Sete anos depois de sua última participação, Thaís Fidelis está de volta a um Campeonato Mundial de ginástica artística. A ginasta de 25 anos, nascida em Ribeirão Preto (SP), faz parte da equipe feminina convocada pela Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) para o Mundial de Roterdã, na Holanda, disputado de 17 a 25 de outubro de 2026. A lista foi divulgada em 7 de outubro, e a seleção encerrou a fase de aclimatação na Europa no domingo (11). Para quem decidiu parar no fim de 2022, depois de romper o tendão de Aquiles e perder o irmão num intervalo de poucas semanas, a vaga tem peso de recomeço.

A trajetória de Thaís Fidelis em resumo

Ano Momento
2017 4º lugar na final do solo do Mundial de Montreal, no Canadá
2019 Bronze por equipes nos Jogos Pan-Americanos de Lima e pódio no individual geral da Copa do Mundo de Birmingham
2021 Ruptura do tendão de Aquiles em junho e morte do irmão em julho
2022 Medalhas no Sul-Americano e nos Jogos Sul-Americanos; pausa na carreira no fim do ano
2024 Decide voltar ao assistir ao Troféu Brasil no Rio; retoma os treinos no fim do ano
2025 Anunciada pelo Sesi-SP em fevereiro; bronze nas barras assimétricas no Troféu Brasil
2026 Prata por equipes, bronze no individual geral e bronze na trave no Pan-Americano do Rio; convocada para Roterdã

A promessa que quebrou um jejum de Daiane dos Santos

Thaís surgiu como um dos grandes talentos do ciclo para Tóquio-2020. Em 2017, no seu primeiro Mundial, em Montreal, avançou à final do solo e quebrou um jejum que vinha desde 2006, quando Daiane dos Santos havia sido a última brasileira a chegar à decisão do aparelho. Ficou perto do pódio, em quarto lugar.

Nos anos seguintes, ela esteve também nos Mundiais de 2018 e 2019 e fez parte da equipe que levou o bronze nos Jogos Pan-Americanos de Lima, em 2019. No mesmo ano, na etapa de Birmingham, na Inglaterra, tornou-se a primeira brasileira a subir ao pódio do individual geral numa Copa do Mundo. Parecia o roteiro natural de uma ginasta olímpica. Não foi.

Junho e julho de 2021: o tendão e o irmão

Às vésperas do Campeonato Pan-Americano de 2021, no Rio de Janeiro, Thaís rompeu o tendão de Aquiles. Poucas semanas depois, perdeu o irmão, que teve complicações de uma pneumonia e não resistiu a uma parada cardíaca. Ela relatou a sequência em entrevista ao UOL durante o Pan deste ano.

“Em junho de 2021, rompi o tendão de Aquiles. Em julho, perdi o meu irmão. Foram muitas coisas. E em 2022 eu fui empurrando com a barriga, mas eu já não estava mais feliz dentro do ginásio para treinar e competir. Eu amava ginástica, mas eu não queria estar ali, não era mais prazeroso. Terminei como pude e, no final do ano, decidi parar. Estava cansada física e psicologicamente”, contou.

Antes de parar, ainda defendendo o Pinheiros, ela voltou a competir em 2022 e ganhou medalhas no Campeonato Sul-Americano e nos Jogos Sul-Americanos. Mas, com apenas 21 anos, decidiu pausar a carreira.

Do outro lado do ginásio

Longe das competições, Thaís não se afastou da modalidade. Estudante de Educação Física, passou a estagiar dando aulas no Brasileirinhos, projeto social de Daiane dos Santos, a mesma ginasta cujo jejum ela havia quebrado em Montreal. “Conheci um pouco a parte do lado do treinador também. Participei mais de festivais de ginástica, mas já deu para sentir uma adrenalina diferente e como era estar do outro lado”, disse ao UOL.

A virada aconteceu em junho de 2024. Ao lado da mãe, Francisca, ela foi à Arena Carioca 1, no Rio, assistir ao Troféu Brasil de especialistas, competição em que foi anunciada a convocação para os Jogos de Paris. “Toda aquela emoção. Eu falei: ‘aqui é o meu lugar’. Precisava voltar para a ginástica, que é o que eu amo, que faz meus olhos brilharem”, lembrou.

Ela voltou ao ginásio no fim de 2024 e, em 3 de fevereiro de 2025, foi anunciada como reforço do Sesi-SP. Na apresentação, já deixou o objetivo claro: “Quero voltar à Seleção Brasileira, representar o Sesi-SP em grandes competições e me preparar para as Olimpíadas de 2028, em Los Angeles”.

A primeira prova foi o Troféu Brasil de maio de 2025, em Brasília, depois de dois anos sem competir. “Estou muito bem. Eu estou melhor do que eu esperava. Estou me sentindo confiante para competir após dois anos parada. Já voltei a fazer as minhas séries. Não são as mais fortes que já tive antes, mas dentro do planejamento que os meus treinadores fizeram”, afirmou em entrevista publicada pela CBG dias antes da prova. Saiu de lá com o bronze nas barras assimétricas.

O Pan do Rio e o caminho até Roterdã

O ponto alto da volta veio em junho de 2026, no Campeonato Pan-Americano disputado justamente na Arena Carioca 1, o lugar onde ela havia decidido retornar. Thaís ganhou três medalhas: prata por equipes, com o Brasil somando 157,796 pontos atrás dos Estados Unidos, bronze no individual geral e bronze na trave, com 13,533. No solo, aparelho que a projetou em 2017, ficou em quarto, com 13,166.

“Estou muito feliz, mesmo. Muito realizada. Agora, em 2026, em casa, com esse público maravilhoso, com o trabalho que a gente vem fazendo no Sesi. Mostra o quanto estamos no caminho certo e o quanto ainda temos a trabalhar. Muita resiliência também, de ter voltado da melhor forma possível”, disse. E completou: “Vejo o quanto essa pausa foi importante para mim. Voltar melhor, feliz, diferente, outra Thais”.

Na mesma temporada, ela foi ouro no solo e prata na trave no Troféu Brasil disputado em Natal. Após o Pan, o técnico da seleção, Francisco Porath, afirmou que a ginasta voltou consistente e que estava nos planos para o Mundial. A confirmação veio na lista de 7 de outubro.

O que esperar de Thaís e do Brasil no Mundial

A equipe feminina reúne três medalhistas olímpicas por equipes em Paris-2024, Rebeca Andrade, Flávia Saraiva e Lorrane Oliveira, além de Thaís Fidelis e das jovens Gabriela Bouças e Sophia Weisberg. A convocação de Rebeca, que volta ao Mundial depois de não disputar a edição de 2025, está detalhada em nossa reportagem sobre a lista para Roterdã.

A agenda é curta: o time feminino faz o treino de pódio na sexta-feira (16) e disputa a classificatória na segunda-feira (19). Em jogo está mais do que medalha. As três primeiras equipes do Mundial garantem vaga antecipada nos Jogos de Los Angeles-2028, e esta é a primeira competição por equipes do ciclo olímpico.

No ranking de forças do Olimpíada Todo Dia, o Brasil aparece em sexto, num pelotão logo atrás de China, Japão, Estados Unidos e Rússia. A análise aponta a trave como rotação forte da equipe e o solo como o grande teste, já que o país ainda não alcançou notas próximas do seu potencial no aparelho neste ciclo. É exatamente o aparelho em que Thaís fez história em 2017, e as duas provas em que ela foi ao pódio no Pan, trave e individual geral, mostram onde pode somar. Para entender o que cada aparelho exige, veja o guia dos aparelhos da ginástica artística.

“Este é o primeiro Mundial com competição por equipes deste ciclo olímpico e tem um significado especial. Nosso foco foi proporcionar um retorno gradual, baseado em experiências positivas, mantendo o time empenhado em consolidar cada série com segurança e respeitando a individualidade de cada uma”, disse Juliana Fajardo, chefe de delegação e de equipe da ginástica feminina, ao fim da aclimatação em Amsterdã.

Para Thaís, o simples fato de estar em Roterdã já fecha um ciclo pessoal. Em 2022 ela saiu do ginásio sem prazer em treinar. Quatro anos depois, volta ao maior palco da modalidade fora dos Jogos Olímpicos com a meta declarada de chegar a Los Angeles.

Fontes: Olimpíada Todo Dia, UOL/Folhapress, Brasil em Folhas.