Entenda a história de Tiffany no vôlei: os recordes e o que diz a ciência sobre a primeira jogadora transgênero do vôlei brasileiro

Foi só em fevereiro de 2017, na Itália, que aconteceu a estreia de Tiffany no vôlei. Com 32 anos, ela se tornou a primeira jogadora transgênero do Brasil a entrar em quadra no circuito profissional.

Mesmo que “apenas” na segunda divisão do vôlei italiano, o momento foi muito aguardado pela atleta.

Foram cinco anos desde a transição de gênero, quando jogava nas divisões inferiores da Liga Belga masculina e dois desde a resolução do Comitê Olímpico Internacional (COI) que autorizou a participação de atletas trans no esporte mundial.

No ano anterior, ela tinha feito o pedido à Federação Internacional do Voleibol (FIVB) para a sua inscrição na categoria feminina.

Sua transformação, no entanto, é ainda mais antiga. Ela já havia adotado o nome Tiffany na década anterior, quando foi “batizada” por um amigo de um grupo de jogadores de vôlei LGBT.

Naquele momento ainda era conhecida como Rodrigo Pará, ponteiro com passagens pela Superliga na equipe da Universidade Federal de Juiz de Fora.

A própria ida à Europa foi motivada pela necessidade financeira da operação de transição. Viajou não só para angariar o dinheiro como também para ficar mais próxima dos locais onde os custos médicos eram menores.

Quando enfim estreou no vôlei feminino, Tiffany arrebentou. Saiu do banco, marcou 28 pontos e comandou a virada do Golem Palmi por 3 sets a 1. Recebeu a honraria de Melhor da Partida.

A estreia foi também acompanhada das reações que a seguiriam pelo restante da carreira: o questionamento de um suposto favorecimento por sua condição biológica.

Silvia Fondriest e Ivan Iosi, respectivamente a capitã e o treinador do Trentino, o time derrotado, alinharam o discurso. Ambos asseguraram respeito pela atleta, mas questionaram o nível supostamente injusto de ataque.

Já Pasqualino Giangrossi, técnico do Palmi, defendeu Tiffany. Afirmou que ela era apenas uma pessoa que jogava bem vôlei e assegurou não só a inexistência de qualquer vantagem como a hipocrisia de quem a criticava.

Mas o presidente da Liga, Mauro Fabris, acabou por adotar o tom da equipe da Trentino. Foi outro que garantiu o respeito pela jogadora, mas disse ter questionado mesmo assim as autoridades responsáveis sobre o que fazer “se estes casos se multiplicarem”.

Tiffany na Superliga e as polêmicas

Acabou que o tempo de Tiffany na Itália, encurtado por uma lesão na mão esquerda, não foi somente de aprendizado em uma das maiores escolas do vôlei mundial. Até porque quando veio ao Brasil ela causou o mesmo impacto dentro e fora das quadras.

A ponteira assinou com o time de Bauru, que estava na sua terceira temporada na elite do vôlei brasileiro. A exemplo de seu início na Itália, a jogadora arrebentou.

Nas três primeiras partidas de Superliga, já no finalzinho de 2017, somou nada menos que 70 pontos e fechou o ano com a melhor média da competição, o que, dado a quantidade de jogos, não quer dizer lá muita coisa.

No começo de 2018 que, aí sim, Tiffany mostrou ao que veio. Bateu 160 pontos em 30 sets, número esse alcançado após uma das melhores atuações individuais da história do vôlei brasileiro.

Foi no dia 30 de janeiro de 2018. A ponteira marcou incríveis 39 pontos contra o Praia Clube, o futuro campeão da edição 2017/2018 e naquela o líder invicto a 17 jogos.

O desempenho — que é bom dizer, não impediu a derrota do Bauru — estabeleceu o recorde de pontuação de uma única partida da Superliga.

Tandara e Tiffany e as reações no Brasil

A trajetória de Tiffany era e ainda é um prato cheio para histórias de superação.

É uma atleta que, afinal de contas, ficou parada por três anos — quando interrompeu a carreira em 2014 por conta da transição —, venceu uma profunda transformação no corpo, uma depressão severa e uma lesão na mão para brilhar numa das mais disputadas ligas do vôlei mundial.

A principal repercussão, no entanto, foi a velha suposição da sua vantagem física sobre as mulheres cisgênero.

Na cola do estrondoso desempenho de Tiffany no vôlei brasileiro, algumas atletas e até alguns clubes passaram, de maneira sigilosa, a questionar a validade de sua presença em quadra por conta da força de seus ataques.

A base do argumento é a transição “tardia” da ponteira, feita aos 29 anos. Seu desenvolvimento físico pleno como um homem na juventude, assim, possibilitaria maior potência e maior desempenho.

Houve até quem se posicionasse publicamente, como a oposto Tandara, com quem Tiffany divide o recorde de pontuação única na liga. A ex-jogadora Ana Paula, medalhista de bronze nas Olimpíadas de 1996, chegou até a escrever uma carta aberta questionando a liberação da jogadora.

Os apoiadores de Tiffany no vôlei

Houve quem apoiasse Tiffany, é claro, e para além das companheiras de equipe. A central Thaís, a oposto Desiree e até ex-líbero Fabi se manifestaram em sua defesa.

Elas, assim como a própria jogadora, reforçavam o escopo legal de todo o processo. A atleta, afinal, não só tem o direito de estar em quadra como está dentro de todos os parâmetros estabelecidos pelo COI e pela FIVB para lá estar.

Entre os requisitos há o tempo mínimo de transição e o nível aceitável de testosterona, o “hormônio masculino”, no sangue. Todos cumpridos à risca.

Há ainda a ponderação de que a transição em si elimina os vestígios de uma possível vantagem física das atletas transgênero. Em 2017, o técnico do Golem Palmi afirmava que Tiffany já tinha perdido cerca de 30% de sua potência original.

A própria jogadora se diz mais cansada do que o normal e com o tempo de recuperação mais demorado. E realmente o desempenho da ponteira só caiu desde a sua temporada de estreia, estatisticamente falando.

Dos 22 pontos de média em 2017, que já tinha partido de uma amostra menor que suas adversárias, baixou para 12 pontos em 2018/2019. Seus números de ataques por set e de efetividade também diminuíram.

Nos rankings da Superliga de 2019/2020 ela foi só a 17ª melhor pontuadora por sets e a 11ª pontuadora no geral. Na temporada de 2017-2018, a dos recordes, suas atuações não levaram o Bauru para além da oitava colocação — em 2016-2017, para se ter noção, o Bauru foi o 5º.

Tiffany e o preconceito

Os números de Tiffany e seus impactos reais dão margem para a reflexão: não seriam os questionamentos feitos partindo de um pressuposto preconceituoso?

Entre aqueles questionamentos anônimos de 2018 houve quem expressasse o medo de que mulheres cis perdessem espaços para mulheres trans. A carta de Ana Paula, por sua vez, foi permeada de argumentos de ordem moral e de rasas ponderações científicas.

Até Bernardinho, técnico do SESC, foi flagrado gritando “homem é foda!” após um ataque de Tiffany. Ainda que a suas desculpas e justificativas tenham sido aceitas pela jogadora, a manifestação em si aponta para uma certa agressividade em relação à condição da atleta.

Outro ângulo para ser refletido sobre a questão é a existência de diversas outras manifestações de vantagens genéticas no vôlei e em outros esportes. Pessoas mais altas, de braços mais compridos, de reflexos naturalmente mais rápidos. Existe esse tipo de repercussão para esses casos?

michael phelps pequim 2008
A aptidão física de Phelps para a natação é comprovadamente uma vantagem

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O que diz a ciência sobre Tiffany e outras jogadoras transgênero

Da ciência não há nenhum veredito, até porque as pesquisa com atletas trans sofrem com dificuldades de amostragem. Em outras palavras, não há tantos trans no esporte de alto nível.

Há, sim, a validação de argumentos para ambos os lados. Por exemplo, é um fato comprovado a atuação da testosterona no desenvolvimento do corpo masculino. Os hormônios agem como um anabolizante, aumentando a massa muscular, a densidade óssea e até as capacidades pulmonar e cardíaca.

Ao mesmo tempo, uma pesquisa com corredoras trans concluiu que a transição de gênero tem um impacto quase imediato na performance. O processo de transição é feito a partir não só da ingestão de estradiol, o “hormônio feminino”, como da administração de bloqueadores de testosterona.

A analogia da testosterona com o anabolizante continua válida, nesse caso a falta dele. A mulher trans com a transição feita após a puberdade fica, então, com um corpo mais desenvolvido só que sem os atributos químicos necessários para mantê-lo.

Nas leituras anuais da quantidade de testosterona no sangue de Tiffany, os testes apontam uma concentração de 0,2 nmol/L. O número máximo permitido é de 10 nmol/L. A média do corpo feminino é de 3 nmol/L.

Pode ser essa raiz da contínua queda de desempenho e da dificuldade de recuperação física da jogadora de Bauru nos últimos anos.

O desempenho de Tiffany no vôlei

No fim das contas, um ponto que pode ter sido decisivo para o desempenho acima da média da jogadora nos primeiros anos de vôlei feminino pode ter sido os anos de atuação na Superliga Masculina.

Bernardinho, ao justificar os gritos em quadra, explicou que estava se referindo ao gesto técnico de Tiffany, comum aos treinos do vôlei masculino. Segundo ele, há toda uma maneira de usar a palma da mão, além do controle corporal, que são característicos da modalidade.

É possível, portanto, que o estilo de jogo da ponteira, aliado, claro à sua habilidade desenvolvida, tenha surpreendido o circuito feminino brasileiro. A jogadora era, afinal, uma desconhecida da modalidade, tendo atuado somente alguns meses fora do País.

Há também a hipótese de que os métodos de treino do vôlei masculino sejam de fato mais avançados. É notória a predileção histórica de investidores e federações com o esporte masculino. Mas isso é papo para outra hora.

Depois de se aprofundar na história da Tiffany e o movimento trans no vôlei, aproveite para alimentar sua paixão por vôlei com mais conteúdos:

*Última atualização 22 de agosto de 2020

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