Pelé tem os números que ninguém alcança: três Copas do Mundo, 12 gols em Mundiais e mais de mil gols na carreira. Maradona tem a Copa de 1986 praticamente ganha sozinho e um Napoli campeão italiano que, sem ele, não existiria. Na nossa opinião, Pelé foi maior pelo conjunto da obra, mas o pico de Diego no México é dos poucos momentos da história que encostam no Rei.

E a data ajuda o papo: hoje, 23 de outubro, Pelé faria 86 anos. Então vem com a gente, com tabela, história e a pitada de clubismo que um debate entre Brasil e Argentina exige.

Pelé x Maradona em números

Antes da resenha, a frieza dos dados. Os números de seleção e de Copa saem das fichas jogo a jogo da RSSSF; os títulos e prêmios, da FIFA e da imprensa brasileira, italiana e argentina.

Critério Pelé Maradona
Nascimento 23/10/1940 30/10/1960
Copas do Mundo disputadas 4 (1958, 1962, 1966 e 1970) 4 (1982, 1986, 1990 e 1994)
Copas do Mundo ganhas 3 (1958, 1962 e 1970) 1 (1986)
Jogos e gols em Copas 14 jogos, 12 gols 21 jogos, 8 gols
Jogos e gols pela seleção 92 jogos, 77 gols (91 jogos reconhecidos pela FIFA) 91 jogos, 34 gols
Gols em jogos oficiais na carreira 778 (RSSSF) 259 em 490 jogos oficiais por clubes, mais 34 em 91 jogos pela seleção (Britannica)
Gols contando amistosos 1.279 em 1.363 jogos (Guinness); 1.283 em 1.366 jogos (contagem mais citada no Brasil) sem contagem de referência
Clubes Santos e New York Cosmos Argentinos Juniors, Boca Juniors, Barcelona, Napoli, Sevilla e Newell’s Old Boys
Principais títulos de clubes Santos: 6 Brasileiros, 2 Libertadores, 2 Mundiais Interclubes, 11 Paulistas de 1956 a 1970 Napoli: 2 Campeonatos Italianos, 1 Copa da UEFA, 1 Copa da Itália, 1 Supercopa da Itália; Boca: Metropolitano 1981; Barcelona: Copa do Rei 1983
Jogador do Século da FIFA (2000) Vencedor na votação dos especialistas Vencedor na votação popular pela internet
Homenagem especial da FIFA Prêmio de Honra na festa da Bola de Ouro FIFA, em janeiro de 2014 Não se aplica

Sobre os gols do Rei, as contagens não batem: a RSSSF separa 778 gols em partidas oficiais, enquanto o Guinness reconhece 1.279 e o número mais repetido pela imprensa brasileira é 1.283, ambos com amistosos e excursões incluídos. Do lado de Diego, as somas também variam conforme a fonte, e aqui seguimos a da Encyclopaedia Britannica.

Pelé: o menino de 1958 e o Rei de 1970

Você sabia que Edson ganhou esse nome por causa de Thomas Edison? E que, aos 9 anos, viu o pai triste com o Maracanazo de 1950 e prometeu que ganharia uma Copa para ele? A FIFA conta essa história, e o garoto cumpriu a promessa cedo demais para ser verdade.

Na Suécia, em 1958, Pelé só estreou no terceiro jogo, contra a União Soviética, e depois resolveu tudo: fez o gol da vitória por 1 x 0 sobre o País de Gales nas quartas, marcou três nos 5 x 2 contra a França na semifinal e mais dois na final, outro 5 x 2, contra os donos da casa, em Estocolmo, no dia 29 de junho. Aos 17 anos, virou o campeão mundial mais jovem da história, título que a FIFA ainda reconhece.

Em 1962, uma lesão o tirou da Copa depois de dois jogos, e o Brasil foi bicampeão sem ele em campo. Em 1966, na Inglaterra, fez um gol na estreia contra a Bulgária e viu a seleção cair ainda na primeira fase. A volta por cima veio em 1970, no México, com a camisa 10 mais famosa do planeta. Ali aconteceram até os gols que ele não fez: o chute do meio-campo contra a Tchecoslováquia, que passou raspando a trave, e o drible de corpo no goleiro do Uruguai na semifinal, com a bola saindo por pouco.

Na final contra a Itália, no Estádio Azteca, Pelé abriu o placar aos 18 minutos: Rivellino cruzou de primeira e o Rei subiu mais alto que Burgnich para cabecear no canto de Albertosi. No quarto gol, ainda rolou a bola para a bomba de Carlos Alberto Torres. Brasil 4 x 1, tricampeão, dono definitivo da Taça Jules Rimet. Segundo a FIFA, Pelé deu seis assistências naquele Mundial e segue como o único jogador com três Copas do Mundo.

Entre uma Copa e outra, teve o gol mil. Foi em 19 de novembro de 1969, no Maracanã, Santos contra o Vasco: pênalti cobrado pelo Rei, o argentino Andrada acertou o canto, mas não alcançou, e a torcida invadiu o campo. Repare na ironia: o goleiro que levou o milésimo gol de Pelé era um hermano.

Maradona: a Copa de 1986 e o milagre de Nápoles

Diego estreou como profissional pelo Argentinos Juniors em 20 de outubro de 1976, dez dias antes de completar 16 anos. Pela seleção principal, a estreia foi em 27 de fevereiro de 1977, num 5 x 1 sobre a Hungria em Buenos Aires.

A cena que define Maradona aconteceu em 22 de junho de 1986, no Azteca, mesmo palco da final de Pelé em 1970. Quartas de final contra a Inglaterra, quatro anos depois da Guerra das Malvinas. Seis minutos após o intervalo, ele fez o gol com a mão que ficou conhecido como a “Mão de Deus”. Quatro minutos depois, pegou a bola no próprio campo e deixou para trás Peter Reid, Peter Beardsley, Terry Butcher, Terry Fenwick e o goleiro Peter Shilton. Gary Lineker, que ainda descontou para a Inglaterra, admitiu à UEFA que foi a única vez na carreira em que teve vontade de aplaudir um gol do adversário. Argentina 2 x 1.

Uma semana depois, em 29 de junho, a Argentina bateu a Alemanha Ocidental por 3 x 2 na final e Diego levantou a taça, com cinco gols em sete jogos naquela Copa.

No Napoli, o tamanho dele é ainda mais fácil de medir. Apresentado em 5 de julho de 1984, num San Paolo com cerca de 80 mil pessoas que pagaram ingresso simbólico só para vê-lo, Diego levou um clube que nunca tinha sido campeão italiano ao scudetto de 1986-87, com a Copa da Itália na mesma temporada, ao título da Copa da UEFA em 1989 e a um segundo Campeonato Italiano em 1989-90. Foram 115 gols em 259 jogos pelo clube, de acordo com a soma publicada pelo jornal argentino El Economista.

Pelé e Maradona se enfrentaram alguma vez?

Não, e as datas explicam. O último jogo de Pelé pela seleção foi em 18 de julho de 1971, um 2 x 2 com a Iugoslávia no Rio, mais de cinco anos antes da estreia de Maradona pela Argentina. Quando Diego virou profissional, em outubro de 1976, o Rei jogava a liga dos Estados Unidos pelo Cosmos, e o período reconhecido pelo Guinness termina em 1º de outubro de 1977, sem que os dois tenham dividido o mesmo gramado em partida oficial.

O duelo mais próximo é indireto: cada um contra o maior rival do outro. Pelé estreou pela seleção justamente contra a Argentina, em 7 de julho de 1957, e fez o gol brasileiro na derrota por 2 x 1. Ao todo, foram 10 jogos contra os argentinos e 8 gols, segundo a RSSSF. Maradona, por sua vez, deixou uma cicatriz em todo torcedor brasileiro: nas oitavas da Copa de 1990, em Turim, driblou Alemão, escapou de Dunga e deu o passe para Caniggia tirar Taffarel do lance e fazer o 1 x 0 que eliminou o Brasil.

O que cada um representa para o torcedor brasileiro

Para nós, Pelé não é só um jogador: é o Rei, o cara que fez o mundo inteiro aprender o nome do Brasil, a ponto de ser o único brasileiro na lista das pessoas mais importantes do século 20 da revista Time, como lembra a FIFA. Admito o clubismo aqui, mas é difícil discutir com três estrelas na camisa.

Maradona é o anti-herói perfeito para o brasileiro: o hermano baixinho, canhoto, catimbeiro, que a gente aprendeu a odiar em campo e a respeitar fora dele. Curiosamente, o ídolo de infância de Diego era um brasileiro, Rivellino, como contou o Estadão na morte do argentino.

A rivalidade entre os dois virou extensão do clássico entre Brasil e Argentina, com troca de farpas por décadas. Em 1986, Pelé disse que Diego só tinha pé esquerdo e que o único gol importante dele tinha sido feito com a mão; Maradona respondeu anos depois acusando o Rei de ter vendido o coração à FIFA. E a FIFA, em 2000, preferiu não escolher: Maradona venceu a votação popular pela internet, Pelé levou a votação dos especialistas, e o prêmio de Jogador do Século acabou dividido entre os dois.

A nossa opinião: quem foi melhor?

A nossa opinião é Pelé, e não só por patriotismo. Ele ganhou três Copas em 12 anos, foi decisivo como adolescente e como veterano, marcou em quatro Mundiais e fez gols em quantidade que nenhum outro jogador documentou. Maradona tem o argumento do teto: em 1986 e no Napoli, levou times menos fortes a títulos que pareciam impossíveis, algo que poucos fizeram em qualquer época.

Se a pergunta for “quem teve a melhor Copa individual?”, dá para defender Diego em 1986 sem vergonha. Se for “quem teve a melhor carreira?”, a régua do Rei continua lá em cima. Quer ver outro duelo desses, só que com sotaque brasileiro dos dois lados? Confira o nosso Ronaldo Fenômeno x Romário. Para a vida completa de cada um, tem o perfil de Pelé e o de Maradona, e a rivalidade entre as seleções está nos maiores jogos entre Brasil e Argentina.

Perguntas frequentes

O que aconteceu com Maradona no Brasil x Argentina da Copa de 1982?

Foi o primeiro encontro de Diego com o Brasil em Copas, em 2 de julho de 1982, no estádio Sarriá, em Barcelona. O Brasil venceu por 3 x 1, com Zico participando dos gols de Serginho e Júnior, e Maradona foi expulso, já com a Argentina perdendo por três gols, depois de uma entrada violenta em Batista.

Quando Pelé e Maradona morreram?

Maradona morreu em 25 de novembro de 2020, aos 60 anos, em casa, em Tigre, na Grande Buenos Aires, após uma parada cardiorrespiratória. Pelé morreu em 29 de dezembro de 2022, aos 82 anos, no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, por falência de múltiplos órgãos causada pela progressão de um câncer de cólon.

E Messi, entra nessa discussão?

Entra, principalmente depois do título da Argentina na Copa de 2022, no Catar, decidido nos pênaltis contra a França. Pelé, em entrevista de 2018, disse que Maradona era bem melhor que Messi. Para muitos argentinos, a briga hoje é entre Diego e Leo; para o brasileiro, o trono continua com o Rei.

Pelé e Maradona eram amigos?

Tiveram uma relação de amor e ódio. Em 2005, Pelé foi o primeiro convidado do programa de TV de Maradona, “La Noche del 10”, e os dois trocaram 26 cabeçadas sem deixar a bola cair. Em 2016, selaram a paz num evento em Paris, e na morte de Diego o Rei escreveu que um dia os dois iriam bater uma bola juntos no céu.

Quiz: você sabe tudo sobre Pelé x Maradona?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Contra qual seleção Pelé marcou dois gols na final da Copa de 1958?

Foi contra a dona da casa, a Suécia, num 5 x 2 em Estocolmo, em 29 de junho de 1958. Pelé tinha 17 anos.

2. Quem era o goleiro do Vasco no milésimo gol de Pelé, em 1969?

O argentino Andrada acertou o canto do pênalti, mas não alcançou a bola, no Maracanã, em 19 de novembro de 1969.

3. Em que estádio Maradona marcou os dois gols contra a Inglaterra na Copa de 1986?

Foi no Azteca, na Cidade do México, o mesmo palco da final de 1970 vencida pelo Brasil de Pelé.

4. Na eleição do Jogador do Século da FIFA, em 2000, qual votação Maradona venceu?

Diego venceu a votação popular pela internet, e Pelé ganhou a dos especialistas. O prêmio acabou dividido.

5. Em qual temporada o Napoli de Maradona conquistou seu primeiro Campeonato Italiano?

O primeiro scudetto veio em 1986-87, temporada em que o Napoli também levou a Copa da Itália. O segundo título italiano chegou em 1989-90.

Seu placar:

Fontes: FIFA, RSSSF, Guinness World Records, Folha de S.Paulo (Folhapress), Estadão, Gazeta Esportiva, Trivela, UEFA, Sky Sport Italia, El Economista, Lance!, Metrópoles, Encyclopaedia Britannica, Santos FC.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.