Você sabia que o maior arremessador de peso da história do Brasil sonhava, quando criança, em ser motorista de ônibus? Pois é. Darlan Romani nasceu em 9 de abril de 1991, em Concórdia, no Oeste de Santa Catarina, filho de um pai que tinha uma empresa de transporte. O destino natural era o volante. Acabou sendo a bola de 7,26 kg de chumbo, e com ela o catarinense virou campeão mundial, recordista sul-americano e o atleta que mais perto chegou de uma medalha olímpica para o Brasil na prova.
Em julho de 2026, depois de quase dois anos parado e três cirurgias na coluna, o Senhor Incrível voltou a competir. Vem com a gente contar essa história desde o começo.
De Concórdia para Uberlândia: o começo de Darlan Romani
Darlan entrou no atletismo no começo da adolescência, em Concórdia, puxado pelo irmão mais velho, Vinícius. Tentou a velocidade, mas o tamanho falou mais alto e ele foi parar no arremesso do peso. No início, não havia plano de carreira: ele foi ficando mais forte, começou a vencer provas e tomou gosto pelas viagens, segundo o perfil oficial da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt).
Tem uma cena dessa fase que o próprio Darlan gosta de contar. Em entrevista ao Lance!, em 2024, lembrou que o professor da escola disse a ele, logo no começo: “Um dia, vou te ver nas Olimpíadas”. A partir dali, o menino passou a assistir a todas as provas de atletismo que conseguia.
Os pais preferiam vê-lo cuidando da empresa da família. Ele insistiu, saiu de casa no fim da adolescência e se mudou para Uberlândia (MG). Em 2010, foi sexto no Mundial de Juvenis (atual sub-20), em Moncton, no Canadá. Desde aquele ano passou a ser treinado pelo cubano Justo Navarro, com quem saiu de 17,19 m para mais de 22 metros.
Nem tudo foi linear. Em 2011, Darlan precisou mudar a técnica de arremesso para poupar os joelhos, perdeu quase a temporada inteira e chegou a correr o risco de abandonar o esporte. Deu certo: o recorde brasileiro é dele desde 2012, e ele quebrou a própria marca tantas vezes que, em 2016, segundo o ge, nem sabia mais quantos recordes nacionais tinha.
Rio 2016: um arremesso só para chegar à final
A estreia olímpica foi em casa, no Engenhão, em 18 de agosto de 2016. Com 1,88 m e 145 kg (o treinador não queria que ele emagrecesse, porque o peso ajuda na explosão), Darlan precisou de uma única tentativa na classificatória: 20,94 m, recorde brasileiro, acima da marca automática de 20,65 m. Na mesma noite, terminou a final em quinto lugar.
Anos depois, ao Lance!, ele escolheu justamente aquela classificação como o momento mais marcante da carreira olímpica: “Todo atleta sonha em estar numa final olímpica, estar entre os grandes”.
Os 22 metros e o quarto lugar mais cruel da história
Depois de um 2017 mais discreto, mas com o primeiro recorde sul-americano (21,82 m), Darlan virou outro atleta. No Troféu Brasil de 2018, chegou a 22,00 m e, em setembro daquele ano, ganhou o ouro na Copa Continental de Ostrava, representando as Américas, à frente do campeão mundial Tom Walsh.
O ano de 2019 foi o da explosão. Em 30 de junho, na etapa de Eugene da Liga Diamante, ele quebrou o recorde sul-americano três vezes na mesma tarde (22,46 m, 22,55 m e 22,61 m) e venceu a prova à frente de Ryan Crouser. Com 22,61 m, segundo o ge, teria sido campeão olímpico na Rio 2016. Pouco depois, no Pan de Lima, venceu com 22,07 m, recorde da competição, depois de uma febre causada por infecção na garganta que quase o tirou da disputa.
Aí veio Doha. No Mundial de 2019, Darlan fez 22,53 m na segunda tentativa, marca que, segundo a CBAt, daria o título em qualquer edição anterior de Mundial ou Olimpíada. Ele segurou o bronze até a última rodada, quando Joe Kovacs soltou 22,91 m e o empurrou para o quarto lugar numa final em que os quatro primeiros passaram dos 22 metros. Na nossa opinião, foi o quarto lugar mais injusto que o atletismo brasileiro já viveu.
Tóquio 2020: a 59 centímetros do pódio
A preparação para Tóquio foi um caos: hérnia de disco operada em 2021, covid-19 e seis meses sem competir. Mesmo assim, ele abriu a final com 21,88 m e fechou a primeira rodada em terceiro. Tomas Walsh o passou logo na segunda rodada e, no fim, o bronze ficou com o neozelandês (22,47 m). Darlan terminou em quarto, a 59 centímetros da medalha, melhor resultado do Brasil na prova em Olimpíadas.
Emocionado, desabafou ao ge: “Mais uma vez sou quarto, mas não quero mais isso na minha vida”. E prometeu: “Se eu dava 200%, agora vou dar 300%”.
Belgrado 2022: o dia em que o Senhor Incrível venceu Crouser
A promessa foi cumprida sete meses depois. Em 19 de março de 2022, no Mundial Indoor de Belgrado, na Sérvia, Darlan abriu com 21,74 m e 21,79 m, dois recordes sul-americanos em pista coberta. Crouser, bicampeão olímpico e recordista mundial, que não perdia uma competição havia três anos, liderava com 22,44 m. Na terceira tentativa, o catarinense mandou 22,53 m, recorde do campeonato, e assumiu a ponta para não largar mais. Crouser ficou com a prata e Walsh com o bronze (22,31 m).
Foi o título mundial que faltava. Naquele mesmo ano, Darlan ainda foi quinto no Mundial ao ar livre, em Eugene. Em 2023, depois de uma lesão no ombro, fez 22,37 m na classificatória do Mundial de Budapeste, marca de pódio, mas terminou a final em oitavo, com 21,41 m. “Acertei o dia, mas errei o momento”, resumiu ao ge. No mesmo ano, foi bicampeão pan-americano em Santiago.
Paris 2024 e a artrodese: a fase mais dura
Em junho de 2024, durante a preparação em León, na Espanha, a dor lombar voltou. Era uma recidiva da hérnia nas vértebras L4 e L5, e a comunicação oficial de que ele estava fora de Paris saiu em 23 de julho de 2024. Darlan contou ao Lance! que assistiu à prova em casa, com a família, e chorou o tempo todo.
A segunda cirurgia não resolveu. Em fevereiro de 2025, ele passou por uma artrodese lombar, procedimento que uniu as vértebras com sete parafusos. “É uma cirurgia maior, uma cirurgia grande, uma recuperação mais lenta, mas é definitiva. Hoje não sinto mais dor, zero dor”, disse ao Lance! em outubro de 2025. Nesse período, morando em Uberlândia, defendendo o Praia Clube, ele começou a faculdade de Educação Física e ficou mais perto da esposa, a ex-saltadora com vara Sara Romani, e das filhas Alice e Helena.
Darlan Romani em 2026: a volta às competições
O retorno oficial veio no Campeonato Paulista Adulto, no começo de julho de 2026, com 19,83 m e o índice para o Troféu Brasil. No Ibirapuera, em 26 de julho, Darlan liderou a prova até a última rodada com 20,35 m, evoluindo a cada tentativa válida, mas Welington Morais respondeu com 20,44 m no arremesso final e ficou com o título. Prata, 52 centímetros a mais que no Paulista, segundo o Olimpíada Todo Dia.
“Não é fácil voltar, a nossa cabeça balança bastante, mas estamos aí!”, disse ao Time Brasil. Até a data desta publicação, o Troféu Brasil é a última competição dele registrada na imprensa, e o alvo segue declarado: Los Angeles 2028. “Fui quinto, fui quarto, pedi baixa na última. Na próxima, não pode escapar a medalha”, já avisava em 2024. Para entender o momento do peso no país, veja também nosso ranking de atletas brasileiros dos lançamentos, arremessos e marcha.
Principais resultados de Darlan Romani
| Ano | Competição | Resultado |
|---|---|---|
| 2010 | Mundial de Juvenis (Moncton) | 6º lugar |
| 2016 | Jogos Olímpicos (Rio de Janeiro) | 5º lugar, 21,02 m |
| 2018 | Copa Continental (Ostrava) | Ouro, 21,89 m |
| 2019 | Liga Diamante (Eugene) | Ouro, 22,61 m (recorde sul-americano) |
| 2019 | Jogos Pan-Americanos (Lima) | Ouro, 22,07 m |
| 2019 | Mundial (Doha) | 4º lugar, 22,53 m |
| 2021 | Jogos Olímpicos (Tóquio) | 4º lugar, 21,88 m |
| 2022 | Mundial Indoor (Belgrado) | Ouro, 22,53 m (recorde do campeonato) |
| 2023 | Mundial (Budapeste) | 8º lugar, 21,41 m |
| 2023 | Jogos Pan-Americanos (Santiago) | Ouro, 21,36 m |
| 2026 | Troféu Brasil (São Paulo) | Prata, 20,35 m |
Quer conhecer outras trajetórias do atletismo brasileiro? Leia as histórias de Alison dos Santos, o Piu e de Caio Bonfim, e confira as regras do atletismo.
Quiz: você conhece a história de Darlan Romani?
Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.
1. Em que cidade Darlan Romani nasceu?
2. Em que cidade Darlan foi campeão mundial indoor, em 2022?
3. Em que etapa da Liga Diamante Darlan quebrou o recorde sul-americano três vezes no mesmo dia, em 2019?
4. Em Tóquio 2020, a quantos centímetros do bronze Darlan ficou?
5. Qual é o apelido carinhoso de Darlan Romani?
Seus acertos:
Fontes: ge, Olimpíada Todo Dia, CBAt, World Athletics, Lance!, Agência Brasil, Track & Field News.