Imagine o Estádio Olímpico de Helsinque, em 1952, a final do salto triplo recém-decidida. Um paulista de 24 anos não vai direto para o vestiário: começa a correr pela pista inteira, de braços no ar, agradecendo ao público. Segundo a Confederação Brasileira de Atletismo, ali nascia a volta olímpica. O paulista era Adhemar Ferreira da Silva, e essa cena já diz bastante sobre o personagem.

Da Casa Verde ao salto triplo

Adhemar nasceu em 29 de setembro de 1927, no bairro da Casa Verde, em São Paulo. A mãe, Augusta, era cozinheira, e o pai, Antônio, trabalhava na ferrovia. Ele só chegou ao atletismo aos 19 anos, no São Paulo Futebol Clube, treinando na hora do almoço sob o comando do alemão Dietrich Gerner, conforme a CBAT.

A evolução foi rápida. Em 1950, ele saltou 16,00 m, marca que igualava um recorde mundial de 14 anos, segundo a Encyclopaedia Britannica. No ano seguinte, a Britannica registra que ele superou o recorde por um centímetro, numa competição nacional no Rio de Janeiro. Quando embarcou para a Finlândia, o Brasil não mandava uma promessa, mandava um favorito.

Helsinque 1952: o ouro e a pista inteira

Nas eliminatórias, Adhemar passou com 15,32 m. Na final, o segundo salto já foi recorde mundial, com 16,12 m, e a melhor marca veio no último: 16,22 m, de acordo com a CBAT. A Britannica conta que ele bateu o recorde mundial duas vezes na mesma final, em menos de duas horas.

Depois veio a corrida de agradecimento. O soviético Leonid Shcherbakov, prata em Helsinque, tomaria o recorde no ano seguinte por apenas um centímetro, mas ninguém tira de Adhemar o título nem a cena. Minha opinião: se a volta olímpica nasceu mesmo ali, ela é uma das contribuições brasileiras mais bonitas ao ritual dos Jogos, e merecia mais crédito do que recebe.

Melbourne 1956: dente doendo e o canguru brasileiro

Quatro anos depois, a campanha em Melbourne começou com uma dor de dente forte na Vila Olímpica, resolvida com ida ao dentista, conforme a CBAT. Naquela altura, Adhemar defendia o Club de Regatas Vasco da Gama, trabalhava no jornal Última Hora e cursava Educação Física na Escola do Exército. A filha, Adyel, nasceu naquele mesmo ano.

No dia da prova, a CBAT conta que ele foi até a grade do estádio conversar com um grupo de estudantes, que virou sua torcida particular. A resposta veio no último salto da final, em 27 de novembro de 1956: 16,35 m, novo recorde olímpico. O islandês Vilhjálmur Einarsson levou a prata, com 16,26 m, e o russo Vitold Kreyer o bronze, com 16,02 m. Foi o único ouro do Brasil naqueles Jogos e rendeu a Adhemar o apelido de canguru brasileiro. Ele se tornava o primeiro atleta do país com dois títulos olímpicos.

O recorde de 1955 e o jeito de saltar

Entre os dois ouros, em 1955, nos Jogos Pan-Americanos da Cidade do México, Adhemar saltou 16,56 m, a maior marca da carreira, em sua centésima competição, segundo a Britannica. O recorde mundial durou até 1958, conforme a CBAT, que também atribui a ele uma mudança técnica no salto triplo: dar mais importância ao segundo salto da sequência.

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Palco, escultura e diplomacia

Adhemar nunca coube numa raia só. Estudou Educação Física, Direito e Relações Públicas, segundo a CBAT, e também foi escultor. Segundo a ESPN, falava seis idiomas, o que ajuda a entender o diplomata que viria depois. Atuou na peça Orfeu da Conceição e no filme Orfeu Negro, lançado em 1959. Entre 1964 e 1966, foi adido cultural do Brasil na Nigéria, conforme a ESPN. Como atleta, disputou quatro Olimpíadas: Londres 1948, Helsinque 1952, Melbourne 1956 e Roma 1960, nas duas últimas como porta-bandeira da delegação brasileira, de acordo com a CBAT.

Há ainda um dado que ajuda a medir o tamanho da fase: antes de Melbourne, Adhemar já havia passado por Londres 1948, sua estreia olímpica, em que ficou longe do pódio. Quatro anos depois, estava no topo. Quem quer entender como se constrói um campeão, tem ali uma boa aula de paciência.

O que ficou

Adhemar morreu em 12 de janeiro de 2001, aos 73 anos, em São Paulo. A CBAT lembra que ele recebeu em 2000 o prêmio de Mérito Olímpico do Comitê Olímpico do Brasil e do Comitê Olímpico Internacional, entrou para o Hall da Fama da World Athletics em 2012 e teve o nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria pela lei 14.575, sancionada em 11 de maio de 2023. O troféu anual do COB para os destaques do esporte olímpico leva o nome dele.

Em 27 de novembro de 2026, o segundo ouro completa 70 anos, e a CBAT abriu as comemorações em abril, com o Troféu Adhemar Ferreira da Silva, em Bragança Paulista, que reuniu 1.330 atletas inscritos. Para ver onde ele se encaixa entre os grandes do esporte olímpico, vá até a lista dos maiores medalhistas das Olimpíadas. Sempre que um brasileiro sobe ao pódio e sai correndo pelo estádio, está repetindo, queira ou não, um gesto de 1952.

Curiosidades

  • A corrida de agradecimento em Helsinque, segundo a CBAT, é tratada como a origem da volta olímpica.
  • O apelido canguru brasileiro veio do ouro em Melbourne, de acordo com a CBAT.
  • Adhemar foi o primeiro brasileiro a deter um recorde mundial em qualquer prova, segundo a Britannica.

Quiz: você conhece a história de Adhemar Ferreira da Silva?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Em que ano Adhemar Ferreira da Silva conquistou o primeiro ouro olímpico, em Helsinque?

Resposta correta: 1952.

2. Qual foi a marca da vitória em Helsinque, o melhor salto da final?

Resposta correta: 16,22 m.

3. Qual apelido ele ganhou depois do ouro em Melbourne?

Resposta correta: Canguru brasileiro.

4. Em que clube ele começou no atletismo, aos 19 anos, treinando na hora do almoço?

Resposta correta: São Paulo Futebol Clube.

5. Em que Jogos Pan-Americanos ele saltou 16,56 m, em 1955?

Resposta correta: Cidade do México.

Seus acertos:

Fontes: Confederação Brasileira de Atletismo, Encyclopaedia Britannica, ESPN.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.