Entenda o boicote nos esportes americanos: as ligas, os jogos suspensos e a realação entre o Milwaukee Bucks e o caso Jacob Blake

O dia 26 de agosto de 2020 foi histórico para o esporte americano e mundial. Partindo do boicote do Milwaukee Bucks a uma partida dos playoffs da NBA, todas as principais ligas esportivas dos EUA suspenderam suas atividades por pelo menos um dia.

O ato histórico foi uma maneira de manifestar solidariedade ao cidadão Jacob Blake, outro homem negro baleado por policiais brancos, e de protestar contra a violência policial à população negra estadunidense e ao racismo sistêmico do país norte-americano.

Ao todo, foram pelo menos oito ligas com atividades paralisadas, entre NBA, WNBA, MLB, MLS, NFL, NHL, ATP e WTA. O ato resultou em mais de 20 eventos esportivos suspensos ou adiados.

O caso Jacob Blake e o boicote do Milwaukee Bucks

No dia 23 de agosto de 2020, Jacob Blake, um homem negro de 29 anos, foi baleado sete vezes nas costas por policiais brancos na cidade de Kenosha, Wisconsin. Blake estava tentando entrar no seu carro, onde estavam três de seus filhos, pelo lado do motorista.

Um vídeo do momento em que Jacob, desarmado, é alvejado viralizou nas redes e fez estourar uma onda de protestos em Kenosha.

Três dias depois, numa quarta-feira, 26, o Milwaukee Bucks, franquia da NBA do estado de Winsconsin, líder da Conferência Leste em 2020 e lar de Giannis Antetokounmpo, MVP da liga em 2019, anunciou o boicote ao compromisso que faria na data, o jogo 5 dos playoffs contra o Orlando Magic.

Os jogadores chegaram a ir ao ginásio e entrar nos vestiários mas, lá reunidos, optaram por se ausentar da partida como forma de protesto. Mais tarde, anunciaram a decisão à imprensa e exigindo justiça a Jacob Blake.

A repercussão do boicote dos Bucks foi imediata. Entre manifestações de jornalistas, comentaristas, ex-atletas e outros profissionais da mídia presentes na bolha da NBA, muitas falas fortes e emocionadas.

Chamou a atenção a atitude de Kenny Smith, ex-atleta da NBA e atual comentarista oficial da Liga para o canal TNT, que deixou o programa que transmitiria a partida em solidariedade à atitude dos jogadores.

Um pouco mais tarde, Oklahoma City Thunder e Houston Rockets, que fariam a partida seguinte dos playoffs, também acordaram um boicote.

Ao fim, a NBA anunciou a suspensão de todos os jogos do dia 26, que também incluía o confronto entre Los Angeles Lakers e Portland Trail Blazers e convocou uma reunião com todos os presentes na bolha para decidir os próximos passos.

Reações anteriores

Na segunda feira, dia 24 de agosto de 2020 — o seguinte ao que Jacob Blake foi baleado — houve uma série de manifestações e declarações por parte de equipes, mas, principalmente, de atletas em relação ao caso.

LeBron James falou sobre o assunto em entrevista após a vitória no jogo 4 dos playoffs contra o Portland Trail Blazers. O jogador condenou a conduta dos policiais com Blake e reafirmou o medo que sente pela comunidade negra dos Estados Unidos.

No mesmo dia, o armador Chris Paul, um dos líderes do sindicato dos jogadores da NBA, mandou, ainda em quadra, uma mensagem aos familiares de Jacob. Ele também analisou a participação dos atletas quanto aos casos do racismo sistêmico no seu país.

No dia seguinte, foi a vez de Doc Rivers, treinador do LA Clippers, falar com a imprensa sobre o caso de Blake e os casos de violência policial contra a população negra estadunidense.

Rivers deu um discurso bastante emotivo sobre o sentimento de pertencimento da população afro-americana, sobre igualdade e sobre a necessidade de reforma da polícia como instituição e dos treinamentos dos policiais.

Tênis, WNBA, MLS, MLB e NFL se unem ao boicote

Na esteira do boicote da NBA, diversas das outras principais ligas do esporte estadunidense endossaram o posicionamento e aderiram ao boicote. Na WNBA, a NBA feminina, Mystics, Dream, Lynx, Sun, Mercury e Sparks não disputaram seus jogos de playoffs.

A MLS, a liga de futebol masculino, adiou cinco partidas e a MLB, a de beisebol, começou com três confrontos, que subiram para 14 no total. A temporada da NFL ainda não começou, mas os treinos do Detroit Lions foram interrompidos, seguidos de manifestações dos jogadores.

Outro caso que chamou atenção foi do tênis. A tenista Naomi Osaka, número 10 do ranking da WTA em 2020, anunciou que se retiraria do Aberto de Cincinatti, torneio em que ela estava nas semifinais e que teria os jogos no dia 26.

A manifestação da atleta fez com que a competição toda fosse adiada em pelo menos um dia, para ambas as chaves masculina e feminina.

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A volta da NBA e a mensagens por justiça racial

Toda a movimentação dos jogadores da NBA e a consequente repercussão das outras ligas esportivas dos Estados Unidos são na verdade uma escalada no posicionamento dos atletas em prol da justiça racial no país.

A volta da NBA, que aconteceu no dia 30 de julho de 2020, se deu apenas dois meses após o assassinato de George Floyd, um homem negro de 46 anos, por policiais brancos no dia 25 de maio, em Minneapolis, no estado de Minnesota.

As imagens do caso — que mostram o homem, desarmado, sendo sufocado por um policial ajoelhado sobre seu pescoço — repercutiram mundialmente e desencadearam uma onda de protestos nos EUA contra a violência policial e o racismo sistêmico do país.

Muitos jogadores da NBA, como Giannis Antetokounmpo e Jaylen Brown, se juntaram aos processos em suas cidades e estados, e diversos outros se manifestaram publicamente em apoio.

A volta da NBA, que só aconteceu a partir de intensas negociações entre a Liga e o sindicato dos jogadores, se deu após a garantia de um forte posicionamento da organização.

Uma série de medidas foram tomadas para manter o debate. Os ginásios das partidas ostentam grandes banners com os dizeres “Black Lives Matter” (“Vidas Negras Importam”), a grande mensagem de força dos protestos após a morte de George Floyd.

Nas transmissões, a geradora de imagens passava constantemente uma campanha da Liga contra o racismo sistêmico estadunidense e destacando a participação dos atletas no movimento.

Em quadra, os jogadores puderam escolher mensagens para serem estampadas na camisas em vez de seus nomes. A maioria absoluta optou por frases relacionadas à demanda por justiça racial nos EUA.

Até em seus tênis haviam mensagens diversas em apoio à comunidade afro-americana. E antes de cada partida, atletas e comissões técnicas se perfilavam na linha lateral e ajoelhavam durante o hino nacional.

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*Última atualização no dia 27 de agosto de 2020

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