Pequena no tamanho, gigante na trave. Flávia Saraiva, a Flavinha do Flamengo, voltou a fazer barulho em 19 de outubro de 2026: no Mundial de Roterdã, na Holanda, ela se garantiu na final do individual geral em 12º lugar (53,566 pontos) e foi à final da trave com 14,400, a terceira melhor nota da classificatória, atrás apenas das chinesas Zhang Qingying e Qiu Qiyuan. Medalhista de bronze por equipes em Paris 2024, prata por equipes e bronze no solo no Mundial de 2023, a carioca chega a mais uma decisão grande com a cara de sempre: sorriso aberto e série limpa. Vem com a gente conhecer a história dela.

Flávia Saraiva em resumo

Item Dados
Nome completo Flávia Lopes Saraiva
Nascimento 30 de setembro de 1999, no Rio de Janeiro
Clube Flamengo
Técnico Francisco Porath Neto
Olimpíadas Rio 2016 (5ª na trave), Tóquio 2020 (7ª na trave), Paris 2024 (bronze por equipes, 9ª no individual geral)
Mundiais Prata por equipes e bronze no solo em Antuérpia 2023
Jogos Pan-Americanos Pódios em Toronto 2015, Lima 2019 e Santiago 2023 (4 pratas e 1 bronze no Chile)
Jogos Olímpicos da Juventude Nanquim 2014: ouro no solo, prata no individual geral e na trave

De cabeça para baixo: a infância e Três Rios

A história começa com uma menina que gostava de brincar de cabeça para baixo. Uma prima reparou e foi direto ao ponto com a mãe dela, como contou o Lance! durante a Rio 2016: “Coloque a sua filha na ginástica!”. Flavinha entrou no projeto social Esporte para Todos, da ONG Qualivida, voltado a alunos de escolas públicas, e logo chamou a atenção de Georgette Vidor, nome histórico da ginástica brasileira.

Aos 11 anos, veio a primeira grande decisão da família: deixar a capital e treinar em Três Rios, no sul do estado do Rio, no projeto criado por Georgette. Não era pouca coisa para uma criança, mas foi ali que a carioca ganhou base. Em 2013, já levava ouro no solo e na trave nos Jogos Sul-Americanos da Juventude, em Lima.

Nanquim 2014 e a estreia adulta

O cartão de visitas internacional foi nos Jogos Olímpicos da Juventude de Nanquim, na China, em 2014: ouro no solo (13,766), prata no individual geral e prata na trave, segundo os registros da Federação Internacional de Ginástica (FIG). No mesmo ano, foi campeã do individual geral no Pan-Americano Juvenil de Aracaju.

Em 2015, já adulta, ganhou o ouro no solo na etapa de São Paulo da Copa do Mundo, diante da torcida, e subiu ao pódio logo no primeiro Pan: bronze no individual geral em Toronto, ainda adolescente. Na mesma prova, Daniele Hypólito, então com 30 anos, ficou em quinto no seu último Pan. Uma passagem de bastão bem simbólica, você não acha?

Rio 2016: a menina de 1,33 m que encantou o país

Antes da Olimpíada em casa, Flavinha ganhou quatro ouros nas etapas de Baku e Anadia da Copa do Mundo. Chegou ao Rio com 16 anos e uma frase que resumia tudo: “Quero trazer uma medalha para o Brasil, não importa se for de ouro, prata ou bronze”. Na trave, foi a terceira da classificatória (15,133) e terminou a final em quinto lugar, com 14,533. A medalha não veio, mas a arquibancada adotou de vez aquela ginasta sorridente e tímida que, perguntada sobre ser chamada de pequenininha, respondia apenas: “sou normal”.

Depois dos Jogos, ela cresceu oito centímetros em menos de um ano. Segundo a própria ginasta, em depoimento reunido pela FIG, o estirão ajudou nas barras e no salto, mas ela fez questão de avisar que continuava sendo a Flavinha.

Lesões e resistência: de Stuttgart a Liverpool

O ciclo seguinte testou a paciência dela. Em agosto de 2017, uma lesão na coluna a tirou de ação por cerca de cinco meses. Voltou para ser oitava no individual geral do Mundial de Doha 2018 e sétima em Stuttgart 2019, resultado que ela mesma aponta como o mais marcante da carreira, de acordo com o perfil da FIG.

Em Tóquio, competiu com o tornozelo direito machucado e ainda assim foi à final da trave, terminando em sétimo. A cirurgia veio em agosto de 2021, logo depois dos Jogos. No Mundial de Liverpool 2022, ela liderou a classificatória do solo com 14,200, mas lesionou de novo o mesmo tornozelo, precisou de nova operação e só voltou a competir em abril de 2023. Para muita gente, a história poderia ter parado ali. Não parou.

Antuérpia 2023: dobradinha com Rebeca

O troco veio em grande estilo no Mundial de Antuérpia, na Bélgica. Primeiro, a prata por equipes, com 165,530 pontos. Depois, em 8 de outubro de 2023, a cena que todo torcedor guarda: Rebeca Andrade com a prata e Flávia com o bronze no solo (13,966), atrás só de Simone Biles. Duas brasileiras no pódio do solo, e a prova virou dobradinha verde e amarela.

Semanas depois, no Pan de Santiago, Flavinha colecionou cinco medalhas: prata por equipes, no individual geral, na trave e no solo, e bronze nas barras assimétricas. A gente contou essa campanha em detalhes em como Flávia Saraiva fez história no Pan de Santiago.

Paris 2024: o bronze com o supercílio cortado

Se existe uma imagem que define a Flavinha, é a de 30 de julho de 2024, na Arena Bercy. No aquecimento para a final por equipes, ela escorregou nas barras assimétricas e caiu de rosto no chão. O corte no supercílio sangrou muito e foi fechado com esparadrapo. “Eu achei que eu tinha até perdido os dentes”, contou ao Correio Braziliense. Mesmo enxergando mal, avisou às companheiras que iria até o fim: “Eu dei o sangue, literalmente”.

Ela competiu com dor de cabeça e tontura, fez o solo ao som de “Can-Can” e ajudou o quinteto formado com Rebeca Andrade, Jade Barbosa, Júlia Soares e Lorrane Oliveira a somar 164,497 pontos. Foi bronze, atrás de Estados Unidos e Itália, a primeira medalha olímpica por equipes da ginástica artística brasileira. No individual geral, terminou em nono. Em setembro, passou por uma cirurgia no ombro direito para recuperar o corpo.

2025 e 2026: a trave como casa

No Mundial de Jacarta, em outubro de 2025, Flávia foi a segunda na classificatória da trave e terminou a final em quarto, com 13,900, a menos de três décimos do pódio. Na nossa opinião, foi a prova de que a trave virou o aparelho dela, tanto que em 2025 e 2026 ela venceu a trave na etapa de Szombathely, na Hungria. Em 2026, ainda levou o ouro nas barras assimétricas e a prata no solo por lá. Em agosto, ainda subiu ao pódio no Campeonato Brasileiro.

Em Roterdã, a seleção feminina terminou a classificatória em oitavo, com 159,131 pontos, e pegou a última vaga na final por equipes, menos de dois décimos à frente do Reino Unido. E essa final vale muito: segundo a FIG, é o primeiro evento classificatório para Los Angeles 2028, com vaga olímpica para as três melhores equipes. Flávia passou pelos quatro aparelhos e, pelos resultados oficiais da FIG, apresentou na trave uma série de 6,1 de dificuldade. Lorrane Oliveira também está na final do individual geral, e Rebeca Andrade liderou a classificatória do salto; vale conferir a história de Rebeca Andrade e a volta de Thaís Fidelis ao Mundial.

Pelo calendário divulgado até 20/10/2026, Flavinha disputa a final por equipes na quarta-feira (21), às 14h30 de Brasília, o individual geral na sexta-feira (23), também às 14h30, e a final da trave no fim de semana das finais por aparelho (sábado, 24, a partir das 9h, e domingo, 25, a partir das 10h, horários de Brasília).

Perguntas frequentes

Qual é a altura de Flávia Saraiva?

O perfil oficial dos Jogos de Tóquio registra 1,45 m. Na Rio 2016, ela tinha 1,33 m e cresceu cerca de oito centímetros no ano seguinte.

Por que Flávia Saraiva é chamada de Flavinha?

O apelido vem da baixa estatura. A FIG também lista os apelidos Gigante e Pequena Notável, que brincam com o contraste entre o tamanho e o que ela faz no tablado.

Quantas medalhas Flávia Saraiva tem em Mundiais?

Até a classificatória de Roterdã, em 19/10/2026, eram duas, ambas em Antuérpia 2023: prata por equipes e bronze no solo.

Quem é a ídola de Flávia Saraiva?

Em entrevista ao Comitê Olímpico do Brasil citada pela FIG, ela apontou a norte-americana Simone Biles, justamente quem ficou com o ouro no solo em Antuérpia 2023, quando Flavinha levou o bronze.

Quiz: você conhece a história de Flávia Saraiva?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Para qual cidade Flavinha se mudou aos 11 anos para treinar?

Ela foi para Três Rios, no sul do estado do Rio, no projeto criado pela técnica Georgette Vidor.

2. Em qual aparelho ela ganhou o ouro nos Jogos Olímpicos da Juventude de Nanquim 2014?

Foi no solo. Em Nanquim, ela ainda levou prata no individual geral e na trave.

3. Em que posição Flávia terminou a final da trave na Rio 2016?

Com 16 anos, ela foi a terceira da classificatória e terminou a final em quinto, com 14,533.

4. Em Antuérpia 2023, quem dividiu o pódio do solo com Flávia, que ficou com o bronze?

Simone Biles ficou com o ouro e Rebeca Andrade com a prata: dobradinha brasileira no solo.

5. Em Paris 2024, em qual aparelho Flavinha caiu no aquecimento e cortou o supercílio?

Ela escorregou nas barras assimétricas, competiu com esparadrapo no rosto e ajudou o Brasil a ganhar o bronze por equipes.

Seus acertos:

Fontes: FIG, CNN Brasil, Confederação Brasileira de Ginástica, Gazeta Esportiva, Agência Estado, Comitê Olímpico Internacional, Correio Braziliense, Folha Vitória, Lance!, O Antagonista, O Povo.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.