Lúcio foi o zagueiro que não pedia licença para atacar: roubava a bola na área e saía com ela dominada até o campo adversário, para desespero de técnicos e alegria da torcida. Nascido em Planaltina (DF) em 8 de maio de 1978, ele jogou 105 vezes pela Seleção, foi titular no penta de 2002, capitão na Copa de 2010 e ganhou a tríplice coroa com a Inter de Milão de José Mourinho em 2009-10. Vem com a gente relembrar a história, os times e os títulos de Lucimar da Silva Ferreira.
Lúcio em números: times e títulos
| Clube | Período | Principais títulos |
|---|---|---|
| Gama e Guará (DF) | até 1997 | Início de carreira no futebol candango |
| Internacional | 1997 a 2000 | Campeonato Gaúcho 1997; Copa São Paulo de Futebol Júnior 1998 |
| Bayer Leverkusen (ALE) | 2001 a 2004 | Vice da Liga dos Campeões, da Bundesliga e da Copa da Alemanha em 2001-02 |
| Bayern de Munique (ALE) | 2004 a 2009 | Bundesliga e Copa da Alemanha (2004-05, 2005-06 e 2007-08); Copa da Liga Alemã (2004 e 2007) |
| Inter de Milão (ITA) | 2009 a 2012 | Liga dos Campeões, Serie A e Copa da Itália 2009-10; Copa da Itália 2010-11; Supercopa da Itália 2010; Mundial de Clubes 2010 |
| Juventus (ITA) | 2012 | Supercopa da Itália 2012 |
| São Paulo | 2013 | – |
| Palmeiras | 2014 | – |
| FC Goa (IND) | 2015 | Vice da Indian Super League |
| Gama | 2018 | – |
| Brasiliense | 2019 | Último clube; aposentadoria em 29/01/2020 |
| Seleção Brasileira | 2000 a 2011 | Copa do Mundo 2002; Copa das Confederações 2005 e 2009 (105 jogos, 4 gols) |
No total, segundo o Correio Braziliense, foram 22 anos de carreira, 779 partidas e 53 gols. Com a amarelinha, o retrospecto foi de 68 vitórias, 26 empates e só 11 derrotas.
Do Distrito Federal ao Beira-Rio: o 7 a 0 que mudou tudo
A história de Lúcio começa com uma goleada sofrida. Em 18 de fevereiro de 1997, o Guará, que tinha o jovem zagueiro emprestado pelo Gama, levou 7 a 0 do Internacional no Mané Garrincha, pela Copa do Brasil. Naquela noite ele até jogou improvisado na lateral direita. Mesmo assim, o técnico colorado Celso Roth gostou tanto do que viu que pediu a contratação ao fim do jogo. Roth lembrou ao Correio Braziliense que viu ali um menino voluntarioso, alto, forte e rápido, com as características que marcariam a carreira dele.
No Inter, Lucimar virou Lúcio por obra do técnico da base, Guto Ferreira. Foi capitão do time campeão da Copinha de 1998 e, com 20 anos ainda por fazer, já usava a braçadeira no Gauchão, decisão de Roth que gerou críticas no Rio Grande do Sul. Para entender o tamanho do clube que o lançou, vale passear pela história do Internacional. E se você quer saber quem fazia os gols enquanto ele segurava a defesa, confira os maiores artilheiros do Internacional.
A estreia pela Seleção veio ainda como jogador colorado: 15 de novembro de 2000, vitória por 1 a 0 sobre a Colômbia, no Morumbi, pelas Eliminatórias.
Bayer Leverkusen: o vice que doeu e o gol em Glasgow
Lúcio chegou ao Bayer Leverkusen em janeiro de 2001. O dirigente Rainer Calmund o definiu na contratação como um jogador capaz de derrubar paredes, e a temporada 2001-02 mostrou por quê. O Leverkusen bateu o Liverpool por 4 a 2 nas quartas da Liga dos Campeões, com gol importante de Lúcio, e foi até a final.
Em 15 de maio de 2002, em Hampden Park, Raúl abriu o placar para o Real Madrid aos 8 minutos. Seis minutos depois, numa falta cobrada por Bernd Schneider, Lúcio subiu mais que Fernando Hierro e empatou de cabeça. A alegria durou até o fim do primeiro tempo, quando Zidane acertou aquele voleio de canhota que todo mundo já viu mil vezes. Real 2 a 1. No relato da UEFA, Lúcio ainda aparece nas suas famosas arrancadas ao ataque na pressão final e num carrinho corajoso que tirou um gol de Morientes.
Aquele Leverkusen terminou a temporada com três vices: Liga dos Campeões, Bundesliga (por um ponto) e Copa da Alemanha, perdida para o Schalke 04. Pelo clube, foram 122 jogos e 21 gols, segundo o próprio Leverkusen.
Penta em 2002: camisa 3 e lágrimas em Yokohama
Semanas depois de Glasgow, Lúcio vestiu a camisa 3 do Brasil de Luiz Felipe Scolari na Copa da Coreia do Sul e do Japão. Jogou todos os minutos das sete partidas, da estreia contra a Turquia à final contra a Alemanha. Nem tudo foi perfeito: nas quartas contra a Inglaterra, ele falhou num lance e se recuperou dentro do mesmo jogo, vencido por 2 a 1.
Na final, 2 a 0 sobre a Alemanha em Yokohama, Lúcio chorou e rezou de joelhos no gramado. Anos depois, ao deixar sua assinatura no Muro dos Campeões do museu da FIFA, em Zurique, resumiu ao Correio Braziliense: “O melhor momento da Copa do Mundo de 2002 foi, sem dúvida, o apito final do árbitro”. Ao lado de Cafu, o capitão do penta, ele formou a defesa que levou o Brasil à quinta estrela.
Bayern de Munique: oito taças e as arrancadas que Magath adorava
No verão europeu de 2004, o Bayern foi buscá-lo. Karl-Heinz Rummenigge o apresentou como peça-chave do novo time. Em cinco temporadas, foram 218 jogos, 12 gols e oito títulos, segundo o clube: os dobletes de Bundesliga e Copa da Alemanha em 2004-05, 2005-06 e 2007-08, mais duas Copas da Liga Alemã. Em 2007-08, o Bayern foi campeão com dez pontos de vantagem sobre o Werder Bremen e só 21 gols sofridos.
A marca registrada eram as subidas pelo meio-campo, bola no pé, cabeça erguida. Felix Magath resumia: “Lúcio é um jogador que não quer perder e não pode perder”. Com Ottmar Hitzfeld, a partir de 2007, ele passou a se preocupar mais com a defesa, e a muralha dos 21 gols sofridos virou recorde da Bundesliga. A despedida veio em 23 de maio de 2009, numa vitória por 2 a 1 sobre o Stuttgart. No dia em que se reapresentou em Munique, ouviu do novo técnico, Louis van Gaal, que não estava nos planos.
Inter de Milão: a tríplice coroa e o troco em Madri
Se o Bayern não o queria, a Inter de Mourinho queria muito. Contratado em 2009, Lúcio fez dupla com o argentino Walter Samuel e virou peça central logo na primeira temporada, aquela da tríplice coroa: Serie A, Copa da Itália e Liga dos Campeões, o primeiro triplete de um clube italiano.
O roteiro da final parece filme. Em 22 de maio de 2010, no Santiago Bernabéu, a Inter enfrentou justamente o Bayern de van Gaal. Lúcio foi titular com a camisa 6, ao lado de Júlio César e Maicon, e Diego Milito fez os dois gols do 2 a 0. Segundo o próprio Bayern, os torcedores alemães aplaudiram de pé o ex-zagueiro depois do jogo. Admito o carinho aqui: poucas vinganças no futebol foram tão elegantes.
Em dezembro de 2010 veio o Mundial de Clubes, em Abu Dhabi: 3 a 0 sobre o Mazembe, o mesmo time congolês que tinha eliminado o Internacional na semifinal. Pela Inter, foram 136 jogos, 5 gols e seis títulos em três temporadas, segundo o clube, que ainda celebra o aniversário dele todo 8 de maio, como fez em 2026.
Capitão da Seleção: 2006, 2009 e 2010
Lúcio foi titular em três Copas seguidas. Em 2006, na Alemanha, o Brasil caiu nas quartas diante da França, 1 a 0 em Frankfurt. Com Dunga, a partir de 2006, ganhou a braçadeira e a carregou até a Copa de 2010.
A virada de Joanesburgo
O momento mais marcante como capitão veio em 28 de junho de 2009, no Ellis Park. Os Estados Unidos abriram 2 a 0 no primeiro tempo, com Dempsey e Donovan. Luís Fabiano diminuiu logo no começo da etapa final e empatou no rebote de uma bola de Robinho no travessão, após cruzamento de Kaká. A menos de dez minutos do fim, Elano cobrou escanteio e Lúcio subiu mais que todo mundo para cabecear no canto: 3 a 2, tricampeonato da Copa das Confederações. “De virada ficou muito mais gostoso, mais emocionante”, disse ao fim do jogo, segundo a Gazeta do Povo. Foi o último dos seus quatro gols pela Seleção e o título mais marcante da era dele com a braçadeira.
Quatro anos antes, na Alemanha, ele já tinha sido campeão da Copa das Confederações de 2005, com direito a 4 a 1 sobre a Argentina na final.
África do Sul e o adeus
Na Copa de 2010, Lúcio jogou as cinco partidas como capitão, até a derrota por 2 a 1 para a Holanda nas quartas. Ainda disputou a Copa América de 2011 na Argentina, jogando as quatro partidas, até a eliminação nos pênaltis para o Paraguai. A última partida foi em 5 de setembro de 2011, 1 a 0 sobre Gana, em Londres. Com 105 jogos, ele está hoje em sétimo na lista dos que mais vestiram a camisa da Seleção, segundo a RSSSF, atrás de Cafu, Neymar, Daniel Alves, Roberto Carlos, Thiago Silva e Marquinhos. Para ver onde ele se encaixa entre os grandes defensores do país, confira nossa lista dos melhores zagueiros do Brasil e a história da Seleção Brasileira.
Juventus, São Paulo, Palmeiras e Índia: a reta final
Em 2012, Lúcio trocou a Inter pela rival Juventus, mas a passagem foi curta: quatro jogos, entre eles a final da Supercopa da Itália em Pequim, e rescisão amigável em 17 de dezembro de 2012. No dia seguinte, o São Paulo anunciou o zagueiro por duas temporadas. O dirigente Adalberto Baptista chamou a contratação de sonho antigo do clube. O casamento azedou: em julho de 2013 ele foi afastado por indisciplina e, em 2 de janeiro de 2014, rescindiu o contrato.
Uma semana depois, assinou com o Palmeiras e virou o 12º pentacampeão de 2002 a vestir a camisa do Verdão. Na chegada, avisou: “Não tenho de provar nada para ninguém”. Em junho de 2015, a pedido de Zico, foi para o FC Goa como jogador de destaque da Indian Super League e, como capitão, chegou à final, perdida por 3 a 2 para o Chennaiyin de Marco Materazzi.
Em março de 2016, sem clube, ainda foi chamado por Dunga para acompanhar a Seleção como auxiliar pontual em dois jogos das Eliminatórias. E não parou: voltou ao Gama no fim de 2017 (“Quero continuar jogando bola, que é uma coisa que amo e gosto”) e fechou a carreira no Brasiliense. Em 29 de janeiro de 2020, anunciou: “Hoje, eu encerro minha carreira como atleta profissional de futebol”. Segundo a Goal, era o último dos 23 campeões de 2002 ainda em atividade.
Lúcio hoje: o acidente de 2025 e a vida fora de campo
Depois de pendurar as chuteiras, Lúcio montou um museu particular com camisas, chuteiras, réplicas de troféus e medalhas em seu escritório em Porto Alegre, e chegou a falar em fazer curso de treinador ou de diretor. Em maio de 2025, sofreu um acidente doméstico com uma lareira ecológica e teve 18% do corpo queimado. Internado em 15 de maio em Brasília, passou por cirurgias, seguiu o tratamento em Porto Alegre e recebeu alta em 4 de junho, depois de 20 dias internado. À CNN Brasil, contou que “a caminhada é longa, mas, sem dúvidas, eu estou disposto a enfrentar tudo isso”. Até outubro de 2026, a imprensa não registra cargo dele em clube ou na CBF.
Perguntas frequentes
Qual é o nome completo de Lúcio?
Lucimar da Silva Ferreira. Ele chegou ao Inter como Lucimar e ganhou o apelido de Lúcio na base colorada.
Lúcio foi capitão do Bayern ou da Inter?
Segundo o Correio Braziliense, ele usou a braçadeira no Leverkusen, no Bayern e na Inter, além da Seleção na Copa de 2010.
Quantos títulos Lúcio ganhou na carreira?
Antes da final da Indian Super League de 2015, o Correio Braziliense contava 19 títulos entre Internacional, Bayern, Inter, Juventus e Seleção. O vice na Índia manteve a conta.
Quiz: você conhece o zagueiro Lúcio?
Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.
1. Em que cidade do Distrito Federal Lúcio nasceu?
2. Contra qual time Lúcio marcou de cabeça na final da Liga dos Campeões de 2002?
3. Quem cobrou o escanteio do gol de Lúcio na final da Copa das Confederações de 2009?
4. Quantos jogos Lúcio fez pela Seleção Brasileira principal?
5. Qual técnico disse a Lúcio que ele não estava nos planos do Bayern em 2009?
Seu placar:
Fontes: RSSSF, UEFA, FC Bayern, Bayer 04 Leverkusen, Inter, Bundesliga, Correio Braziliense, Gazeta do Povo, Trivela, CNN Brasil, Palmeiras, Gazeta Esportiva, Jornal de Brasília, Diário do Litoral, El Universo, FIFA, Goal, Onmanorama.