Oito atletas sorrindo enquanto lançam uma colega para o alto: como se julga isso? As regras do nado artístico são definidas pela World Aquatics (a antiga FINA) e combinam três pilares: a dificuldade que cada equipe declara antes de cair na água, a qualidade de execução de cada elemento e a impressão artística. E tem mais: ninguém pode usar o fundo para tomar impulso, a área principal da piscina tem no mínimo 3 metros de profundidade e o prendedor de nariz é liberado.

O esporte que o Brasil aprendeu a chamar de nado sincronizado mudou de nome em 2017 e, desde 2023, ganhou um sistema de notas completamente novo. Vem com a gente entender o que vale ponto e onde o Brasil entra nessa história.

Resumo das provas do nado artístico

O quadro abaixo segue o regulamento de competições da World Aquatics em vigor desde fevereiro de 2026. O tempo-limite inclui até 10 segundos de movimentos na borda, com tolerância de 5 segundos para mais ou para menos.

Prova e rotina Atletas Tempo-limite
Solo feminino ou masculino, técnica 1 2min00
Solo feminino ou masculino, livre 1 2min15
Dueto feminino, técnica 2 2min20
Dueto feminino, livre 2 2min45
Dueto misto, técnica 2 (uma mulher e um homem) 2min20
Dueto misto, livre 2 (uma mulher e um homem) 2min45
Equipe, técnica 4 a 8 (8 nos Jogos Olímpicos) 2min50
Equipe, livre 4 a 8 (8 nos Jogos Olímpicos) 3min30
Rotina acrobática 4 a 8 (8 nos Jogos Olímpicos) 3min00

No programa olímpico atual entram apenas a equipe (técnica, livre e acrobática) e o dueto feminino (técnica e livre). Solos e dueto misto aparecem no Mundial, no Mundial Júnior e na Copa do Mundo. Nas provas de equipe, na acrobática e na combinação livre, cada time pode ter no máximo dois homens.

De nado sincronizado a nado artístico

Quem cresceu ouvindo "nado sincronizado" levou um susto em 2017. Em julho daquele ano, no Congresso da FINA realizado em Budapeste durante o Mundial, os delegados aprovaram por ampla maioria a troca de nome para artistic swimming, o nosso nado artístico, segundo o balanço da temporada publicado pela própria entidade. A modalidade está no programa olímpico desde Los Angeles 1984.

A própria FINA virou World Aquatics, e é ela que publica o regulamento e as tabelas de dificuldade seguidos no mundo todo, inclusive pela CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos).

Rotina técnica, rotina livre e rotina acrobática

Toda rotina é feita de elementos (os momentos julgados um a um) e transições (as ligações entre eles: deslocamentos, braçadas, mudanças de formação). Os elementos são de três tipos: híbridos (movimentos com as pernas fora da água, de conteúdo livre), acrobacias (quando as atletas lançam ou sustentam uma colega acima da superfície) e os elementos técnicos obrigatórios, combinações descritas em detalhe pelo regulamento.

  • Rotina técnica: obrigatória a inclusão dos elementos técnicos, na ordem declarada.
  • Rotina livre: sem elementos obrigatórios, com número predeterminado de híbridos e acrobacias.
  • Rotina acrobática: prova só de equipe, construída em torno das acrobacias. A atleta que voa é chamada de featured swimmer; as que ficam embaixo formam a base.

Como funcionam as notas no nado artístico

Aqui está a grande virada. Desde 1º de janeiro de 2023, cada país entrega antes da prova um Coach Card, a ficha em que declara a dificuldade de cada elemento que vai executar, de acordo com as tabelas da World Aquatics. Na água, os árbitros só conferem se a promessa foi cumprida.

Quem julga

  • Painel de elementos: cinco juízes dão uma nota de execução para cada elemento.
  • Painel de impressão artística: cinco juízes dão três notas, para coreografia e musicalidade, performance e transições.
  • Três controladores técnicos de dificuldade: conferem número, ordem e dificuldade declarada dos elementos, com uma revisão em vídeo por elemento.
  • Três controladores de sincronização: anotam cada erro de sincronia (não atuam no solo).

Todas as notas vão de 0 a 10, com intervalos de 0,25. Em cada nota, a maior e a menor são descartadas. Para cada elemento, a média das três restantes é multiplicada pelo grau de dificuldade declarado. Na impressão artística, as três notas restantes de cada quesito são somadas.

A conta final

A nota de elementos é a soma de dificuldade vezes execução de todos os elementos, menos os erros de sincronia e outras penalidades. A nota da rotina é a nota de elementos mais a impressão artística. Os erros de sincronia têm peso fixo: pequeno vale 0,1, óbvio vale 0,5 e grave custa 3 pontos.

Base mark: quando a promessa não se cumpre

Se a atleta deixa de fazer um componente do híbrido ou da acrobacia, ou faz diferente do que estava no Coach Card, os controladores aplicam a base mark: a dificuldade cai para o valor mínimo daquele elemento. Para aplicar base mark, zero ou erro grave, dois dos três controladores precisam concordar. Num elemento técnico obrigatório omitido ou errado, a dificuldade vira zero. Declarar alto demais é um risco calculado.

No Rio 2016, ainda no sistema antigo, o dueto brasileiro Luisa Borges e Maria Eduarda Micucci recebeu 84,0333 na rotina livre, divididos em execução (24,9000), impressão artística (33,7333) e dificuldade (25,4000), segundo o Jornal do Comércio. No sistema atual a escala é outra: no dueto misto dos Jogos Sul-Americanos de 2026, a rotina técnica brasileira sozinha valeu 176,4892 pontos.

Penalidades e proibições

  • Tocar o fundo: usar o fundo da piscina de propósito para se impulsionar, ou para ajudar outra atleta, custa 8 pontos. Não há punição quando o contato acontece para se proteger de um impacto. Árbitros específicos vigiam o fundo em todas as rotinas.
  • Parar ou se apoiar na borda: desclassificação, salvo circunstância fora do controle da atleta.
  • Tempo: estourar a tolerância de 5 segundos, os 10 segundos de borda ou o tempo de entrada (20 segundos no solo e no dueto feminino, 30 no dueto misto e nas equipes) custa 8 pontos.
  • Elemento a mais: 2 pontos por elemento além do número fixado.

Piscina, pregador de nariz e maquiagem

Em competições internacionais a piscina precisa ter pelo menos 15 x 25 metros, com uma área de 12 x 12 metros com 3 metros de profundidade e o resto com no mínimo 2 metros. Em Olimpíada e Mundial a exigência sobe para 30 x 20 metros, com 3 metros de profundidade mínima. A água não pode estar abaixo de 27 °C.

O famoso pregador de nariz é permitido, assim como pequenos brincos. Óculos, só por razão médica aprovada pela World Aquatics. E a maquiagem? Maquiagem teatral é proibida; a natural, que reflita a personalidade da atleta ou o tema, está liberada.

Homens no nado artístico

O dueto misto já existe no Mundial, e o Brasil tem história nele: em Gwangju 2019, Giovana Stephan e Renan Alcantara foram à final da rotina técnica e terminaram em sétimo, igualando a melhor colocação brasileira na modalidade em Mundiais, obtida em Budapeste 2017. "Estou muito feliz. É meu segundo Mundial com a Giovana", disse Renan à Super Rádio Tupi.

Nos Jogos, a porta se abriu para Paris 2024: o COI aprovou a presença de até dois homens por equipe. Só que, na hora H, nenhum dos 96 nomes inscritos pelas 18 nações era masculino, segundo a Associated Press. O italiano Giorgio Minisini, tetracampeão mundial, ficou fora e anunciou o fim da carreira. Admito: dá uma pontinha de frustração ver a regra mudar e a piscina continuar igual.

O Brasil no nado artístico: das gêmeas Feres ao dueto misto

Impossível falar da modalidade por aqui sem lembrar de Bia e Branca Feres. As gêmeas começaram aos 7 anos, porque a mãe queria gastar a energia das duas, ganharam o bronze por equipes no Pan do Rio em 2007, deixaram a seleção em 2011 para trabalhar na TV e voltaram para o ciclo olímpico em casa. "Somos muito grudadas. O que uma sente, a outra sente também", contaram ao Lance! às vésperas dos Jogos.

No Rio 2016, o Brasil levou pela primeira vez uma equipe completa à Olimpíada, classificada como país-sede. No Parque Aquático Maria Lenk, a rotina livre "Carnaval" teve tambores, música brasileira e uma acrobacia que imitava o Cristo Redentor. A equipe somou 87,2000 nessa rotina e fechou em sexto lugar, segundo o site Inside Synchro. "Sentimos a energia da torcida, algo que nunca tivemos antes", disse Maria Bruno. O dueto, com o tema capoeira na técnica e Amazônia na livre, terminou em 13º. Depois dos Jogos, as gêmeas Feres e Lara Teixeira, que disputava sua segunda Olimpíada, encerraram a carreira.

A renovação veio pela CBDA, com nomes como Anna Giulia Veloso, convocada para o Mundial de Budapeste 2022. Em 19 de setembro de 2026, ela e Bernardo Santos ganharam a prata no dueto misto dos Jogos Sul-Americanos de Santa Fé, disputado na subsede de Rosário, com 372,0467 pontos, atrás do Chile, segundo o ABC do ABC.

Se você curte esportes aquáticos, aproveite para conferir as regras da natação, as regras dos saltos ornamentais e as regras do polo aquático, que dividem a mesma piscina nos grandes eventos.

Quiz: você conhece as regras do nado artístico?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Qual é a profundidade mínima da piscina nas rotinas de Olimpíada e Mundial?

O regulamento da World Aquatics exige no mínimo 3 metros de profundidade numa área de 30 x 20 metros nas grandes competições.

2. O que acontece se uma atleta usa o fundo da piscina de propósito para se impulsionar?

O uso deliberado do fundo para propulsão custa 8 pontos na nota da rotina.

3. Em que ano e onde a FINA trocou o nome de nado sincronizado para nado artístico?

A mudança foi aprovada pelo Congresso da FINA em julho de 2017, em Budapeste.

4. Quantos homens, no máximo, podem integrar uma equipe olímpica de nado artístico?

Desde Paris 2024 a equipe olímpica pode ter até dois homens, mas nenhum foi inscrito naqueles Jogos.

5. Qual foi a colocação da equipe brasileira de nado sincronizado nos Jogos do Rio 2016?

Na estreia olímpica de uma equipe do Brasil, com as gêmeas Feres, o time terminou em sexto lugar.

Seu placar:

Fontes: World Aquatics, Lance!, Inside Synchro, Jornal do Comércio, Olympics.com, Associated Press, Super Rádio Tupi, Gazeta Esportiva, Folha Vitória, ABC do ABC.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.