Na ginástica artística, a nota final de cada série é a soma de duas notas: a nota D (dificuldade), que não tem teto e mede o conteúdo do exercício, e a nota E (execução), que parte de 10 pontos e perde décimos a cada falha. Das duas somas saem ainda as penalidades neutras, como sair da área do solo ou estourar o tempo. As regras estão no Código de Pontuação da Federação Internacional de Ginástica (FIG) para o ciclo 2025-2028.
O próprio Código traz um exemplo de cálculo no feminino: uma série com nota D de 5,70 (3,10 de dificuldade, 2,00 de exigências de composição e 0,60 de bônus de ligação) e nota E de 9,00 (10,00 menos 1,00 de descontos) termina com 14,70.
Resumo: como se forma a nota
| Componente | O que avalia | Valor no Código 2025-2028 |
|---|---|---|
| Nota D (dificuldade) | Valor dos elementos, exigências de composição, ligações e bônus | Aberta, sem limite máximo |
| Valor de cada elemento | Letras de A a J | A = 0,10 até J = 1,00 |
| Exigências de composição (feminino) | Tipos de elemento obrigatórios em barras, trave e solo | Até 2,00 pontos |
| Bônus de ligação (feminino) | Combinações diretas ou indiretas de elementos | +0,10 ou +0,20 por ligação |
| Nota E (execução) | Técnica, postura, aterrissagem e, no feminino, artística | Parte de 10,00 e recebe descontos |
| Queda | Queda no colchão ou no aparelho | 1,00 ponto de desconto |
| Penalidades neutras | Tempo, linha, conduta, uniforme | Tiradas da nota final |
Nota D: a dificuldade da série
A nota D é definida pelo júri D e representa o conteúdo do exercício. Cada elemento da tabela do Código tem uma letra, e cada letra vale um décimo a mais que a anterior: A vale 0,10, B vale 0,20, C vale 0,30 e assim por diante até J, que vale 1,00. Como a tabela é aberta, a FIG pode incluir novos elementos e novos valores ao longo do ciclo.
No feminino
Nas barras assimétricas, na trave e no solo, a nota D soma:
- os 8 elementos de maior valor, incluindo a saída;
- as exigências de composição, que valem no máximo 2,00 pontos (no solo, por exemplo, são quatro exigências de 0,50: uma passagem de dança com dois saltos diferentes, um mortal com pirueta de pelo menos 360 graus, um mortal duplo e um mortal para trás e outro para frente);
- o bônus de ligação, de 0,10 ou 0,20 por combinação, conforme as fórmulas de cada aparelho;
- o bônus de saída de 0,20, concedido quando a saída tem valor D ou superior e é feita sem queda.
Um mesmo elemento só recebe valor uma vez por série, em ordem cronológica. Se a ginasta falha em cumprir o requisito técnico, o elemento pode ser reconhecido como outro da tabela, valer uma letra a menos ou não valer nada.
No masculino
O Código masculino conta os 7 melhores elementos (no máximo 4 do mesmo grupo) mais o valor da saída. A esse total se somam as exigências de grupo de elementos: cada grupo cumprido com um elemento D ou superior vale 0,50, e com elementos A, B ou C vale 0,30. Na saída, o valor de grupo é igual ao valor de dificuldade do elemento (uma saída F soma 0,60 de dificuldade e mais 0,60 de grupo), regra que não se aplica ao solo. Há ainda pontos de ligação em combinações diretas de elementos de alto valor e um bônus de 0,10 para a aterrissagem cravada, o chamado “stick”, após saída de valor C ou superior, exceto no cavalo com alças.
No salto sobre a mesa
O salto funciona de outro jeito: a nota D é simplesmente o valor do salto na tabela do Código. No feminino, o Yurchenko com dupla pirueta estendido (Baitova) vale 5,00, o Amanar (duas piruetas e meia) vale 5,40 e o Yurchenko com duplo mortal carpado, batizado de Biles, vale 6,40, o mais alto da tabela. Nas eliminatórias, na final por equipes e na final individual geral, o atleta faz um salto. Para disputar a final do aparelho e na própria final, faz dois saltos de grupos diferentes, e a nota é a média dos dois. No feminino, há ainda bônus de 0,20 quando os dois saltos têm mortais em direções diferentes (um para frente e outro para trás), desde que sem queda.
Nota E: a execução vale 10 pontos
A nota E começa em 10,00 e o júri de execução desconta cada desvio da execução perfeita. No feminino, os descontos de execução e de artística são somados e subtraídos de 10,00. As faixas de desconto são quatro:
- pequeno: 0,10 (pés não estendidos, pés afastados na aterrissagem, pequeno passo extra);
- médio: 0,30 (passo muito grande na aterrissagem, tocar o aparelho ou o colchão com as mãos sem cair, altura insuficiente);
- grande: 0,50 (agachamento profundo na aterrissagem; braços ou joelhos flexionados podem custar de 0,10 a 0,50);
- muito grande: 1,00 (queda no colchão ou no aparelho, apoio das mãos no chão, não aterrissar com os pés primeiro).
Sem queda, o desconto máximo por aterrissagem no feminino é de 0,80. Para evitar que um árbitro isolado decida o resultado, o Código descarta as notas extremas: com sete ou cinco árbitros de execução, vale a média das três notas centrais; com quatro, a média das duas centrais. No masculino, a lógica é a mesma, e a queda também custa 1,0 ponto.
Penalidades que saem da nota final
Além dos descontos de execução, o júri D aplica penalidades neutras diretamente sobre a nota final. Alguns exemplos do Código feminino:
- Linha no solo: o tablado tem 12 m x 12 m. Pisar fora com um pé ou uma mão custa 0,10; com os dois pés, as duas mãos ou outra parte do corpo, 0,30.
- Tempo: as séries de trave e de solo têm no máximo 1min30 (90 segundos). A partir de 91 segundos, desconto de 0,10.
- Música com letra no solo: desconto de 1,00. A voz humana só é aceita como instrumento, sem palavras.
- Série curta: com 5 ou 6 elementos, a ginasta perde 4,00; com 3 ou 4, perde 6,00; com 1 ou 2, perde 8,00.
- Conduta e uniforme: não cumprimentar o júri, colã fora das regras ou falta de identificação também geram desconto.
Uma queda ainda tem efeito na nota D: a ligação feita com queda perde o bônus, e a saída com queda perde o bônus de 0,20.
Os aparelhos e o que muda em cada um
O feminino tem quatro aparelhos e o masculino, seis. A Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) resume o desafio de cada um: no salto, “a potência e a velocidade”; nas barras assimétricas, “fluidez e a conexão entre os movimentos”; na trave, “equilíbrio, a concentração e a confiança”. No masculino, a CBG destaca que as argolas exigem “força e estabilidade” e que o cavalo com alças pede continuidade “sem contato do corpo com o aparelho”. Para conhecer cada aparelho em detalhe, veja o guia sobre os aparelhos da ginástica artística.
| Feminino | Masculino |
|---|---|
| Salto sobre a mesa | Solo |
| Barras assimétricas | Cavalo com alças |
| Trave | Argolas |
| Solo | Salto sobre a mesa |
| Barras paralelas | |
| Barra fixa |
Na final individual geral, a nota do atleta é a soma das notas finais em todos os aparelhos: quatro no feminino e seis no masculino.
Elementos com nome de ginastas brasileiros
Quando um ginasta apresenta pela primeira vez um elemento inédito em competição oficial da FIG, o movimento pode ganhar o seu nome. O Código feminino exige que o elemento tenha valor C ou superior, seja feito com sucesso para contar dificuldade e passe pela análise do Comitê Técnico. Se dois atletas fizerem o mesmo elemento inédito na mesma competição, ele leva o nome de ambos.
O Brasil tem nomes registrados no Código 2025-2028:
- Dos Santos (Daiane dos Santos), no solo feminino: o duplo arabian carpado vale F (0,60) e a versão estendida vale H (0,80).
- Oliveira dos Santos (Lorrane Oliveira), no solo feminino: arabian duplo carpado com meia pirueta, registrado na Copa do Mundo de Doha de 2021.
- Hypolito, no solo masculino: elemento do grupo de acrobacias para trás com valor G (0,70), que leva o nome de Diego Hypolito.
Para comparação, o duplo mortal para trás grupado com tripla pirueta, que leva o nome de Simone Biles, tem valor J (1,00), a letra mais alta da escala.
E o salto “Andrade”, de Rebeca?
Antes dos Jogos de Paris 2024, Rebeca Andrade submeteu à FIG um salto inédito: um Yurchenko com tripla pirueta (1.080 graus). Segundo a Folha de Pernambuco, se executado com sucesso o movimento seria batizado de “Andrade”. Rebeca, porém, não apresentou o salto em Paris, como registrou o Lance em agosto de 2024, e por isso ele não recebeu o nome dela. Na versão do Código de Pontuação 2025-2028 publicada pela FIG e consultada em 27 de setembro de 2026, não existe elemento com o nome Andrade, e o Yurchenko com tripla pirueta não aparece na tabela de saltos.
Por que o Código muda a cada ciclo
A FIG revisa o Código de Pontuação a cada ciclo olímpico. O documento atual foi aprovado pelo Comitê Executivo da FIG em fevereiro de 2024 e vale para o ciclo 2025-2028; as versões disponíveis no site da federação são de abril de 2025 (masculino) e maio de 2025 (feminino). Mudanças nos valores dos elementos e nas exigências de composição alteram o que compensa arriscar, e é por isso que as notas de um ciclo não podem ser comparadas diretamente com as de outro. Quem quiser entender como o esporte chegou até aqui pode ler a história da ginástica artística.
Perguntas frequentes
Qual é a nota máxima na ginástica artística?
Não existe nota máxima desde que a nota D passou a ser aberta. Apenas a nota E tem teto, de 10,00. A nota final é a soma da nota D com a nota E, menos as penalidades.
Quanto custa uma queda?
No Código 2025-2028, a queda custa 1,00 ponto na nota E, tanto no feminino quanto no masculino. No feminino, uma ligação com queda também perde o bônus e a saída com queda perde o bônus de 0,20.
Quantos elementos contam na nota D?
No feminino, contam os 8 elementos de maior valor, incluindo a saída, nas barras, na trave e no solo. No masculino, contam os 7 melhores elementos mais a saída. No salto, a nota D é o valor do salto na tabela.
Como um elemento ganha o nome de um ginasta?
O ginasta precisa ser o primeiro a executá-lo com sucesso em uma competição oficial da FIG, com valor C ou superior no feminino, e a FIG confirma o valor e o nome após análise do Comitê Técnico.
Rebeca Andrade tem um elemento com o nome dela?
Não no Código 2025-2028 consultado. O salto que poderia se chamar “Andrade”, um Yurchenko com tripla pirueta, foi submetido antes de Paris 2024, mas não foi executado nos Jogos.
Fontes: Federação Internacional de Ginástica (FIG), Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), Lance, Folha de Pernambuco.