Domingo, 25 de outubro de 2026, glaciar Rettenbach, em Sölden, na Áustria. O vento tinha castigado a abertura da Copa do Mundo de esqui alpino, o céu abriu para a segunda descida do slalom gigante, e um brasileiro nascido em Oslo cruzou a linha de chegada com 48 centésimos de vantagem sobre o suíço Loïc Meillard. No finish, só uma palavra: “Vamos!”. Você sabia que esse mesmo Lucas Pinheiro Braathen, hoje campeão olímpico, chegou a abandonar o esqui em 2023? Vem com a gente, porque a história dele é a mais improvável do esporte brasileiro.

De Oslo a Campinas: um menino que queria ser jogador de futebol

Lucas Pinheiro Braathen nasceu em Oslo, na Noruega, em 19 de abril de 2000, filho de mãe brasileira (Alessandra) e pai norueguês. Segundo o Comitê Olímpico do Brasil (COB), o português foi a primeira língua dele, os avós moram em Campinas (SP) e ele tem primos em São Paulo. A vontade original era outra: virar jogador de futebol. Aos 9 anos, por insistência do pai, topou experimentar o esqui alpino e decidiu seguir no esporte.

O gosto pelo Brasil nunca saiu do pacote. O COB registra que ele passa parte de quase todos os anos por aqui, curte churrasco, bossa nova e samba, e é torcedor do São Paulo.

A carreira pela Noruega: vitórias, joelho e um recomeço

O caminho foi rápido. Aos 14 anos entrou na equipe de desenvolvimento norueguesa e, aos 16, passou a ser atleta registrado pela Federação Internacional de Esqui (FIS). Na temporada 2018/19, conquistou a prata no Super-G e o bronze no combinado no Mundial Júnior, e estreou na Copa do Mundo.

Em 2020/21, subiu ao primeiro pódio da Copa do Mundo com uma vitória no slalom gigante de Sölden, a mesma pista da abertura de 2026. Menos de três meses depois, rompeu ligamentos do joelho, perdeu o resto da temporada e o Mundial de 2021 e levou oito meses para se recuperar. Voltou para vencer um slalom em Wengen, na Suíça, na temporada seguinte.

Nem tudo foram flores: nos Jogos de Inverno de Pequim 2022, ele errou um portão nas duas provas que disputou e ficou fora da classificação final. Em 2022/23, veio o melhor ano: sete pódios em 20 corridas (três vitórias), 17 vezes entre os dez primeiros e o título do slalom na Copa do Mundo, o primeiro globo de cristal pequeno da carreira, segundo o COB.

2023: a aposentadoria que ninguém esperava

Em 2023, na véspera da temporada 2023/24, Lucas anunciou que estava deixando o esqui. O COB resume o motivo em divergências com a federação norueguesa sobre visibilidade de patrocinadores, regras de vestimenta e participação em eventos, e a imprensa também citou direitos de imagem. Ele alugou o apartamento em Oslo, passou férias em Ilhabela (SP) e só voltou à Europa em janeiro de 2024.

Em 2024, depois de conversar com os patrocinadores e com a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN), anunciou a volta, agora pelo Brasil. A Noruega aprovou a mudança de nacionalidade esportiva, e ele manteve os pontos da FIS e pôde competir na hora. Na nossa opinião, foi uma das decisões mais corajosas do nosso esporte nos últimos anos: trocar uma potência do inverno por um país sem tradição na neve.

Pelo Brasil: o primeiro pódio e a vitória inédita em Levi

Na temporada 2024/25, ele foi quarto no slalom gigante de Sölden e, em Beaver Creek, nos Estados Unidos, fez o primeiro pódio com a bandeira brasileira. Somou ainda pratas em Adelboden e Kranjska Gora e bronzes em Kitzbühel e Hafjell.

Em 16 de novembro de 2025, na abertura da Copa do Mundo em Levi, na Finlândia, veio o dia histórico. Segundo a Agência Brasil, ele liderou a primeira descida do slalom por 0,41 segundo e não errou na segunda, terminando 0,31 segundo à frente do francês Clément Noël. Foi a primeira vitória de um brasileiro na história da Copa do Mundo de esqui alpino.

Bormio, 14 de fevereiro de 2026: o ouro

Ele chegou aos Jogos de Milano Cortina com nove resultados seguidos entre os cinco primeiros, de acordo com o COB. No slalom gigante, em Bormio, liderou a primeira descida (1min13s92) com vantagem de 0,95 segundo, fechou a segunda em 1min11s08 e terminou com 0,58 segundo sobre o suíço Marco Odermatt, então campeão olímpico. Loïc Meillard ficou com o bronze.

Foi a primeira medalha do Brasil em Jogos Olímpicos de Inverno e também a primeira de um país sul-americano. O melhor resultado brasileiro até ali era o nono lugar de Isabel Clark no snowboard cross, em Turim 2006. Se você curtiu o clima de pioneirismo, vale ler também sobre a estreia histórica da skeletonista Nicole Silveira em Pequim 2022.

Fora das pistas, o COB lembra que Lucas desenhou os uniformes de esqui alpino do Time Brasil em Milano Cortina e tem uma linha própria de óculos de esqui.

Lucas Pinheiro Braathen em 2026/27: a caça ao título geral

Na temporada passada, ele ganhou o globo de cristal do slalom gigante, foi vice-campeão geral e terminou em terceiro no slalom, segundo o Olimpíada Todo Dia. Para 2026/27, o plano é mirar o título geral, que soma pontos nas quatro disciplinas, e incluir o Super-G como terceira prova. “É um desafio gigante, mas eu amo isso”, disse ele ao site.

A resposta veio logo na estreia: em 25 de outubro de 2026, em Sölden, ele venceu o slalom gigante, assumiu a liderança da classificação geral e da disciplina e, na contagem do jornal O Tempo, chegou à nona vitória na Copa do Mundo. Meillard foi o segundo e Odermatt o terceiro, a 0,49 segundo. O calendário segue em Levi, em 14 e 15 de novembro, com slalom. Para comparar com outros campeões olímpicos do país, confira a história de Rebeca Andrade e o panorama dos Jogos de Paris 2024.

Principais resultados de Lucas Pinheiro Braathen

Ano Competição Resultado
2018/19 Mundial Júnior (pela Noruega) Prata no Super-G e bronze no combinado
2020/21 Copa do Mundo, slalom gigante em Sölden Primeiro pódio e vitória
2021/22 Copa do Mundo, slalom em Wengen Vitória
2022/23 Copa do Mundo, slalom Título da disciplina
2024/25 Copa do Mundo, slalom gigante em Beaver Creek Primeiro pódio pelo Brasil
2025 Copa do Mundo, slalom em Levi Primeira vitória brasileira
2026 Jogos de Inverno de Milano Cortina, slalom gigante Ouro, primeira medalha do Brasil em Jogos de Inverno
2025/26 Copa do Mundo Globo de cristal do slalom gigante e vice-campeão geral
2026/27 Abertura da Copa do Mundo, Sölden Vitória no slalom gigante (25/10/2026)

Quiz: você conhece a história de Lucas Pinheiro Braathen?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Em que cidade Lucas Pinheiro Braathen nasceu?

Ele nasceu em Oslo, na Noruega, filho de mãe brasileira e pai norueguês.

2. Em que ano ele anunciou a aposentadoria quando ainda defendia a Noruega?

Em 2023, na véspera da temporada 2023/24, ele anunciou que deixava o esqui, depois de divergências com a federação norueguesa.

3. Qual confederação brasileira ele procurou para voltar a competir pelo Brasil?

Foi com a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) que ele acertou a volta, já em 2024.

4. Em que prova ele conquistou o ouro olímpico em Milano Cortina 2026?

O ouro veio no slalom gigante, em Bormio, na Itália, em 14 de fevereiro de 2026.

5. Em qual estação da Áustria ele abriu a temporada 2026/27 vencendo o slalom gigante?

Sölden, no glaciar Rettenbach, também foi palco de uma vitória dele em 2020, ainda pela Noruega.

Seus acertos:

Fontes: COB, Olimpíada Todo Dia.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.