicampeão da NBA e MVP das finais nas duas conquistas, tinha acabado de transformar o Toronto Raptors numa franquia campeã. George, dono de um Ouro Olímpico em 2016, vinha de uma temporada em que tinha segundo melhor pontuador da liga e eleito para o All-Defensive Team, um dos cinco melhores defensores da NBA.

A dupla carregava a expectativa dar um salto de qualidade aos Clippers, até então o “primo pobre” de Los Angeles, um rival apenas local dos Lakers. É possível dizer que ambos têm cumprido o prometido, levando a disputa Clippers x Lakers para outro patamar.

Até a pausa por conta da pandemia do coronavírus, o time azul de Los Angeles vinha muito bem na temporada 2019/2020 da NBA.

Sob o comando do técnico Doc Rivers, Kawhi e cia fizeram a segunda melhor campanha da Conferência Oeste (44-20), atrás justamente dos Lakers, e tiveram a classificação assegurada para os playoffs.

Mas como o Clippers saltou de “pior franquia da NBA” para um dos favoritos ao título? Como um time cujo dono anterior foi expulso da Liga conseguiu atrair dois jogadores de All-Star e montar um grupo equilibrado e competitivo?

Como os Clippers juntaram Kawhi Leonard e Paul George

A free-agency (o período negociações dos times com os jogadores em fim de contrato) de 2019 foi uma loucura. Kawhi Leonard, Kevin Durant e Kyrie Irving, três dos 10 ou talvez cinco melhores jogadores da NBA estavam livres de seus contratos e agitavam o mercado.

Mas tinha algo de diferente naquela off-season. A ida de Durant para o Golden State Warriors em 2016 foi decisiva nesse sentido, mudando a mentalidade da maioria dos grandes jogadores.

A “panelinha” formada pelo ala e os splash brothers Stephen Curry e Klay Thompson era algo considerado antiético, que desequilibrava a liga. Tanto que nas duas primeiras temporadas, dois títulos para o novo trio e dois prêmios de MVP das finais para Kevin Durant.

A ida de Durant para os Warriors mexeu com o equilíbrio da NBA

Desde então, franquias e principalmente os jogadores trabalharam para unir os grandes talentos, seja para reequilibrar a competição, seja para conseguir o mesmo feito de Durant e os Warriors.

O movimento desaguou justamente nessa free-agency de 2019/2020.

Tudo indicava para a união de LeBron James e Anthony Davis — que ainda tinha contrato com os Pelicans, mas forçou a troca — nos Lakers; Durant, Irving e DeAndre Jordan supreenderam e se juntaram no Brooklyn Nets; até Westbrook (outro ainda com contrato)  foi depois parar em Houston para firmar uma parceria com James Harden.

Vendo tudo isso, Kawhi Leonard pegou o telefone e ligou para um velho conhecido.

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A chamada de Kawhi e a volta para casa

Campeão de 2018/2019 liderando o Toronto Raptors e MVP das finais, Kawhi Leonard era de longe o free-agent mais disputado. Porém, sua vontade de voltar para perto de sua família transformava a sua contratação numa disputa entre dois rivais. Kawhi, afinal, era natural de Los Angeles.

Simultaneamente, se inserindo na tendência das “panelinhas”, o ala entrou em contato com Paul George sobre a possibilidade de unirem forças para a temporada 2019/2020. A conexão pode parecer meio aleatória, porém é mais profunda do que aparenta.

Antes de mais nada, George é outro All-Star da NBA — eleito seis vezes, para ser mais exato.

Enquanto Leonard liderava os Raptors, PG fazia uma baita temporada pelo Oklahoma City Thunder, terminando a competição como o segundo melhor pontuador, com 28 pontos de média, e eleito um dos um dos cinco melhores defensores do campeonato.

E tudo isso tendo como companheiro Russel Westbrook, um cara que, pelo menos em quadra, não favorecia o jogo de George. Antes, PG tinha feito um trio com o mesmo Westbrook e com Carmelo Anthony, outro ilustre “fominha” do basquete americano, e o fez sem bicos ou reclamações.

Por último, Paul George é, além da mesma geração de Kawhi, (o primeiro nasceu em 1990 e o segundo em 1991) natural da mesma Los Angeles. E também queria voltar para casa.

No fim das contas, a dupla fazia muito sentido. Mas engana-se quem pensa que o Clippers foi um mero destino, uma franquia perto da casa de dois craques e por acaso com espaço no teto salarial.

A diretoria dos Clippers e a troca maluca por Paul George

Na disputa com os Lakers por Kawhi, o grande trunfo dos Clippers era a sua organização e sua estrutura.

A franquia vinha numa crescente desde que Steve Ballmer assumiu como acionista majoritário, ensaiando alguns grandes times e sempre com um elenco minimamente competitivo comandado pelo campeoníssimo técnico Doc Rivers.

Situação diametralmente oposta vivia o rival, vindo de uma bagunça que resultou na saída de Magic Johnson da presidência e que parecia se remontar justamente ao redor da opção de LeBron James em atuar por lá.

A prova de fogo foi o pedido de Kawhi Leonard por Paul George. A negociação não foi exatamente explícita, mas foi um tanto clara na direção do “compre um, leve dois”. A complicação era o fato de que PG tinha acabado de renovar com o OKC.

George até fez sua parte ao conversar com a diretoria do Thunder, mas ainda era uma transação que envolvia um All-Star para um adversário de conferência e que certamente ficaria muito mais forte que o próprio time de Oklahoma.

As bases foram foram acertadas para diminuir o desnível: por Paul George, os Clippers mandaram ao Thunder Shai Gilgeous-Alexander, um jovem armador de enorme potencial, e o ala-pivô Danilo Gallinari, de enorme utilidade e bom aproveitamento em arremessos de três pontos.

O que chocou foi o pacote de nada menos que cinco escolhas de primeiro round do Draft, indo de 2021 até 2026.

Foi uma tacada arriscadíssima, que pode comprometer as equipes futuras dos azuis de Los Angeles, mas algo calculado para uma franquia que, nas palavras do dono, “dali em diante só pensaria no (troféu) Larry O’Brien”.

Kawhi e os Clippers do “LA Our Way”

Uma dúvida que pode pairar é a seguinte: se Kawhi queria tanto um All-Star ao seu lado, por que não foi logo para o Lakers jogar com o LeBron James?

Segundo o falecido Kobe Bryant, Kawhi faz parte de uma geração que deseja mais vencer o ala do que jogar com ele. É um outro nível de admiração.

Há, porém, outro componente que identifica Kawhi com o seu atual time para além de jogar ou não com LeBron.

Toda a imagem dos Clippers é construída quase como uma antítese do Showtime Lakers e toda a associação da franquia amarela e roxa com o glamour hollywoodiano, com as estrelas presentes nos jogos e a enorme exposição midiática.

O slogan do LA Clippers, afinal, é “LA Our Way”, algo como “A Los Angeles da nossa maneira”.  Os valores impressos nessa frase vão ao encontro não só da personalidade discreta de Leonard, mas também com a sua trajetória de vida.

Nascido e criado nas periferias de Los Angeles, o jogador sentiu na pele o lado que não é lembrado em Hollywood. Em 2008, quando tinha 16 anos, teve o pai assassinado a tiros em Compton, distrito de LA.

Assim também pensava Paul George, igualmente nascido num bairro periférico da maior cidade da Califórnia e com uma mãe cadeirante. Afinal, ambos queriam voltar para casa, não simplesmente para seu código postal.

Kawhi batendo uma bola na juventude
Leonard e George viveram o outro lado de Los Angeles (Foto: Tim Sweeney/ CBC)

A virada dos Clippers contra os Warriors e um time para competir

A identidade, o trabalho da diretoria, o potencial, tudo foi sintetizado na histórica vitória dos playoffs de 2018-2019 sobre os Warriors. O jogo valia pela terceira rodada das quartas de final da pós-temporada da NBA.

O Golden State havia aberto 2 a 0 na série e uma vitória deixaria o time de Curry, Thompson e Durant praticamente classificado para a semis. Nesse embalo, os Warriors abriram 31 pontos de diferença no terceiro quarto.

Entram em cena Montrezl Harris, Pat Beverly e principalmente Lou Willians, que comandam a maior virada já registrada nos playoffs.

O jogo termina 135 a 131 para o Clippers, que acabaria eliminado de qualquer jeito, mas com uma declaração para toda a NBA (Kawhi e George inclusos) o seu espírito competitivo.

Para além da virada histórica, o jogo foi bastante simbólico. Foi um triunfo sobre uma outra franquia que se associa ao progresso da Califórnia, nesse caso o da tecnologia — nada de errado nisso, que fique claro.  É mais sobre o LA Our Way do que sobre seus opostos.

A partida representou também o sucesso da montagem de um Clippers competitivo.

Sob a liderança de Ballmer, a regência do GM Jerry West, o homem responsável pelas dinastias dos Lakers e dos próprios Warriors, e movido pela incansável vontade de vencer de Doc Rivers, a franquia nunca buscou uma reconstrução.

O trio que liderou a virada contra Durant, Curry e cia, por exemplo, veio do Rockets na troca que mandou Chris Paul, antigo franchise player dos Clippers, para Houston. São três jogadores de enorme brio, alto nível competitivo e parte importantíssima da atual rotação da equipe.

Eles chegaram a Los Angeles num momento complicado, quando também houve a saída de Blake Griffin, outro destaque da equipe. Mas reconstrução, jamais. Transição, talvez.

Até porque as movimentações posteriores às trocas de Griffin e Paul deram aos Clippers os ativos necessários para viabilizar a vinda de Paul George e a consequente “sedução” de Kawhi Leonard.

LA Clippers com cara de campeão e os últimos ajustes

Um dado curioso da temporada 2019/2020 dos Clippers é que, até a pausa por conta da pandemia do coronavírus, a equipe só atuou 12 das 64 partidas com todo mundo disponível para jogar.

Nessas oportunidades com o time titular ideal, foram 11 vitórias e apenas uma derrota.

Ainda assim, mesmo sem o elenco completo (leia-se: sem Kawhi ou Paul George ou os dois), a franquia de Los Angeles jogou com cara de campeã, dosando a energia nos momentos certos e exibindo enorme confiança na hora da decisão.

A maior prova disso é que das três “Batalhas de LA” contra os Lakers antes da pausa, os Clippers venceram duas. Nada mal para quem já foi o “primo pobre” da cidade.

Depois de entender como o LA Clippers mudou o jogo com Kawhi Leonard e Paul George, aproveite para conferir outros conteúdos sobre Basquete:

*Última atualização em 29 de julho de 2020

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