Fernando Scheffer anunciou o fim da carreira competitiva no fim de agosto, nadou a última final no Troféu José Finkel e, pouco mais de um mês depois, voltou a vestir touca e óculos para uma competição. Na segunda-feira, 13 de outubro de 2026, a Agência SP, do Governo do Estado de São Paulo, informou que o medalhista olímpico de Tóquio interrompeu a aposentadoria para defender Santos nos Jogos Abertos do Interior “Horácio Baby Barioni”, em Votuporanga. As provas de natação começaram nesta quinta-feira, 15 de outubro, no Parque Aquático Savério Maranho, e vão até sábado, 17.
É a primeira vez que o gaúcho de 28 anos disputa os Jogos Abertos, apelidados de “Olimpíadas Caipiras”. Ele mesmo explicou o motivo do retorno: “Apesar de ter uma carreira longa no esporte, com duas participações olímpicas e diversas competições internacionais, ainda não havia tido a oportunidade de viver essa experiência. Estou muito feliz de poder representar Santos”, disse à Agência SP.
Por que Scheffer voltou à piscina
O retorno não tem cara de recomeço. Scheffer deixou claro que não vai a Votuporanga atrás de tempo ou de índice. “Estou vivendo essa primeira experiência e quero aproveitar o momento, contribuir com Santos e entender como será essa nova etapa na minha vida”, afirmou. O nadador também comparou a competição estadual com os Jogos Olímpicos: “Olimpíadas e Jogos Abertos são competições com dimensões e contextos diferentes, mas existe um paralelo importante: o sentimento de representar algo maior do que você. Nas Olimpíadas, você representa o seu país; nos Abertos, seu município.”
Santos é o maior campeão da história dos Jogos Abertos, com 26 títulos, mas não levanta a taça geral há 23 anos. Para tentar encerrar o jejum, a cidade levou outros cinco atletas olímpicos: os nadadores Daynara Paula, André Linhares, Léo de Deus e Guilherme Basseto, e a mesatenista Jennyfer Parinos, bronze nas Paralimpíadas de 2016 e 2020, que nos Abertos compete na categoria convencional. Segundo a Unisanta, a equipe de natação que representa Santos tem 29 atletas, nove mulheres e 20 homens, sob o comando do técnico Marcel Ferreira.
A 88ª edição dos Jogos Abertos é a primeira em Votuporanga e reúne mais de 9 mil atletas de 155 municípios em 28 modalidades oficiais. São José dos Campos é o atual heptacampeão.
A despedida no Finkel
A decisão de parar foi anunciada antes do Troféu José Finkel, disputado de 31 de agosto a 4 de setembro de 2026 no Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo. Ao Lance!, Scheffer explicou que deixaria as competições, mas não o esporte: “Essa decisão não vem com tristeza, muito pelo contrário. Ela vem repleta de orgulho por um propósito entregue e de um sonho agora renovado. O Finkel vai ser a minha despedida do esporte competitivo. Mas não é minha aposentadoria.”
Na mesma declaração, ele indicou o que pretende fazer daqui para frente: continuar treinando e “inspirar mais pessoas e ajudar cada uma delas a encontrar sua versão da medalha olímpica”. A última prova oficial antes da pausa foi a final dos 200 metros livre do Finkel, em que terminou em quinto lugar, de acordo com a Unisanta, clube pelo qual nadava.
De Canoas ao pódio de Tóquio
Fernando Muhlenberg Scheffer nasceu em 6 de abril de 1998, em Canoas, no Rio Grande do Sul. Ganhou destaque no Grêmio Náutico União e, em 2018, transferiu-se para o Minas Tênis Clube. No meio da natação, é conhecido pelo apelido de Monet, herdado de uma confusão sobre uma obra de arte.
O ano de 2018 foi o da explosão. Em abril, no Troféu Maria Lenk, ele quebrou o recorde sul-americano dos 200 metros livre em piscina longa, com 1min46s08, e três dias depois fez o mesmo nos 400 metros livre, com 3min49s06. Na temporada, somou cinco recordes sul-americanos e fechou o ano com 1min45s51 nos 200 livre, no Aberto de Porto Alegre, quarto melhor tempo do mundo em 2018.
Em dezembro daquele ano veio a conquista mais inesperada. No Mundial de piscina curta de Hangzhou, na China, Scheffer, Luiz Altamir Melo, Leonardo Coelho Santos e Breno Correia ganharam o ouro do revezamento 4×200 metros livre com recorde mundial: 6min46s81. O quarteto, formado por nadadores de 19 a 23 anos, não aparecia entre os favoritos.
Em 2019, nos Jogos Pan-Americanos de Lima, foram dois ouros, nos 200 metros livre e no 4×200 metros livre, e uma prata nos 400 metros livre. No Mundial de Gwangju, o revezamento brasileiro chegou pela primeira vez a uma final do 4×200 livre em Mundiais de piscina longa, resultado que garantiu a vaga para Tóquio.
O bronze de 1min44s66
Nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, disputados em 2021, Scheffer baixou o recorde sul-americano dos 200 metros livre já nas eliminatórias, com 1min45s05. Entrou na final com a última vaga das semifinais e, na decisão, nadou para 1min44s66, novo recorde continental e medalha de bronze. Com isso, repetiu o feito de Gustavo Borges, até então o último brasileiro a subir ao pódio olímpico na prova. A trajetória de nomes como ele ajuda a entender por que a natação ocupa lugar de destaque na lista dos melhores atletas brasileiros.
Depois de Tóquio: revezamentos e Paris 2024
O ciclo seguinte foi marcado pelos revezamentos. No Mundial de piscina curta de Abu Dhabi, em 2021, Scheffer, Murilo Sartori, Kaique Alves e Breno Correia levaram o bronze no 4×200 livre. No Mundial de Budapeste, em 2022, o quarteto com Vinicius Assunção, Sartori e Correia bateu duas vezes o recorde sul-americano e terminou em quarto lugar, com 7min04s69, melhor colocação do Brasil na prova em Mundiais de piscina longa. Em setembro de 2022, no Finkel de Recife, ele ainda cravou o recorde sul-americano dos 200 livre em piscina curta, com 1min41s32.
Nos Jogos Pan-Americanos de Santiago 2023, Scheffer voltou a ser campeão no 4×200 metros livre. No ano seguinte, disputou sua segunda Olimpíada, em Paris 2024. Para quem quer revisar como funcionam as provas e as viradas, vale consultar as regras da natação.
Marcos da carreira
| Data | Competição | Resultado |
|---|---|---|
| Abril de 2018 | Troféu Maria Lenk (Rio de Janeiro) | Recordes sul-americanos nos 200 livre (1min46s08) e 400 livre (3min49s06) |
| Dezembro de 2018 | Mundial de piscina curta (Hangzhou) | Ouro e recorde mundial no 4×200 livre (6min46s81) |
| Dezembro de 2018 | Aberto de Porto Alegre | Recorde sul-americano nos 200 livre (1min45s51) |
| Agosto de 2019 | Jogos Pan-Americanos (Lima) | Ouro nos 200 livre e no 4×200 livre, prata nos 400 livre |
| Julho de 2021 | Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 | Bronze nos 200 livre, recorde sul-americano (1min44s66) |
| Dezembro de 2021 | Mundial de piscina curta (Abu Dhabi) | Bronze no 4×200 livre |
| Junho de 2022 | Mundial de Budapeste | Quarto lugar no 4×200 livre, recorde sul-americano (7min04s69) |
| Setembro de 2022 | Troféu José Finkel (Recife) | Recorde sul-americano dos 200 livre em piscina curta (1min41s32) |
| 2023 | Jogos Pan-Americanos (Santiago) | Ouro no 4×200 livre |
| 2024 | Jogos Olímpicos de Paris | Segunda participação olímpica |
| Setembro de 2026 | Troféu José Finkel (São Paulo) | Quinto lugar na final dos 200 livre, despedida das competições |
| Outubro de 2026 | Jogos Abertos do Interior (Votuporanga) | Retorno pontual para defender Santos |
O que vem agora
A participação em Votuporanga não muda o plano anunciado em agosto. Scheffer segue fora do circuito de alto rendimento e não fala em ciclo para Los Angeles 2028. O que os Jogos Abertos oferecem é uma última experiência que faltava no currículo: nadar por uma cidade, ao lado de companheiros de clube, em uma competição que pontua por município. A natação dos Abertos termina no sábado, 17, e os Jogos se encerram no domingo, 18 de outubro.
Aos 28 anos, ele deixa a piscina competitiva como um dos principais nomes do nado livre brasileiro no século 21, dono de um bronze olímpico em prova individual e de um título mundial em revezamento com recorde mundial. Para comparar sua trajetória com a dos grandes da modalidade, confira também a lista dos melhores nadadores do mundo.
Fontes: Agência SP, Lance!, Notícias Unisanta, Wikipédia.