Ginásio lotado, silêncio absoluto. Seis atletas vendados ouvem uma bola de 1,25 kg chacoalhar os guizos enquanto rola rumo a um gol que ocupa toda a largura da quadra. Isso é o goalball: duas equipes de três jogadores, numa quadra de 18 m por 9 m, arremessam a bola com a mão, rente ao chão, para fazê-la cruzar a linha de gol rival, enquanto os adversários se jogam no piso para bloquear com o corpo inteiro. São dois tempos de 12 minutos, e o jogo acaba antes se um time abrir 10 gols. E você sabia que o Brasil é tricampeão mundial e campeão paralímpico no masculino?
As regras seguem o livro oficial da Federação Internacional de Esportes para Cegos (IBSA), o Goalball Rules and Regulations 2025, em vigor desde 1º de janeiro de 2025. No Brasil, quem administra a modalidade é a Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV). Este guia faz parte da série de regras dos esportes do Esportelândia.
Resumo das regras do goalball
| Item | Regra oficial (IBSA 2025) |
|---|---|
| Quadra | 18 m x 9 m, dividida em seis faixas de 3 m |
| Gols | 9 m de largura por 1,3 m de altura |
| Bola | Borracha azul, 1,25 kg, 24 a 25 cm de diâmetro, dois guizos |
| Equipes | 3 titulares e até 3 reservas |
| Classes | B1, B2 e B3 juntos, todos vendados |
| Duração | 2 tempos de 12 minutos, intervalo de 5 minutos |
| Desempate | Prorrogação de 6 minutos com gol de ouro, depois arremessos extras |
| Tempos e trocas | 4 tempos técnicos de 45 s e 4 substituições por equipe |
| Posse de bola | 10 segundos para devolver a bola após a defesa |
Quadra e linhas que se sentem com as mãos
Diante de cada gol fica a área da equipe, com 6 m de profundidade, dividida em área de orientação (colada ao gol) e área de lançamento. No meio, a área neutra tem outros 6 m e é cortada pela linha central. O pulo do gato: todas as linhas levam um barbante de 3 mm sob a fita, e é pelo tato que o atleta sabe onde está. Os gols vão de lado a lado, com 9 m de largura e 1,3 m de altura.
A bola com guizos
A bola é de borracha natural, azul e cheia de cravos. Pesa 1,25 kg, tem de 24 a 25 cm de diâmetro e oito furos, quatro em cima e quatro embaixo, intercalados. Dentro vão dois guizos: pelo som, o defensor descobre de onde vem o arremesso e para onde se jogar.
Vendas, tampões e a regra da igualdade
Óculos, lentes de contato e aparelhos auditivos são proibidos em quadra. Em torneios da IBSA e nos Jogos Paralímpicos, os olhos são cobertos com tampões de gaze e, por cima, vai a venda. Desde 2025 ela precisa ter bico, uma proteção sobre o nariz que impede qualquer fresta de luz; sem esse modelo, o atleta não joga. Tocar na venda sem autorização do árbitro dá pênalti, e quem manipular venda ou tampão para enxergar pode pegar até dois anos de suspensão. Sem jeitinho aqui, torcedor.
Classificação: B1, B2 e B3
Todo jogador de competição da IBSA precisa de classe esportiva. Segundo o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), a avaliação mede o melhor olho com a máxima correção possível:
- B1: cegos totais ou com percepção de luz, sem reconhecer o formato de uma mão a qualquer distância.
- B2: atletas com percepção de vultos.
- B3: atletas que conseguem definir imagens.
As três classes jogam juntas no mesmo time, e por isso todo mundo entra vendado: a venda nivela quem não vê nada e quem ainda tem resíduo visual.
Como se joga
Todos atacam e defendem. A bola precisa cruzar por completo a linha de gol. Na defesa, o primeiro toque deve ser de quem tem alguma parte do corpo dentro da área da equipe; depois dele, o time tem 10 segundos para devolver a bola. O arremesso precisa tocar o chão até a linha de bola alta, a 6 m, quicar ao menos uma vez na área neutra e chegar à área do time defensor.
Silêncio é regra, não gentileza. Desde 2025, o time atacante deve ficar quieto assim que o arremessador faz um movimento claro em direção ao gol. Bater pé, assobiar ou cantar durante o lance rende punição.
Faltas e pênaltis
As infrações simples só trocam a posse: arremessar antes do “play” do árbitro (arremesso prematuro) ou a bola defendida voltar além da linha central (ball over). Já as penalidades viram pênalti, um arremesso contra um único defensor com o relógio parado.
- Penalidades individuais: bola curta (para antes da área defensora), bola alta (não toca o chão até 6 m), bola longa (não quica na área neutra), venda, defesa ilegal, atraso de jogo, barulho e conduta antidesportiva, como molhar a bola ou zombar do rival. Quem errou defende o pênalti.
- Penalidades de equipe: dez segundos, atraso de jogo, conduta antidesportiva, instrução ilegal do banco e barulho de qualquer atacante. Aqui, quem cobra escolhe o defensor.
Duas condutas antidesportivas do mesmo jogador no jogo dão expulsão e suspensão automática na partida seguinte. Quando é preciso um vencedor, o empate leva a uma prorrogação de 6 minutos com gol de ouro; persistindo a igualdade, vêm os arremessos extras, uma espécie de disputa de pênaltis, e, por fim, a morte súbita.
Da reabilitação de veteranos às Paralimpíadas
Segundo a IBSA, o goalball foi inventado em 1946 pelo austríaco Hanz Lorenzen e pelo alemão Sepp Reindle para reabilitar veteranos que ficaram cegos na Segunda Guerra Mundial. Foi demonstração em Heidelberg 1972 e estreou oficialmente em Toronto 1976, quando a Áustria venceu a Alemanha Ocidental por 4 a 2 na primeira final paralímpica. O torneio feminino chegou em Nova York 1984. Veja também as regras dos esportes paralímpicos e a história das Paralimpíadas.
O Brasil no goalball: de Londres a Hangzhou
Segundo a CBDV, a estreia brasileira em Paralimpíadas foi em Atenas 2004, com a equipe feminina. O salto veio no ciclo de Londres: prata masculina em 2012, título mundial em Espoo 2014 com 9 a 1 sobre a anfitriã Finlândia, bronze no Rio 2016 e o bi em Malmö 2018, com 8 a 3 sobre a Alemanha. Ali as mulheres levaram o bronze, primeira medalha feminina do país em Mundiais.
Tóquio 2020 e Matosinhos 2022
Em 3 de setembro de 2021, em Chiba, a seleção masculina entrou na final contra a China bicampeã mundial, mas sem o ouro paralímpico. Saiu com um 7 a 2: Parazinho e Leomon Moreno fizeram três gols cada, e o capitão Romário completou. Um ano depois, em 16 de dezembro de 2022, em Portugal, veio o tri mundial com dez vitórias em dez jogos: 6 a 5 de virada sobre a China, com o gol decisivo de Emerson, de pênalti, a cerca de um minuto e meio do fim.
Paris 2024 e o Mundial de 2026
Em Paris, a única derrota masculina foi para a Ucrânia, na semifinal. No bronze, em 5 de setembro de 2024, Leomon (três gols) e Josemarcio Sousa (dois) garantiram o 5 a 3 sobre a China e o quarto pódio paralímpico seguido; as mulheres terminaram em quarto pela terceira edição consecutiva. Veja o quadro de medalhas de Paris 2024.
Em agosto de 2025, no CT Paralímpico, em São Paulo, o Brasil fez a dobradinha no Campeonato das Américas. Em junho de 2026, no Mundial de Hangzhou, na China, o masculino vencia a semifinal por 4 a 2 no intervalo, mas os donos da casa viraram para 5 a 4 com um gol a 52 segundos do fim. No dia seguinte, 15 de junho, veio o 10 a 6 sobre o Japão e o bronze. “Dessa vez não veio o ouro, mas com certeza esse bronze tem o gosto de uma medalha dourada”, disse Leomon. As mulheres ficaram em quinto. Na nossa opinião, poucas seleções brasileiras de esporte coletivo foram tão regulares em pódios nos últimos 15 anos.
Perguntas frequentes
Qual a velocidade de um arremesso de goalball?
Segundo a IBSA, nos Jogos Paralímpicos já foram medidos arremessos acima de 60 km/h na saída da mão do jogador.
A torcida pode gritar durante o jogo?
Não com a bola em jogo: o público fica em silêncio total para os atletas ouvirem os guizos. Segundo o CPB, o barulho é liberado entre o gol e o reinício e nas paradas oficiais.
Quando o goalball chegou ao Brasil?
Em 1985, apresentado pelo professor Steven Dubner, do CADEVI, em São Paulo. O primeiro Campeonato Brasileiro foi disputado dois anos depois, em Curitiba. Desde 2011 a CBDV administra a modalidade.
O goalball é um esporte adaptado?
Não. Ele foi criado especificamente para pessoas com deficiência visual, e a CBDV o define como o único esporte paralímpico não adaptado.
Fontes: IBSA, CBDV, Comitê Paralímpico Brasileiro, Lance!, Jornal do Brasil, A Gazeta, Jornal Grande Bahia, Jovem Pan, ABC do ABC, Olimpíada Todo Dia, Super Rádio Tupi.