Seis jogadores de cada lado, uma quadra de 10 x 6 metros, rede a 1,15 m no masculino e 1,05 m no feminino e uma regra que muda tudo: na hora de atacar ou bloquear, o glúteo não pode desgrudar do chão. Esse é o vôlei sentado, modalidade paralímpica desde Arnhem 1980, em que até o saque pode ser bloqueado. E o Brasil tem lugar cativo nessa mesa: as meninas foram bronze no Rio 2016 e em Tóquio 2020, campeãs mundiais em 2022 e vice em 2026.
Vem com a gente entender as regras oficiais da World ParaVolley para o ciclo 2025 a 2028. Para o panorama geral, veja o nosso guia de regras dos esportes paralímpicos mostra o quadro completo.
A quadra e a rede: tudo mais perto
A quadra é um retângulo de 10 x 6 m, cercado por uma zona livre de pelo menos 3 m em todos os lados. Em competições oficiais da World ParaVolley, essa zona sobe para 4 m nas laterais e 6 m atrás das linhas de fundo. A linha de ataque fica a apenas 2 m do eixo da linha central, então a zona de frente é estreita e a bola chega à rede num piscar de olhos.
A rede fica a 1,15 m do chão no masculino e a 1,05 m no feminino, medida no centro da quadra. A tolerância é de 2 cm. Para comparar com o jogo em pé, abra o nosso guia de regras do voleibol.
A regra do glúteo: o que é o lift
Aqui mora a alma do jogo. Segundo o livro de regras da World ParaVolley, durante as ações de jogo o atleta precisa estar sempre em contato com a quadra com alguma parte do corpo entre o glúteo e os ombros. Ficar em pé, levantar o corpo ou dar passos é proibido. Quando essa parte do tronco perde o contato com o chão numa ação de jogo, o árbitro marca o famoso lift (levantamento).
A regra tem nuances que todo torcedor precisa conhecer:
- No ataque, tolerância zero: levantar o glúteo no momento em que bate na bola é falta.
- No bloqueio, só conta se tocar na bola: o bloqueador que sobe o quadril e toca na bola comete falta; se subir sem tocar, o jogo segue.
- Na defesa, há exceção: o lift é permitido em qualquer lugar da quadra numa ação defensiva (primeiro, segundo ou terceiro toque) se a bola não estiver inteiramente acima do bordo superior da rede.
- Perda curta de contato: desde a revisão de 2025, o glúteo pode perder o contato com o chão por um instante, em qualquer área, desde que não seja numa ação de ataque. Também vale a perda de contato como reação depois do lance.
Saque, bloqueio do saque e ataque
O saque sai da zona de saque, faixa de 6 m de largura atrás da linha de fundo. No momento do golpe, o glúteo do sacador não pode tocar a quadra (linha de fundo incluída) nem o piso fora da zona de saque. Já pés, pernas e mãos podem encostar na quadra. São 8 segundos depois do apito e um único lançamento da bola. Desde 2025, atletas com deficiência de mão classificada podem sacar sem lançar a bola.
E agora a regra que mais surpreende quem vem do vôlei convencional: bloquear o saque adversário é permitido. A revisão de 2025 também apertou o cerco à “barreira”: os jogadores do time que saca não podem levantar as mãos acima da cabeça antes do golpe, e quem está no fundo não pode ter braços ou mãos acima dos ombros.
No ataque, o jogador de fundo pode atacar de trás da linha de ataque, desde que, no momento do golpe, o glúteo não tenha tocado nem cruzado essa linha.
Sets, pontos, líbero e substituições
A pontuação é a mesma do vôlei de quadra: vence quem ganhar três sets. Cada set vai a 25 pontos com dois de vantagem (26 x 24, 27 x 25 e assim por diante), e o quinto set, se houver, vai a 15, também com dois de diferença.
Cada time tem até seis substituições por set. O titular pode sair e voltar uma única vez no set, e sempre para a mesma posição na rotação; o reserva entra uma vez e só pode ser trocado pelo mesmo titular.
O líbero é o especialista em defesa. A equipe pode inscrever nenhum, um ou dois, mas só um fica em quadra por vez. Ele substitui qualquer jogador do fundo, não pode sacar, bloquear nem tentar bloquear, e não pode completar um ataque com a bola inteiramente acima da rede. As trocas envolvendo o líbero são ilimitadas e não contam como substituição, mas precisa haver um rali completo entre uma e outra.
Classificação: VS1, VS2 e a conta que todo técnico faz
A World ParaVolley trabalha com duas classes esportivas. Na VS1 estão os atletas cuja deficiência afeta mais as funções essenciais do vôlei sentado; na VS2, os de deficiência mínima. O CPB dá exemplos: amputados de perna costumam ser VS1, enquanto amputação de parte do pé ou dos dois polegares leva à VS2. Os nomes VS1 e VS2 surgiram na revisão das regras de classificação iniciada em 2016.
Aí entra a matemática do técnico. Uma equipe pode inscrever até 14 jogadores para a partida, com no máximo dois VS2. Em quadra, entre os seis, só pode haver um VS2, e a conta vale mesmo com o líbero jogando. Cada substituição tem que respeitar essa conta. Outra modalidade que nivela o jogo de um jeito próprio é o goalball: confira as regras do goalball.
De onde veio: Holanda, 1956
De acordo com o Comitê Paralímpico Internacional (IPC), o vôlei sentado nasceu na Holanda em 1956, da mistura do vôlei com o sitzball, pensado inicialmente para soldados feridos. A estreia oficial nos Jogos veio em Arnhem 1980, com ouro para os donos da casa, que bateram a Suécia na final. O feminino só entrou no programa em Atenas 2004. Para o contexto, leia a nossa história das Paralimpíadas.
No masculino, o gigante se chama Irã. Em Paris 2024, os iranianos bateram a Bósnia e Herzegovina por 3 x 1 e chegaram ao oitavo ouro paralímpico na modalidade. A cena da final foi de Morteza Mehrzad: 27 pontos, 25 deles em ataques, num jogo que teve um segundo set de 30 x 28. Em julho de 2026, em Hangzhou, o Irã ganhou o nono título mundial, outra vez contra os bósnios.
A Seleção feminina: do Riocentro ao topo do mundo
A virada de chave aconteceu em casa. Em 17 de setembro de 2016, no Pavilhão 6 do Riocentro, diante de cerca de 8.500 pessoas, o Brasil passou pela Ucrânia por 3 x 0 (25/12, 25/22 e 25/20) e conquistou o bronze, primeira medalha paralímpica da história da Seleção feminina. Janaína Cunha foi a maior pontuadora com 22 pontos.
Em Tóquio, a dose se repetiu. Na disputa do bronze, em setembro de 2021, a Seleção derrotou o Canadá por 3 x 1 (25/15, 24/26, 26/24 e 25/14) com uma muralha na rede: 19 bloqueios no jogo, cinco deles de Jani Freitas Batista. A líbero Gizele Dias resumiu o sentimento ao site da World ParaVolley: “A medalha de bronze é como uma medalha de ouro para nós”.
O auge veio em 11 de novembro de 2022, em Sarajevo. Na final do Mundial, de novo contra o Canadá, o Brasil venceu em cinco sets, 3 x 2, num jogo de tirar o fôlego. Era o primeiro pódio da história da Seleção em Mundiais, já com o título, sob o comando de Fernando Guimarães, que assumira o time feminino só três semanas antes do torneio.
Paris 2024 doeu, e não vou fingir que não. As campeãs mundiais chegaram com moral, caíram para os Estados Unidos na semifinal (3 x 1, com 14 pontos de Duda e de Suellen) e, na disputa do bronze, foram superadas pelo mesmo Canadá de Sarajevo por 3 x 0 (25/15, 25/18 e 25/18). As canadenses fizeram 15 aces contra 3. Quarto lugar. A resposta veio em julho de 2026, em Hangzhou: o Brasil chegou à final do Mundial sem perder um set (3 x 0 na China pela semifinal), perdeu para os Estados Unidos por 3 x 1 e saiu da China com a prata e a vaga garantida em Los Angeles 2028.
A Seleção masculina: o pódio que insiste em escapar
Os homens estrearam nos Jogos em Pequim 2008 (sexto lugar) e foram subindo degrau por degrau: quinto em Londres 2012, quarto no Rio 2016. Em Tóquio, voltaram à semifinal, perderam para o time do Comitê Paralímpico Russo e encararam a Bósnia no jogo do bronze. Ganharam o primeiro set, mas os bósnios viraram para 3 x 1. O veterano Giba, presente desde a estreia em Pequim, falou com serenidade depois de um ano em que teve trombose e perdeu o pai e a irmã para a covid: “A Bósnia é multicampeã e tem muitos anos juntos. Sabíamos que seria um jogo muito difícil”.
Em Paris 2024, a campanha terminou no sexto lugar, depois de derrota por 3 x 0 para o Cazaquistão na disputa do quinto posto. Em Mundiais, o currículo é mais gordo: prata em 2014, em Elblag (Polônia), com vitória sobre o Irã na semifinal, e bronze em 2018 (Holanda) e 2022 (Sarajevo, 3 x 1 sobre o Egito). Em Hangzhou 2026, o Brasil ficou em quarto, após perder o bronze para o Cazaquistão no tie-break (3 x 2). A vaga em Los Angeles agora passa pelos campeonatos continentais de 2027 ou, em último caso, pelo torneio qualificatório final de Arnhem, no início de 2028.
Resumo das regras do vôlei sentado
| Item | Regra oficial (World ParaVolley 2025 a 2028) |
|---|---|
| Quadra | 10 x 6 m, zona livre mínima de 3 m |
| Linha de ataque | 2 m do eixo da linha central |
| Altura da rede | 1,15 m (masculino) e 1,05 m (feminino) |
| Jogadores | 6 em quadra, até 14 inscritos |
| Classes | VS1 e VS2; no máximo 2 VS2 inscritos e 1 VS2 em quadra |
| Contato com o chão | Tronco (do glúteo aos ombros) sempre em contato; lift no ataque é falta |
| Saque | Glúteo fora da quadra no golpe; 8 segundos; bloqueio do saque permitido |
| Sets | Melhor de 5; sets de 25 pontos e tie-break de 15, sempre com 2 de vantagem |
| Substituições | Até 6 por set |
| Líbero | Zero, um ou dois inscritos; um em quadra; não saca nem bloqueia |
O Brasil nas grandes competições
| Competição | Feminino | Masculino |
|---|---|---|
| Rio 2016 | Bronze | 4º lugar |
| Tóquio 2020 | Bronze | 4º lugar |
| Paris 2024 | 4º lugar | 6º lugar |
| Mundial 2022 (Sarajevo) | Ouro | Bronze |
| Mundial 2026 (Hangzhou) | Prata | 4º lugar |
Perguntas frequentes
Quem pode jogar vôlei sentado?
Homens e mulheres com deficiência física ou ligada à locomoção, segundo o CPB. A World ParaVolley aceita, entre outras, deficiência de membros (amputação ou diferença de comprimento), amplitude de movimento reduzida, perda de força muscular e hipertonia ou ataxia, desde que o atleta cumpra os critérios mínimos.
Pode passar a perna para o lado adversário?
Pode. É permitido invadir o espaço adversário por baixo da rede e tocar a quadra do outro lado com qualquer parte do corpo, desde que isso não atrapalhe o jogo do rival.
Quantos pedidos de tempo cada time tem?
Dois por set. Desde a revisão de 2025, cada tempo dura 60 segundos, o dobro dos 30 segundos de antes.
Existe campeonato nacional de vôlei sentado no Brasil?
Sim. A modalidade é administrada pela Confederação Brasileira de Voleibol para Deficientes (CBVD), com sede em Aracaju. Em 8 de outubro de 2026, no CT Paralímpico, em São Paulo, o Sesi-SP venceu a Aspaego-GO por 3 x 0 e conquistou o 20º título do Brasileiro feminino.
Quiz: você manja das regras do vôlei sentado?
Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.
1. Qual é a altura da rede no vôlei sentado feminino?
2. Quais são as medidas da quadra de vôlei sentado?
3. Quantos atletas da classe VS2 podem estar em quadra ao mesmo tempo?
4. Contra quem a Seleção feminina venceu a final do Mundial de 2022, em Sarajevo?
5. Qual adversário o Brasil derrotou para ganhar o bronze feminino no Rio 2016?
Seu placar:
Fontes: World ParaVolley, Comitê Paralímpico Internacional (IPC), Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), Confederação Brasileira de Voleibol para Deficientes (CBVD).