Entenda o que são as torcidas Ultras da Europa: as origens, as festas e as suas relações com os casos de racismo e xenofobia

As torcidas Ultras da Europa, tal como as Organizadas no Brasil, são lares de uma eterna dicotomia.

Por um lado, são capazes de manifestações intensas de amor por seus clubes e de festas inacreditáveis, verdadeiros shows pirotécnicos e vocais capazes de mudar os rumos de uma partida.

Por outro, podem ser executoras dos mais diversos crimes, de violência física e verbal, trazendo à tona o que há de mais podre no esporte e, consequentemente, na sociedade.

Há um número significativo de Ultras na Europa com associações a ideologias de extrema-direita, seja de maneira institucional ou individualizada por parte dos seus membros, que encontram em determinados grupos um ambiente conivente com seu ódio e estupidez.

Nesse contexto, é seguro dizer que esse tipo de Ultras são responsáveis pelo alarmante aumento no número de casos de racismo e xenofobia nos estádios.

Suásticas e cruzes celtas não são coincidências no meio dos Ultras da Lazio

Um caso que ficou famoso em 2020 foi o do atacante Marega, do Porto, de Portugal, que abandonou uma partida após sofrer ofensas racistas por parte dos Ultras do Vitória de Guimarães.

Os White Angels, principal organizada do grupo, inclusive soltaram uma nota não só admitindo a autoria por parte de seus membros como fazendo a absurda acusação de um suposto “racismo reverso” do malinês, que atuou no próprio Vitória entre 2016 e 2017.

Antes de Marega, Balotelli, do Brescia, sofreu insultos de membros da torcida da Lazio.

Em 2019, ano em que foi registrado um aumento sensível nos casos de racismo e xenofobia no futebol europeu, casos como dos atacantes Lukaku, na Itália, Malcom, na Rússia e Taison e Dentinho, na Ucrânia, ganharam as manchetes em ações de membros ou grupos ligados aos Ultras.

Somado aos casos, o debate sobre esse tipo organização já vinha aquecido entre 2016 e 2018, pelos casos de violência física na Eurocopa e o temor pela Copa do Mundo.

Mais recentemente, ele foi reaceso pelo anúncio do fim da Irriducibili, uma das mais famosas, influentes e perigosas Ultras do continente.

A seguir, vamos falar sobre a origem desses grupos, sobre os casos mais representativos e também sobre os jogadores brasileiros e a infeliz recorrência de racismo e xenofobia nos estádios europeus.

As Torcidas Ultras da Europa

O aspecto que mais contribui para a dicotomia das torcidas Ultras é a denominação em si.

Ultra, no vocabulário esportivo, é praticamente o sinônimo de “torcida organizada”, isto é, todo e qualquer grupo de torcedores que se une sob uma bandeira identitária comum e com um fanatismo compartilhado por um determinado clube.

Assim, quando se fala em “Ultras da Europa”, não se refere necessariamente aos grupos extremistas de direita. É o mesmo que falar que todas as torcidas organizadas são vândalas e arruaceiras e ignorar as diversas expressões que cabem nesse tipo de organização.

A famosa “Muralha Amarela” é formada por Ultras do Borussia Dortmund

De qualquer maneira, a história auxilia muito mais na explicação dos grupos violentos do que apenas a criação de um modelo de torcida. O surgimento desses segmentos é datado mais ou menos na mesma época do que no Brasil, entre as décadas de 1950 e 1970, mas em processos diferentes.

No Brasil dos anos 50, o futebol era quase uma política governamental de Getúlio Vargas, enquanto na Europa pós Segunda Guerra Mundial, ainda que cada país tivesse suas especificidades, o futebol era uma espécie de refúgio social.

Ultras como resposta ao ambiente

O termo Ultra em si surge na Itália do anos 1970, período conhecido como os “Anos de Chumbo”, um pós-guerra intenso de instabilidade política e violência social.

Nesse contexto, não só os estádios eram ambiente mais “seguros” como a união em torno de um clube — e principalmente de um grupo dentro deste clube — tinha um apelo identitário muito maior que a nação italiana em frangalhos.

Mas os problemas políticos, ideológicos e financeiros da Itália — e de toda a Europa pós-guerra, na verdade — não influenciaram somente na coesão dos Ultras. Esses grupos, afinal, estavam “refugiados” da sociedade, não isolados dela.

Ultras da Lazio

Os ecos do nazifascismo na Itália na década de 70 eram intensos. Especialmente na capital Roma e mais ainda dentro de parte da cultura torcedora da Lazio, que tinha como torcedor ninguém menos que Benito Mussolini.

O ditador italiano, tido como um dos principais responsáveis pela expansão do fascismo como uma estratégia de governo, usou e abusou do futebol, especialmente da Seleção Italiana, como ferramenta de propaganda política.

Assim, entre os “refugiados da arquibancada italiana”, havia quem estivesse alinhado com o projeto de país de Mussolini ou pelo menos com muitos dos valores que ele buscava propagar.

Não e só a Lazio: referências a Mussolini já foram exibidos pelos Ultras da Roma (Reprodução/ESPN)

Os Irriducibili talvez fossem os mais representativos nesse sentido.

Não foram os únicos, mas os que melhor se estruturam ao longo dos anos, seja economicamente, a partir de vendas de camisetas com a marca da torcida, seja ideologicamente, se afirmando como uma ala da extrema direita na arquibancada.

O “cardápio” dos Irriducibili era completo. Violência física nas ruas; manifestações de ódio nos estádios, como nas já citadas ofensas racistas contra Balotelli; e intimidação pura e simples, como no recente caso da “proibição” de mulheres num setor específico do Estadio Olimpico.

Por 33 anos, os principais Ultras da Lazio se mantiveram basicamente incólumes na Itália, sem grandes punições ou políticas para sua extinção.

O desmembramento do grupo, anunciado em fevereiro de 2020, foi aparentemente por iniciativa própria.

Ultras x Hooligans

Não é, porém, somente a partir de refúgio e ideologias políticas odiosas que vivem as Ultras mais perigosas. Na Inglaterra, os Hooligans surgiram de um processo diferente e até anterior ao dos torcedores organizados italianos.

O pesquisador Clifford Stott diz que o contexto de crise econômica no pós-guerra inglês tirou o emprego de muitos homens, o que exacerbou uma certa “crise de masculinidade” em muitos membros da classe operária, e que a violência do hooliganismo era uma maneira de resposta, de retomada de controle.

Assim, em vez da forte questão identitária dos Ultras italianos, os Hooligans ingleses operavam na base do poder, que era exercido ou não sobre grupos rivais. Há até uma certa herança dos gângsteres do final do século XIX, que recentemente ficaram famosos por conta do seriado de televisão “Peaky Blinders”.

Briga entre tradicionais hooligans do Birmingham e West Ham

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Relatório Taylor e os hooligans de hoje

Os hooligans e suas intermináveis brigas e rivalidades dominaram o debate público no futebol inglês até os anos 1990, quando começou a transformação que levou ao que hoje é a Premier League.

Foram dois grandes acontecimentos que resultaram nesse processo. O primeiro é a tragédia de Heysel, um desmoronamento nas arquibancadas de um estádio belga durante a final da Liga dos Campeões de 1985 que matou 39 pessoas e feriu outras 600.

A torcida do Liverpool, time que fazia a final e foi derrotado pela Juventus, foi tida como responsável pelo ocorrido, por iniciar um confusão que forçou a já pobre e degradada estrutura do estádio.

O futebol inglês foi banido de competições europeias por cinco anos e o governo de Margaret Tatcher respondeu com um reforço de segurança nos campos ingleses que nada deviam às prisões, com altos alambrados, arames e segurança dobrada.

A medida acabou por levar ao segundo fato, que nem tem tanto a ver com os hooligans, mas acabou por mudar o seu futuro: o desastre de Hillsborough, que vitimou 89 torcedores do Liverpool por conta da superlotação de um setor do estádio do Sheffield Wednesday.

Após o ocorrido, o futebol inglês foi transformado a partir do Relatório Taylor, que fez basicamente o contrário das medidas de segurança de Tatcher, aproximando campo e arquibancada, mas mudando para sempre a cultura torcedora inglesa.

Hoje, Stott diz que a cultura hooligan inglesa está menos pautada na violência e mais nos jovens e no consumo de álcool.

O pesquisador inglês foi bastante requisitado em 2016, durante a Eurocopa, quando um confronto entre Ultras russos e esses “neohoolingans” arrasaram as ruas de Marselha, na França.

Leste europeu, lar das torcidas mais perigosas do mundo

Um das coisas que Stott teve de salientar foi a diferença entre os grupos, já desde o seu processo de formação. Enquanto os grupos ingleses estão em declínio, os Ultras russos e de todo o leste europeu seguem em ascensão.

As torcidas organizadas dessas bandas têm uma formatação mais similar à dos Ultras italianos, mas que vêm de um processo pós-guerra muito mais recente por contas dos inúmeros conflitos territoriais entre os anos 1980 e principalmente em 1990.

O ultranacionalismo dos Ultras sérvios, por exemplo, é bastante intenso, até pelo suposto papel decisivo na Guerra dos Balcãs.

Assim, temos, novamente, não só a violência física que marca a rivalidade entre times e torcidas como as violências verbais, a partir de recorrentes manifestações racistas e xenofóbicas, a maioria delas acontecendo sem o qualquer tipo de punição.

O que diferencia esses grupos é primeiro o poder que muitos deles têm sobre seus próprios times. Líderes dessas torcidas influenciam nas decisões diárias, seja na base da política ou da intimidação mesmo.

Depois, há a o uso de muitos desses grupos como capital político. Na Rússia, por exemplo, o caso da Euro de 2016 expôs alguns parlamentares coniventes ou mesmo alinhados com o comportamento demonstrado.

Jogadores brasileiros na Europa e os casos de racismo e xenofobia

É um engano, porém, pensar que os casos de racismo e xenofobia estão concentrados no leste europeu, ou sequer que são exclusivos das torcidas Ultras da Europa.

De fato, a questão política das torcidas e o tamanho do sentimento ultranacionalista de países como Sérvia e Ucrânia exacerba as manifestações e diminui a repercussão e branda as punições, mas o local está longe de ter a “exclusividade” do ódio.

A tese de doutorado “Dentro e fora de outros gramados: histórias orais de vida de futebolistas brasileiros negros no continente europeu”, de Marcel Diego Tonini, é muito iluminadora nesse sentido.

Colhendo relatos de alguns dos atletas com carreiras mais sólidas na Europa, Tonini mostra como o preconceito e a discriminação estão espalhados pelo velho continente e pelos diferentes personagens do futebol.

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“ Amo minha raça, luto pela cor, o que quer que eu faça é por nós, por amor… “ Jamais irei me calar diante de um ato tão desumano e desprezível ! Minhas lágrimas foram de indignação, de repúdio e de impotência, impotência por não poder fazer nada naquele momento ! Mas somos ensinados desde muito cedo a sermos fortes e a lutar ! Lutar pelos nossos direitos e por igualdade ! O meu papel é lutar , bater no peito , erguer a cabeça e seguir lutando sempre ! ✊🏿 Em uma sociedade racista, não basta não ser racista, precisamos ser antirracista ! O futebol precisa de mais respeito, o mundo precisa de mais respeito ! Obrigada a todos pelas mensagens de apoio ! Seguimos a luta …✊🏿 Net rasizmu

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Do Ultra ao Antifa

Da ação, a reação. Como falamos, a designação Ultra se refere à organização de torcedores fanáticos sobre uma bandeira identitária. Assim, da mesma maneira que grupos que se unem ao redor do ódio, há aqueles que o combatem.

Por todo o continente europeu, é possível encontrar torcidas com ideologias progressistas. Os casos do Rayo Vallecano, na Espanha, e St. Pauli, na Alemanha, talvez sejam os mais ilustres pelo alinhamento político com o clube em si.

Na Alemanha, inclusive, o fenômeno Ultra é mais recente e está mais relacionado à esquerda do que à direita. A postura antirracista e antixenofóbica é comum nas arquibancadas germânicas.

Há também as torcidas que são deliberadamente antifascistas, não apenas nas ações mas na questão identitária, carregando bandeiras e os símbolos da corrente política. O aumento desses grupos é também uma tendência no Brasil.

A questão dos refugiados é bastante lembrada pelas torcidas progressistas alemãs. (Foto: Projeto Koelnerfan)

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*Última atualização em 11 de agosto de 2020

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