Relembre a história de Pelé, o maior de todos os tempos: a carreira, os títulos com Santos e Seleção Brasileira e o milésimo gol

Pelé. Poucos substantivos, objetos ou verbetes têm a força desta simples junção de quatro letras e um solene acento agudo.

É que Pelé é mais que um nome. “Melhor jogador de futebol de todos os tempos” é apenas mais um dos títulos que cabem em sua imensidão conceitual. Pelé é praticamente uma entidade, que até o homem que o encarnou faz questão de separá-la de sua existência, digamos, mortal.

Se o futebol, como falam os sociólogos, é análogo a uma religião, então Pelé é uma divindade. Seus gols, no entanto, não eram exatamente milagres, pelo menos não no termo mais usado no esporte. Eram algo como um presente etéreo, algo além da compreensão.

Se assim é, então a carreira do jogador tem um quê de bíblica. Vestindo a sacra camisa 10, do Santos ou da Seleção Brasileira, Pelé acumula em sua trajetória passagens que são decoradas, relembradas, estudadas e proferidas por suas testemunhas e por seus estudiosos em momentos de verdadeira comunhão futebolística-religiosa.

No texto a seguir, longe da pretensão de estar a altura dos sagrados livro e jogador, contamos, brevemente, a história de Pelé, o homem, a entidade, a divindade, o melhor jogador de futebol de todos os tempos.

Biografia do Pelé

Nascido no dia 23 de outubro de 1940, na pequena cidade de Três Corações, Minas Gerais, Edson Arantes do Nascimento se mudou para Bauru em 1944, ano em que o pai, também jogador de futebol conhecido como Dondinho, acertou com o Bauru Atlético Clube, o BAC.

Entre bolas de meias e as de verdade — essas roladas nas partidas dos juniores do BAC, o “Baquinho,” e o do América, o “Ameriquinha” —, Pelé procurava jogar como seu ídolo Zizinho, craque do Flamengo e da Seleção Brasileira, mas sonhava mesmo era ser como seu pai.

Para o segundo, prometeu, ao fim da Copa do Mundo de 1950, que venceria um Mundial; para o primeiro, honrou e redimiu a camisa 10 do Brasil alguns anos depois do Maracanazo.

Antes, aos 11 anos de idade, foi levado pelo ex-jogador Waldemar de Britto para outro clube da cidade, o Clube Atlético Bauru. Aos 16, o mesmo Waldemar o encaminhou para o Santos.

Foto de Pelé na escola em Bauru, São Paulo

O início de Pelé no Santos

Quando chegou com o jovem Pelé na Vila Belmiro, Britto o apresentou como o futuro melhor jogador do mundo. Hoje sabemos que ele estava absolutamente certo, mas não é como se o ex-atleta tivesse feito uma grande profecia.

Aos 15 anos, Pelé já mostrava um porte físico acima da média, enorme habilidade para controlar e disparar a bola e uma velocidade de raciocínio de invejar supercomputadores.

Não à toa, estreou no time profissional com essa idade, entrando no segundo tempo e marcando um gol na partida de um torneio amistoso contra o Corinthians de Santo André.

Quando tinha 16, Pelé já era motivo de um certo burburinho entre os torcedores paulistas, que ouviam falar de um jovem craque do Santos.

A confirmação das “especulações” foi em um torneio amistoso internacional, quando o jogador atuou por um combinado de Santos e Vasco. Deixou três gols, ou melhor dizendo, golaços, e sua palavra se espalhou Brasil afora.

Aí então, o Campeonato Paulista de 1957. O “menino” apresentou não só o cartão de visitas como já fez toda a consulta. Dribles, passes, grandes jogadas e muitos gols, 36 deles, para ser mais exato.

Com eles, a artilharia da competição — a primeira das 17 que alcançou, entre todos os torneios que disputou, com a camisa do Santos — e a primeira convocação para a Seleção Brasileira.

História de Pelé na Seleção Brasileira

O primeiro gol de Pelé em Copas do Mundo foi uma pintura. Aconteceu nas quartas de final do Mundial de 1958, contra o País de Gales.

A bola veio da direita, pingando alto na entrada da área. Didi, o craque daquela Copa, foi de encontro a ela, cabeceando-a em direção ao camisa 10, que, dentro da área, estava de costas para o zagueiro galês.

Pelé dominou a bola no peito e imediatamente puxou-a para trás. Em frações de segundo, o garoto já tinha girado e ficado de frente para o gol com o chute armado. Quando a bola entrou na rede, foi muita emoção por parte do autor da obra e dos companheiros. Mas zero surpresas.

Um ano antes, Pelé já encantava na Copa Rocca, que também foi o seu primeiro torneio vencido pela Seleção Brasileira. O primeiríssimo gol do Rei em Copas foi inclusive um tanto parecido com o seu sexto, que você deve conhecer. A bola viajou da esquerda, dominou no peito e…

Pelé e as lesões nas Copas de 1962 e 1966

Pelé redimiu o ídolo Zizinho e cumpriu a promessa ao pai com apenas 17 anos de idade. É até hoje o mais jovem campeão mundial, sendo titular nas  e vice-artilheiro. E estava só começando.

Em 1962, já um craque consagrado, decretado como “tesouro nacional” pelo governo brasileiro e autor de 500 gols como jogador profissional, o Rei foi Bicampeão Mundial. Ah! E tinha apenas 22 anos.

Ainda assim, a Copa do Chile foi uma experiência diferente para Pelé. O camisa 10 lesionou-se na segunda partida da competição, um 0 a 0 contra a Tchecoslováquia, curiosamente o adversário da final.

Em 1966, na Inglaterra, a lesão aconteceu ainda mais cedo, na partida inaugural contra a Bulgária. Dessa vez, sem Amarildo, Zagallo, Didi e os joelhos saudáveis de Garrincha, a Seleção não conseguiu se virar sem seu maior craque.

Tanto foi que até forçaram uma volta do camisa 10 no sacrifício contra Portugal, na última e decisiva rodada da do grupo 3. O time infelizmente não foi páreo para a equipe de Eusébio, o Pantera Negra, um dos poucos jogadores capazes de aguentar a pressão da comparação com o Maior de Todos os Tempos.

Pelé em ação na Copa de 1966
Pelé fez sua última partida em Copas ao de Garrincha contra a Bulgária. Ambos marcaram gols. (Art Rickerby/Getty Image)

O Pelé da Copa de 1970: o armador “milenar”

O Pelé do Tri foi um Pelé diferente. Para começar, já tinha ultrapassado os mil gols, completos ainda 1969.

Depois, estava beirando os 30 anos, o que não parece muito mas, depois de quase 15 anos recebendo pancadas constantes e sendo o único jogador indispensável dos incessantes compromissos do Santos pelo Brasil e pelo mundo afora, estava com o físico mudado.

Não que o Rei estivesse pesado no México. Muito pelo contrário. Ia e voltava com facilidade e tinha a potência necessária para saltar e permanecer no ar, como falou o zagueiro italiano Burgnich ao lembrar do gol de cabeça do craque na finalíssima.

Acontece que o Pelé da Copa do Mundo de 1970 era mais armador, mais cerebral, dosando energia e procurando, com um passe, antever os próximos três. A assistência que dá para o antológico gol de Carlos Alberto Torres, também contra a Itália, é o seu lance mais simbólico.

A despedida de Pelé na Seleção Brasileira

Tricampeão mundial e autor de 95 gols em 114 jogos, Pelé aposentou-se da Seleção Brasileira em 1971.

Querendo “cultivar a vida ao seu gosto”, como bem escreveu Carlos Drummond de Andrade na ocasião, o Rei despediu-se da camisa 10 amarela no dia 18 de julho, num amistoso contra a Iugoslávia.

Atuou apenas no primeiro tempo e não marcou gols, mas ouviu incessantes gritos de “Fica, Pelé” de um Maracanã lotado em 140 mil chorões.

Pelé no Santos: mil jogos, mil gols

Se com a camisa 10 da Seleção Pelé irradiou os corações brasileiros de alegria, com a do Santos os encheu de confusão. Imagino só o sentimento de sofrer um gol de Pelé, que bela e sublime desilusão devia ser.

O torcedor corintiano é quem melhor vai saber dizer. O Timão levou nada menos que 50 gols do Rei. Longe, porém, de ser um privilégio. Na verdade, nos anos de Pelé, Dorval, Mengálvio, Coutinho e Pepe, não sofrer gols do Santos era praticamente uma ofensa.

O Rei e seus súditos dominaram o futebol paulista e brasileiro, especialmente na primeira metade dos anos sessenta. Entre 1960 e 1965, foram pentacampeões paulistas e pentacampeões brasileiros.

Nesse meio tempo, levaram ainda o bicampeonato da Libertadores e também do Mundial Interclubes, entre 1962 e 1963.

O auge do Rei Pelé

É a partir desses fatos e, com muita parcimônia, que afirmamos que esses seis anos foram o auge de Pelé no futebol profissional. Voando física, técnica e taticamente, o Rei também estava no meio de um time que estava tinindo. Nessa época, sua completude nunca foi tão visível.

Quando Pelé ia correndo, Pelé passava através dos adversários como um punhal. Quando parava, os adversários se perdiam nos labirintos suas pernas desenhavam. Quando saltava, subia no ar como se o ar fosse uma escada. Quando cobrava uma falta, os adversários formavam a barreira queriam ficar de costas, de cara para a meta, para não perder o golaço.
Eduardo Galeano, em “Futebol ao Sol e à Sombra”

Foi nessa época, por exemplo — 1961, para ser mais exato —, que Pelé marcou o primeiro Gol de Placa. Driblando meio time do Fluminense, incluindo o goleiro, o camisa 10 encantou o Maracanã.

Mas ninguém ficou mais maravilhado do que o jornalista Joelmir Betting, que cobria a partida pela rádio. Ao fim da partida Joelmir literalmente mandou fazer uma placa, que levou e pregou pessoalmente no corredor de honra do estádio carioca.

O milésimo gol de Pelé

Mas, como falamos, chamamos o período de auge com certa cautela. Antes, ora, Pelé foi campeão mundial e marcou o gol que o parceiro Pepe chamou de o mais bonito da sua carreira real, contra o Juventus de São Paulo.

Após os “pentas”, o Rei foi campeão brasileiro mais uma vez, em 1968, e campeão paulista outras quatro, além do já mencionado Tri de 1970. Ah! E também marcou o seu milésimo gol. Era novembro de 1969, num de seus palcos favoritos, o Maracanã.

O destino foi um pouco cruel com ele, mas não mais que os zagueiros do Vasco que, depois de ver o camisa 10 passar por marcadores o derrubaram na área e o impediram de fazer do milésimo um belo gol.

Pior: o fizeram marcar o seu mais icônico gol de pênalti, justo o tipo de gol que ele mesmo admitiu não gostar de fazer. O Rei até tentou evitar a cobrança, mas o clamor de seus súditos, que quase explodiam em expectativa, o “obrigou” a marcar e entrar para história naquela hora mesmo.

A despedida de Pelé do Santos

Depois do milésimo, Pelé fez ainda outros 91 gols pelo Santos antes de deixar o Brasil rumo ao Cosmos, dos EUA.

Sua despedida foi contra a Ponte Preta, no dia 2 de outubro de 1974. Jogou apenas 21 minutos quando, mergulhado em lágrimas, pegou a bola nos braços, ajoelhou no centro do gramado e chorou. Depois levantou-se e desceu, pela última vez, as escadas para o vestiário da Vila Belmiro.

 Pelé no New York Cosmos

Comprado por uma bagatela de 9 milhões de dólares, Pelé jogou num estrelado Cosmos aos lado de Franz Beckenbauer e de Carlos Alberto Torres.

Atuou em 111 partidas pelo clube estadunidense. Marcou 65 gols e todo um país, que começou então a dar maior atenção ao tal do “Soccer”.

No dia 1º de outubro de 1977, o Rei despediu-se dos gramados de vez. A ocasião foi perfeita, uma partida entre Cosmos e Santos.

Jogou pelos americanos no primeiro tempo e fez seus últimos 45 minutos como jogador profissional vestindo a camisa do Santos. A 10, é claro.

Vá além do futebol:

Quantos gols fez Pelé?

A contagem oficial dos gols de Pelé, isto é, aqueles reconhecidos pela FIFA, foi encerrada nos 1281 — 1091 deles foram marcados só pelo Santos, time por qual jogou 1116 vezes em 18 anos da carreira.

Times do Pelé

  • Santos (1956-1974)
  • New York Cosmos (1974-1977)

Estatísticas do Pelé no Santos

  • 1091 gols marcados
  • 1116 jogos
  • 6662 dias no clube
  • 26 títulos de torneios oficiais
  • 23 títulos de torneios amistosos
  • 17 vezes artilheiro de campeonatos

Quantos títulos Pelé conquistou?

Somando todos os torneios oficiais, Pelé conquistou 32 títulos na carreira. É uma média superior a um 1,5 por ano.

Títulos do Pelé pela Seleção Brasileira

  • Copa do Mundo (1958, 1962, 1970)
  • Copa Rocca (1957, 1963)

Títulos do Pelé no Santos

  • Campeonato Paulista (1958-1962, 1964-1969, 1973
  • Copa Rio-São Paulo (1959, 1963, 1964, 1966)
  • Campeonato Brasileiro (1961, 1962, 1963, 1964, 1965, 1968)
  • Copa Libertadores (1962, 1963)
  • Mundial Interclubes (1962, 1963)
  • Recopa Sul-Americana (1968)
  • Recopa Mundial (1968)

Curiosidades do Pelé

Pelé parou uma Guerra

No dia 4 de fevereiro de 1969, o Santos de Pelé parou a guerra. Pelo menos é isso que contam os presentes na delegação que viajou a Nigéria para um amistoso na cidade de Benin.

Na época, o país africano vivia uma intensa guerra civil após a declaração de emancipação da região de Biafra. Contam os historiadores que, naquele dia, foi declarado um cessar-fogo no combate, só para ver o Rei jogar.

Os outros apelidos de Pelé

Pelé nem sempre foi o apelido de Edson Arantes do Nascimento. Ao chegar no Santos, o jovem de 16 era chamado de Gasolina, por sua supostas semelhança com o artista Antonio Monte de Souza, que também era apelidado em “homenagem” ao combustível.

Bem mais para frente, na Copa do Mundo de 1970, para ser mais exato, Pelé tinha um apelido carinhoso dos seus colegas de equipe: Mamãe Dolores. A dita cuja era uma personagem interpretada pela atriz Isaura Bruno na novela “Pelo Direito de Nascer”, sucesso absoluto do ano do Tri.

Aliás, Pelé não gostava do “apelido-mor”. Disse que era chamado assim desde a infância, mas não curtia. Conta ele que, no dia em que deu um soco no coleguinha de escola, o nome, claro, pegou de vez.

Pelé e Maradona na TV

Um dos momentos mais sublimes da televisão mundial foi a participação de Pelé no programa “La Noche del 10”, uma espécie de talk-show misturado com programa de variedades comandado por…Maradona!

O craque argentino recebeu o brasileiro em 2005 com a maior classe. A cena mais icônica foi a “altinha” de cabeça que ambos trocaram em pleno auditório.

Frases famosas do Pelé

  • “Se eu pudesse me chamaria Edson Arantes do Nascimento Bola. Seria a única maneira de agradecer o que ela fez por mim.”
  • “Um pênalti é uma forma covarde de fazer um gol.”
  • “Um craque é um jogador que pode fazer tudo no campo. Ele pode dar passes, motivar seus companheiros e dar-lhes confiança. É alguém que, quando uma equipe não está bem, torna-se um dos líderes.”
  • “A prática é tudo.”
  • “Eu cansei de ouvir de zagueiros em campo: crioulo filho da mãe e outras coisas.”
  • “É bom esfriar a cabeça. Toda vez que uma seleção sai como favorita para ganhar a Copa do Mundo ela acaba perdendo”

Filmes e Livros sobre Pelé

Filmes

  • Rei Pelé (1962)
  • Isto é Pelé (1974)
  • Pelé Eterno (2004)
  • Pelé, o Nascimento de Uma Lenda (2016)

Livros

  • Pelé – A Autobiografia (2006)
  • Pelé – A importância do Futebol (2014)
  • Pelé – Minha Vida em Imagens (2010)
  • Pelé: Estrela Negra em Campos Verdes (2008)
  • Pelé: Os Dez Corações do Rei (2004)
  • Por Amor ao Futebol! (2010)
  • Pelé 70 (2010)

Depois de relembrar a carreira e a grandeza do Rei Pelé, aproveite para ler outros conteúdos sobre futebol:

*Última atualização feita em 29 de setembro de 2020

Comentários

Salvar
Compartilhar
Twittar
Compartilhar
WhatsApp
Pin