Você sabia que um quádruplo lutz vale 11,50 pontos de base, mas pode render quase nada se o patinador cair? A patinação artística é assim: quatro minutos de música, nove juízes, um painel técnico revendo cada rotação e uma planilha que transforma arte em número. Vem com a gente entender as regras da patinação artística, do programa curto ao backflip que voltou a ser legal, com as mudanças da temporada 2026/27 e as cenas que decidiram Milão-Cortina.

As provas: individual, duplas, dança e equipes

O programa olímpico tem cinco eventos: individual masculino, individual feminino, duplas, dança no gelo e a prova por equipes, presente desde Sochi 2014. No individual e nas duplas, cada um faz um programa curto e um programa livre; na dança, os segmentos são a rhythm dance e a free dance. A soma das duas notas define o pódio.

As duplas têm saltos lado a lado, saltos lançados, twist lifts, espirais da morte e levantamentos. Na dança no gelo, contam os passos e os levantamentos, e o levantamento que passa do tempo gera dedução. Na prova por equipes, dez países somam pontos pela colocação em cada segmento (10 para o primeiro, 9 para o segundo e assim por diante), e os cinco melhores após os programas curtos vão à final.

Programa curto e programa livre

Pelas exigências da ISU para 2026/27 (Comunicação 2788), o programa curto adulto dura 2min40s, com tolerância de 10 segundos, e tem sete elementos obrigatórios: um Axel duplo ou triplo, um triplo isolado (ou quádruplo, no masculino), uma combinação de saltos, três piruetas e uma sequência de passos.

O livre adulto dura 4 minutos (mais ou menos 10 segundos). A partir desta temporada, são no máximo seis elementos de salto, um deles do tipo Axel, com até duas combinações ou sequências. Entram ainda três piruetas, uma sequência de passos e uma sequência coreográfica. Um mesmo tipo de salto aparece no máximo três vezes, e só dois triplos ou quádruplos podem ser repetidos, apenas um deles quádruplo.

Como funciona a notação da ISU

A primeira metade da nota é a nota técnica (TES). O painel técnico, com dois especialistas e um controlador, identifica cada elemento e seu nível (de 1 a 4 em piruetas e passos), o que define o valor de base. No livre, os três últimos elementos de salto, quando feitos na segunda metade do programa, ganham bônus de 10% no valor de base, marcado com um “x” no protocolo.

Sobre o valor de base entra o GOE (grau de execução): cada um dos nove juízes dá de menos 5 a mais 5, a maior e a menor nota são descartadas e a média das demais vira bônus ou desconto. Salto com queda costuma levar menos 5 de todo mundo.

A outra metade são os componentes do programa (PCS): composição, apresentação e habilidades de patinação, cada um de 0,25 a 10, multiplicados por um fator: 1,33 no curto feminino, 1,67 no curto masculino, 2,67 no livre feminino e 3,33 no livre masculino.

Por fim, as deduções: cada uma das duas primeiras quedas custa 1 ponto, a terceira e a quarta custam 2 e, a partir da quinta, são 3 pontos por queda. Estouro de tempo também é punido.

Os saltos: Axel, lutz, flip e companhia

  • Axel: o único que decola de frente, por isso tem meia volta a mais (o triplo Axel tem três voltas e meia). Homenageia o norueguês Axel Paulsen (1882) e é o de maior valor.
  • Lutz: borda externa de trás com apoio da ponta do outro patim, girando contra a curva da entrada. Nome do austríaco Alois Lutz (1913).
  • Flip: também com a ponta, mas saindo da borda interna. Lutz e flip com a borda errada são penalizados.
  • Loop: sai da borda externa e aterrissa no mesmo pé, sem ajuda da ponta. Na Alemanha e na Rússia, é o Rittberger.
  • Salchow: decola da borda interna de um pé e aterrissa no outro. Criação do sueco Ulrich Salchow (1909).
  • Toe loop: com a ponta, aterrissando no mesmo pé. O de menor valor, muito usado como segundo salto de combinação.

O quádruplo Axel, segundo a ISU, só foi acertado em competição por um patinador: o americano Ilia Malinin, que fez o primeiro em 2022.

O salto proibido que deixou de ser proibido

O americano Terry Kubicka, apontado como o primeiro a acertar um mortal para trás em competição, repetiu o movimento nos Jogos de Innsbruck 1976, e a ISU proibiu o backflip logo depois daquela temporada. Em Nagano 1998, a francesa Surya Bonaly fez o seu, aterrissando num pé só, sabendo que perderia pontos. Contamos essa história no texto sobre o salto proibido na patinação.

A virada veio em junho de 2024, no Congresso da ISU em Las Vegas: os saltos do tipo mortal saíram da lista de elementos ilegais nas categorias júnior e adulta, porque, segundo a ISU, são muito espetaculares e não fazia mais sentido proibi-los. O backflip não tem valor de base, mas pode pesar nos componentes. Pouco antes, em 2023, o francês Adam Siao Him Fa ainda levou 2 pontos de dedução pelo seu.

Três cenas de Milão-Cortina 2026

O backflip que valeu ouro

Em 8 de fevereiro, Estados Unidos e Japão chegaram empatados ao último segmento da prova por equipes, o livre masculino. Shun Sato patinou limpo e somou 194,86. Malinin respondeu com cinco quádruplos, um backflip aterrissado num pé só e 200,03 pontos, sem dedução nenhuma. Ouro americano por 69 a 68, a menor diferença possível.

A noite em que o “Quad God” caiu

Em 13 de fevereiro, Malinin liderava o individual por cerca de cinco pontos. No livre, abriu com um quádruplo flip perfeito e depois desmoronou: desistiu do quádruplo Axel e só fez um Axel simples, transformou o quádruplo loop em duplo, caiu no segundo quádruplo lutz e caiu de novo num duplo Salchow. Foram 2 pontos de dedução, o 15º livre e o oitavo lugar. “Eu estraguei tudo”, admitiu, segundo a Associated Press. Quem aproveitou foi o cazaque Mikhail Shaidorov, quinto no curto, que acertou cinco quádruplos sem dedução e fechou com 291,58.

Do quinto lugar ao ouro inédito

Em 16 de fevereiro, os japoneses Riku Miura e Ryuichi Kihara, bicampeões mundiais, estavam em quinto depois de um erro raro no curto. O técnico Bruno Marcotte pediu que fossem os melhores do mundo naquele dia e esquecessem a véspera. Resultado: 158,13 pontos no livre, recorde mundial no sistema atual, e a primeira medalha olímpica do Japão nas duplas, logo de ouro. Na nossa opinião, a apresentação mais bonita dos Jogos.

Pódios da patinação artística em Milão-Cortina 2026

Prova Ouro Prata Bronze
Masculino Mikhail Shaidorov (CAZ), 291,58 Yuma Kagiyama (JPN), 280,06 Shun Sato (JPN), 274,90
Feminino Alysa Liu (EUA), 226,79 Kaori Sakamoto (JPN), 224,90 Ami Nakai (JPN), 219,16
Duplas Riku Miura e Ryuichi Kihara (JPN), 231,24 Anastasiia Metelkina e Luka Berulava (GEO), 221,75 Minerva Fabienne Hase e Nikita Volodin (ALE), 219,09
Dança Laurence Fournier Beaudry e Guillaume Cizeron (FRA), 225,82 Madison Chock e Evan Bates (EUA), 224,39 Piper Gilles e Paul Poirier (CAN), 217,74
Equipes Estados Unidos, 69 Japão, 68 Itália, 60

O que muda na temporada 2026/27

  • Livre com seis saltos no individual, um deles Axel.
  • Pirueta coreográfica no livre individual, com valor de base fixo e avaliada só pelo GOE. Nas duplas, chegam o levantamento coreográfico e a pirueta coreográfica.
  • Euler sem valor: entre dois saltos de uma combinação, não vale ponto nem conta no número de saltos da combinação; é proibido na combinação do curto e só pode aparecer uma vez no livre, entre dois saltos.
  • Duplas: o curto exige levantamento do grupo 3, pirueta combinada e espiral da morte para frente pela borda interna; os grupos de levantamento passam a ser definidos pela pegada acima da cabeça.
  • Nova tabela de valores (Comunicação 2786), com pequenos ajustes em quádruplos, triplos e piruetas.

E o Brasil na patinação artística?

A pioneira é Isadora Williams, nascida em 8 de fevereiro de 1996 em Marietta, nos Estados Unidos, filha de mãe de Belo Horizonte e pai americano. Ela foi a primeira patinadora artística do Brasil em Jogos de Inverno, em Sochi 2014, onde terminou em último. Em PyeongChang 2018 veio a redenção: 55,74 pontos no curto, 17º lugar e a primeira classificação brasileira para o livre olímpico. “Tenho dupla cidadania, mas acho que já nasci com a alma brasileira”, disse ao Correio Braziliense. No livre, caiu no primeiro salto e fechou em 24º, mas a história estava feita.

Em Milão-Cortina, o Brasil não atingiu os critérios técnicos e ficou fora da modalidade. A base segue com a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG): no relatório de 2024, a patinação artística respondia por 29% dos filiados na temporada 2024/25, Lucaz Candria e Elena Mills disputaram etapas do Grand Prix Júnior e o Campeonato Brasileiro, em São Paulo, reuniu 60 atletas. Curte esporte no gelo? Veja também as regras do curling e o nosso guia de regras dos esportes.

Quiz: você sabe tudo sobre as regras da patinação artística?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Quantos juízes dão a nota de GOE (grau de execução) em cada elemento?

São nove juízes, com notas de menos 5 a mais 5. A maior e a menor são descartadas e a média das demais vira bônus ou desconto.

2. Qual é o único salto que decola de frente?

O Axel decola de frente e por isso tem meia volta a mais. O nome homenageia o norueguês Axel Paulsen.

3. Em que cidade o Congresso da ISU tirou o backflip da lista de elementos ilegais, em junho de 2024?

Foi em Las Vegas. O backflip voltou a ser legal, sem valor de base, mas pode pesar nos componentes.

4. Quem ganhou o ouro no individual masculino em Milão-Cortina 2026?

O cazaque Mikhail Shaidorov, quinto no curto, acertou cinco quádruplos e fechou com 291,58. Malinin caiu para o oitavo lugar.

5. Em qual edição Isadora Williams virou a primeira brasileira a se classificar para o programa livre olímpico?

Em PyeongChang 2018 ela fez 55,74 pontos no curto e ficou em 17º. Em Sochi 2014 tinha sido a primeira brasileira da modalidade em Jogos.

Seus acertos:

Fontes: ISU, Ice Skating Australia, Golden Skate, Skate Canada, U.S. Figure Skating, Olympics.com, NPR, NBC Sports, Associated Press, TSN, Estadão Conteúdo, Correio Braziliense, Times Brasil, CBDG.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.