Entenda a luta das mulheres por igualdade no tênis e a equidade de premiações entre homens e mulheres nos Grand Slams

O machismo no esporte é um reflexo do comportamento da sociedade. Assim, seu combate só será efetivo se coordenado com mudanças na esfera civil. As vitórias conquistadas pelas atletas, no entanto, não podem passar em branco. Veja a igualdade no tênis. Ela pode não ser completa mas já estabeleceu um modelo possível e passível de ser seguido.

Desde 2007, os quatro principais torneios do circuito profissional do tênis — Australian Open, Roland Garros, US Open e Wimbledon — pagam prêmios iguais para homens e mulheres.

Por mais que não reverbere nos demais aspectos do esporte — o pagamento desigual nos demais torneios já é prova disso — a equidade nos Grand Slams serve ao menos para diminuir sensivelmente as diferenças financeiras entre os gêneros nos níveis mais altos de desempenho.

Veja a lista dos mais bem pagos esportistas do mundo. A duas únicas mulheres são justamente tenistas, a multicampeã Serena Williams e a jovem Naomi Osaka.

Claro que o ranking continua mostrando a absurda disparidade financeira entre os gêneros e o pouco impacto que tem no circuito feminino como um todo. Serena e Osaka só figuram na lista pelos seus contratos milionários de patrocínio, que a primeira conquistou por ser uma das maiores da história do esporte e a segunda pelo seu estrondoso potencial.

Ainda assim, a igualdade nos pagamentos do tênis continuam configurando um grande avanço para as mulheres de raquetes. É só olhar para trás e lembrar que há 50 anos elas tiveram de lutar para simplesmente se profissionalizar. Hoje elas têm no mínimo um exemplo para seguir — e exigir.

Premiações iguais no tênis e o exemplo a ser seguido

A equidade nos Grand Slams só foi completa em 2007, quando a organização de Wimbledon estabeleceu a divisão igualitária dos prêmios.

Dois anos depois foi a vez de Indian Wells, um dos maiores torneios “secundários” do circuito. Os abertos de Madri e Miami seguiram a tendência — três, portanto, das quatro competições principais da Women’s Tennis Association para além dos Majors, conjunto chamado de Premier Mandatory.

Os pagamentos igualitários mostraram um caminho possível para outros esportes. O “segredo” está na unificação dos torneios.

Não há um Roland Garros masculino e outro feminino. Cada Grand Slam é estabelecido como um só campeonato, só que com chaves de homens, de mulheres e até de duplas mistas.

As partidas acontecem no mesmo local e no mesmo período. Os ingressos são vendidos para o dia de competição e os pacotes de transmissão incluem ambas as modalidades. Dessa maneira, o dinheiro arrecadado é um só, possibilitando a divisão igualitária de maneira pragmática.

O modelo, seja no tênis ou nos outros esportes, consegue ir além da capacidade de maior rendimento.

É capaz também de compensar as defasagens no desenvolvimento técnico-atlético e na consolidação midiática das modalidades femininas, que por sua vez são resultado de décadas de uma mentalidade sexista entre federações desportivas investidores.

Uma transposição possível é para o futebol. Na Copa do Mundo, para ser mais específico. É, afinal, um torneio com período definido e local único. A arrecadação de um produto único pode acabar com a atual lacuna financeira entre as competições e de quebra inserir a modalidade feminina dentro da cultura geral do esporte.

Roger Federer e Venus Williams posam com os troféus de Wimbledom, em 2007
Federer e Venus Williams posam com os troféus de Wimbledon 2007, no primeiro ano de pagamentos igualitários em todos os Grand Slams

Tenistas e a luta pela igualdade de gênero no esporte

Não pense, porém, que esse tipo de mudança seria um processo simples. No próprio tênis não foi. A igualdade nos Grand Slams, por exemplo, foi resultado de uma luta de mais de 50 anos e que, na verdade, ainda não acabou.

A primeira partida competitiva de tênis entre mulheres aconteceu em 1884 mas a profissionalização da modalidade só foi ser formalizada quase cem anos depois, em 1973, com a criação da Women’s Tennis Association.

A WTA é resultado de um processo iniciado num boicote das nove principais tenistas da década de 1960 aos circuitos tradicionais e a subsequente formação de um torneio próprio, o Virginia Slims.

Entre as chamadas Original Nine (“As nove originais”), a maior delas, Billie Jean King, uma lenda do tênis, cuja grandeza se deu além dos seus mais de cem títulos conquistados. Sua militância pela igualdade no esporte foi essencial para as atuais conquistas do tênis feminino.

A importância de Billie Jean King e Batalha dos Sexos

King foi a principal articuladora da WTA e a protagonista da chamada “Batalha dos Sexos”, partida de exibição entre ela e o tenista aposentado e ex-número 1 Bobby Riggs em 1973.

O amistoso rendeu, para além de um bom dinheiro e de uma bem-vinda visibilidade para as tenistas (e um filme de Hollywood), o estabelecimento do pagamento igualitário dos prêmios por parte do US Open.

A luta seguiu na base de pressões institucionais e ameaças de boicotes. Mas só em 2001 que o Australian Open cedeu ao WTA e também igualou suas premiações. Roland Garros, só em 2005; e 2007, enfim, o Wimbledon, que curiosamente foi o palco da primeira partida de tênis feminino.

O torneio inglês também só mudou seus parâmetros financeiros a partir da pressão de jogadoras, dessa vez lideradas por Venus Williams. A campeã de 2005 publicou, em 2006, uma carta aberta: “Wimbledon me mandou uma mensagem: sou uma campeã de segunda categoria”.

O título faz referência ao pedido da tenista protocolado à organização pela equidade dos pagamentos aos vencedores, solenemente negado.

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As diferenças entre homens e mulheres no tênis

Se foram mais de 30 anos para que todos os Majors aderissem ao pagamento igualitário, o infeliz e provável cenário é que mais mudanças no tênis demorem a acontecer. E elas precisam acontecer.

Dentro das competições, mesmo os Grand Slams, a diferença no tratamento das modalidades segue muito grande.

A relação de jogos nas quadras principais dos complexos dos torneios, palcos de maior audiência e cujos acontecimentos têm maior repercussão midiática, continua pendendo para as chaves masculinas.

Ainda que não influencie o desempenho ou os rendimentos das atletas, a falta de destaque impede um maior desenvolvimento do tênis feminino como uma cultura esportiva.

Afinal, se mais evidenciada, a categoria pode angariar um maior engajamento do público para competições futuras. E olha que em 2019 o WTA Finals, na China, já teve quase o dobro da premiação do ATP Finals.

Serena Williams melhor jogadora de tênis da história
Serena Williams tem quase o dobro de Majors conquistados mas um faturamento 20% menor do que Novak Djokovic

O machismo no esporte e no tênis

A maior presença nas quadras principais dos torneios pode contribuir também para minar argumentos arcaicos de algumas organizações e até de alguns jogadores, que insistem no maior favorecimento das chaves masculinas devido ao suposto maior interesse do público.

Muitos se utilizam da frieza dos números, que de fato apontam para uma maior audiência nas partidas masculinas.

Mas as estatísticas, assim como a lógica desses argumentos, ignoram toda o histórico de desfavorecimento do tênis feminino — e de vários dos esportes praticados por mulheres, na verdade.

O front da luta contra o machismo no esporte

No fim das contas, o tênis serve de exemplo de luta por igualdade para além de seu modelo de competições unificadas e pagamentos equânimes.

Tenistas como Serena Williams e Billie Jean King abriram o precedente para outras atletas usarem das suas influências conquistadas desportivamente em prol da sua categoria.

No futebol, Megan Rapinoe, que em 2019 foi campeã mundial e eleita a Melhor do Mundo, é uma voz ativa pelo pagamento igualitário. Antes, a norueguesa Ada Hegerberg, que venceu o FIFA Best em 2018, boicotou a Copa do Mundo de 2019 em nome de melhores condições para as jogaadoras do seu país.

Seja no tênis ou em outros esportes, o caminho para a igualdade é longo, mas pelo menos há cada vez mais gente disposta a percorrê-lo.

Megan Rapinoe melhor jogadora do mundo 2019
Campeã da Copa de 2019, Megan Rapinoe foi eleita a melhor jogadora do mundo

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*Última atualização em 25 de agosto de 2020

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