Sexta-feira, 23 de outubro, 14h30 de Brasília: a Arena Ahoy, em Roterdã, recebe a final do individual geral do Mundial de ginástica artística, e o Brasil terá duas meninas da Gávea entre as 24 finalistas. Uma é Flávia Saraiva. A outra é Lorrane Oliveira, carioca nascida em 1998, rubro-negra de berço esportivo e dona de uma das trajetórias mais teimosas da seleção. Na classificatória de 19/10/2026, ela somou 52,165 pontos e terminou em 21º lugar, segundo a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). Detalhe que diz muito: Lorrane não disputava o individual geral de um Mundial desde 2015.
Vem com a gente entender por que essa vaga vale mais do que a posição na tabela.
A volta aos quatro aparelhos, onze anos depois
Durante boa parte da carreira, Lorrane foi especialista: a seleção a escalava principalmente nas barras assimétricas, o aparelho em que ela ganhou nome. Em Roterdã, a comissão técnica de Francisco Porath, o Xico, decidiu colocá-la nos quatro aparelhos, ao lado de Flávia. E ela respondeu. Foi a melhor brasileira nas assimétricas (13,700), fez 12,466 na trave, 12,866 no salto com um Yurchenko com pirueta e 13,133 no solo, ficando a menos de dois décimos da final do aparelho, conforme o relato da CBG.
A soma ajudou a seleção convocada para Roterdã a entrar na final por equipes em oitavo, com 159,131 pontos e uma margem de menos de dois décimos sobre a Grã-Bretanha, de acordo com a Gazeta Esportiva. A última vez que Lorrane tinha feito um individual geral em Mundial foi em Glasgow 2015, quando terminou a final em 18º, segundo os registros da Federação Internacional de Ginástica (FIG). Na nossa leitura, a vaga em Roterdã é uma espécie de prêmio por resistência.
Da TV para o tablado: o sonho chamado Daiane
Você sabia que tudo começou na frente da televisão? No perfil oficial da FIG, Lorrane conta que se apaixonou pela ginástica aos cinco anos, vendo Daiane dos Santos competir. O padrasto a levou para aulas de circo e, mais tarde, ela pediu à mãe para fazer um teste num ginásio. O resto virou vermelho e preto: o Flamengo informa que ela chegou ao clube aos sete anos e nunca escondeu o amor pelo Manto. Ao renovar contrato até o fim de 2026, ela disse ao site do clube que se sente honrada em defender o Flamengo, que chama de casa, e que o carinho da torcida é fundamental. Coisa de quem cresceu na Gávea.
Rio 2016: a estreia olímpica em casa
A primeira Olimpíada veio no lugar mais emocionante possível: a Arena Olímpica do Rio, lotada de torcedores. Na classificatória de 7 de agosto de 2016, Lorrane fez 14,833 no salto e 14,158 nas barras, ajudando o Brasil a chegar à final por equipes com 174,054 pontos, conforme o Lance!. Na decisão, o time terminou em oitavo, segundo a FIG.
O que pouca gente via da arquibancada era o pé. Uma lesão atrapalhou a preparação para os Jogos, e ela passou por cirurgia em dezembro de 2016, voltando a treinar só em abril de 2017. Antes disso, em 2014, já tinha operado os dois ombros por instabilidade, de acordo com o perfil da FIG, que cita reportagens do ge e da ESPN.
Quase desistir, e não desistir
O pós-Rio foi o momento mais duro. Depois do pé vieram problemas nas costas e num dedo, em 2017. Numa entrevista ao ge em 2018, citada pela FIG, Lorrane admitiu que perdeu a motivação, quis apenas descansar e não sentir mais dor, mas percebeu que a vida longe do ginásio era sem graça e decidiu voltar para a seleção. Foi essa decisão que abriu o segundo capítulo da carreira.
No Pan de Lima 2019, sem Jade Barbosa, machucada, Lorrane fez 14,000 nas barras e ajudou o Brasil a levar o bronze por equipes com 158,550 pontos, segundo a Gazeta Esportiva. Meses depois veio o golpe: no Mundial de Stuttgart, com a equipe desfalcada por lesões, o Brasil ficou em 14º e perdeu a vaga coletiva para Tóquio, como registrou o Metrópoles. Lorrane estava naquele time e assistiu aos Jogos de 2020 de fora.
Um elemento com o nome dela
A resposta veio em 2021. Na etapa de Doha da Copa do Mundo, Lorrane foi bronze nas barras e no solo e apresentou um elemento inédito, que a FIG incluiu no Código de Pontuação com o nome Oliveira: no solo, um mortal árabe duplo carpado com meia pirueta na saída. No mesmo ano, no Pan-Americano de ginástica disputado no Rio, ela foi ouro nas barras e bronze no individual geral, segundo a FIG.
Depois vieram os Mundiais que mudaram o patamar da seleção: quarto lugar por equipes em Liverpool 2022 e prata em Antuérpia 2023, com Lorrane no grupo nas duas campanhas.
Paris 2024: luto, abraço e bronze
Esta é a cena que define Lorrane. Em abril de 2024, durante uma viagem da seleção à França, ela recebeu a notícia da morte da irmã, Maria Luiza. Voltou ao Brasil, ficou cerca de três semanas sem treinar e pensou em desistir dos Jogos, como contou à Gazeta Esportiva. “Mas essa equipe maravilhosa me ajudou diariamente. Me deram o tempo que eu precisava”, disse.
Em 30 de julho, na final por equipes em Paris, coube a ela abrir a competição brasileira nas barras assimétricas. Tirou 13,000 e passou o bastão para Flávia, que entrou com um curativo no supercílio. Horas depois, Rebeca Andrade revelou que, antes do salto decisivo, foi justamente Lorrane quem chegou perto e disse: “Você sabe o que você tem que fazer, respira fundo”. O Brasil fechou com 164,497 pontos e a primeira medalha olímpica por equipes da história da ginástica do país, conforme a Gazeta Esportiva.
Para a Nação, foi festa dobrada. O perfil oficial do Flamengo comemorou o bronze lembrando que havia quatro rubro-negras no time: Rebeca, Flávia, Jade e Lorrane. Depois dos Jogos, as quatro foram homenageadas no ginásio Hélio Maurício, na Gávea, segundo a Super Rádio Tupi.
2026: o susto em Koper e a recuperação
O caminho até Roterdã não foi liso. No fim de maio, na etapa de Koper, na Eslovênia, Lorrane caiu na saída da trave e sofreu um trauma cervical. A CBG informou que os exames não mostraram fratura nem lesão grave na coluna, mas ela deixou a competição.
Em agosto, no Campeonato Brasileiro, em Brasília, ganhou o ouro nas barras com 13,700, à frente de Flávia. “Estava parada com uma lesão no ombro”, contou ao Sportv, segundo o Diário do Grande ABC. Em setembro, na etapa de Szombathely, na Hungria, foi bronze no solo e quarta nas barras, segundo a FIG. Um mês depois, estava de novo num individual geral de Mundial.
Lorrane Oliveira em números
| Competição | Resultado |
|---|---|
| Mundial de Glasgow 2015 | 18º no individual geral |
| Jogos Olímpicos Rio 2016 | 8º lugar por equipes |
| Jogos Pan-Americanos Lima 2019 | Bronze por equipes |
| Copa do Mundo de Doha 2021 | Bronze nas barras e no solo; elemento Oliveira |
| Pan-Americano de ginástica 2021 (Rio) | Ouro nas barras, bronze no individual geral |
| Mundial de Antuérpia 2023 | Prata por equipes |
| Jogos Olímpicos Paris 2024 | Bronze por equipes |
| Mundial de Roterdã 2026 | Finalista do individual geral (21ª na classificatória) |
Sexta-feira, às 14h30, a torcida rubro-negra tem motivo para ligar a TV duas vezes. Uma certeza a gente tem: quem já voltou de tanta coisa não vai a Roterdã para fazer número.
Quiz: você conhece a história de Lorrane Oliveira?
Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.
1. Em qual edição dos Jogos Olímpicos Lorrane Oliveira estreou?
2. Qual ginasta inspirou Lorrane a entrar na ginástica?
3. Em qual aparelho existe o elemento que leva o nome Oliveira no Código de Pontuação?
4. Com qual aparelho Lorrane abriu a participação do Brasil na final por equipes de Paris 2024?
5. Que medalha a seleção feminina, com Lorrane, ganhou por equipes no Pan de Lima 2019?
Seus acertos:
Fontes: CBG, FIG, Flamengo, Gazeta Esportiva, Lance!, Metrópoles, Diário do Grande ABC, Super Rádio Tupi, Trivela, A Bola.