Imagine esquiar quilômetros na neve no limite do fôlego, parar de repente, deitar no tapete e acertar um alvo do tamanho de uma moeda a 50 metros de distância. Depois levantar, sair esquiando de novo e repetir tudo em pé. Esse é o biatlo, a modalidade que mistura esqui cross-country e tiro esportivo e que talvez seja a mais imprevisível dos Jogos de Inverno. Vem com a gente entender as regras, as provas e onde o Brasil entra nessa história.

O que é o biatlo e de onde ele veio

O nome vem do grego e significa algo como “duas provas”. A raiz está nas florestas nevadas da Escandinávia, onde caçar sobre esquis com um fuzil nas costas era questão de sobrevivência. Segundo a União Internacional de Biatlo (IBU), um ancestral direto do esporte, a patrulha militar de esqui, apareceu já nos primeiros Jogos de Inverno, em Chamonix 1924.

A estreia olímpica do biatlo propriamente dito foi em Squaw Valley 1960, com uma única prova: os 20 km individuais masculinos. E o primeiro campeão já deixou a régua lá no alto: o sueco Klas Lestander acertou os 20 alvos e levou o ouro.

A evolução veio aos poucos. O revezamento masculino estreou em Grenoble 1968 e a velocidade (sprint) em Lake Placid 1980. Entre 1978 e 1984 o esporte trocou os fuzis de grosso calibre pelo calibre .22, com todo o tiro a 50 metros, e os alvos passaram a mudar de cor ao serem atingidos. As mulheres só entraram no programa olímpico em Albertville 1992. A perseguição chegou em 2002, a largada em massa em 2006 e o revezamento misto em Sochi 2014.

Regras do biatlo: o básico

Todas as regras abaixo estão no livro oficial de competição da IBU, versão 2026. O princípio é simples: ganha quem soma o menor tempo (ou cruza primeiro a linha de chegada, conforme a prova), e cada tiro errado tem um preço.

O esqui

  • O atleta percorre o circuito na ordem e na direção marcadas, sempre carregando o fuzil, os carregadores e a munição.
  • Todas as técnicas de esqui são permitidas, inclusive o skating (o “passo de patinador”) desde o sinal de largada nas saídas em massa.
  • O esqui precisa ter, no mínimo, a altura do atleta menos 10 cm.

O tiro

  • Os alvos ficam a 50 metros. Em cada série há cinco alvos, que são pretos e ficam brancos quando atingidos.
  • Deitado (prone), o alvo tem 4,5 cm de diâmetro. Em pé, 11,5 cm. Parece mais fácil em pé, mas é ali que o corpo cansado balança e o placar vira.
  • Na posição deitada, o fuzil só pode tocar mãos, ombro e bochecha, e o punho do braço de apoio precisa ficar claramente erguido do chão. Em pé, o atleta não pode usar nenhum apoio externo; pode encostar o braço no peito ou no quadril.
  • É proibido tirar os esquis no tapete de tiro.

O fuzil

  • Calibre 5,6 mm (.22), sem mira com aumento.
  • Peso mínimo de 3,5 kg, sem contar carregadores e munição. Ou seja, o atleta esquia a prova inteira com esse peso nas costas.
  • Gatilho com resistência mínima de 0,5 kg e carregadores de no máximo cinco tiros.

As punições por erro

Aqui está o coração do biatlo. Dependendo da prova, cada alvo não derrubado custa:

  • Volta de penalidade de 150 m: velocidade, perseguição, largada em massa e revezamentos.
  • Volta de 75 m: super sprint e revezamento misto simples.
  • 1 minuto acrescentado ao tempo: individual tradicional.
  • 45 segundos: individual curto.

A volta de penalidade tem de ser feita logo depois da série de tiro, e a responsabilidade de contar é do próprio atleta. Não dá para “deixar para depois”.

As provas do biatlo

A tabela resume os formatos oficiais da IBU. A ordem de tiro usa D para deitado e P para em pé.

Prova Masculino Feminino Tiro Largada
Velocidade (sprint) 10 km 7,5 km D, P Individual, a cada 30 s
Perseguição 12,5 km 10 km D, D, P, P Com a diferença do sprint
Individual 20 km 15 km D, P, D, P Individual, a cada 30 s
Largada em massa 15 km 12,5 km D, D, P, P Simultânea, 30 atletas
Revezamento 4 x 7,5 km 4 x 6 km D, P por perna Simultânea e troca por toque
Revezamento misto 4 x 6 km (dois homens, duas mulheres) D, P por perna Simultânea e troca por toque

Velocidade e perseguição: uma puxa a outra

Na velocidade, os atletas largam um a um, a cada 30 segundos, e vence o melhor tempo. A perseguição é o capítulo seguinte: os 60 primeiros do sprint largam com a mesma diferença que tiveram para o vencedor. Quem cruza a linha primeiro é campeão, não importa de onde largou. Pura emoção de televisão.

Individual: a prova mais antiga

É a herdeira direta de 1960. Quatro séries de tiro, alternando deitado e em pé, e o minuto de punição por erro. Por isso é a prova em que a pontaria pesa mais: um único tiro torto pode custar o pódio.

Largada em massa: só para os melhores

Na Copa do Mundo, os 30 atletas são os 25 primeiros do ranking geral mais os destaques da semana; nos Jogos e no Mundial a seleção é adaptada. Todo mundo larga junto, e o primeiro a cruzar a linha leva. Quando há dúvida, decide o photo finish, pela ponta do primeiro pé que cruza a linha.

Revezamentos e os três tiros extras

Nos revezamentos cada atleta tem três cartuchos de reserva por série, colocados à mão. Só depois de gastar esses três é que o erro vira volta de penalidade. Na Copa do Mundo e nos Jogos, quem leva uma volta do líder precisa sair da pista imediatamente.

Milão-Cortina 2026: quando o tiro decidiu tudo

Os Jogos de Inverno de 2026 tiveram 11 provas de biatlo, disputadas em Antholz (Anterselva), no Tirol do Sul, Itália, e mostraram por que esse esporte não tem favorito garantido.

A cena mais marcante, na nossa opinião, foi a largada em massa masculina de 20 de fevereiro. O norueguês Johannes Dale-Skjevdal foi o único dos 30 atletas a acertar os 20 alvos e venceu em 39min17s1, 10s5 à frente do compatriota Sturla Holm Lægreid. O francês Quentin Fillon Maillet, com quatro erros, ainda salvou o bronze graças às pernas. “Primeira vez na minha carreira que faço 20 de 20”, resumiu o campeão à IBU.

Fillon Maillet, aliás, foi o dono dos Jogos: quatro medalhas, três de ouro, incluindo a velocidade e o revezamento. Com isso chegou a nove medalhas olímpicas, cinco de ouro, e, segundo a IBU, tornou-se o segundo homem mais vitorioso da história do biatlo olímpico, atrás apenas do lendário Ole Einar Bjørndalen. No feminino, a francesa Julia Simon ganhou o individual e a italiana Lisa Vittozzi levou a perseguição, para festa da torcida da casa.

E o Brasil no biatlo?

Você sabia que o Brasil já teve biatleta olímpica? Foi Jaqueline Mourão, que já tinha passado pelo mountain bike (2004 e 2008) e pelo esqui cross-country (2006 e 2010). Em Sochi 2014, nos seus quintos Jogos, ela largou na velocidade de 7,5 km, a primeira participação do país no biatlo olímpico, e acertou 9 dos 10 alvos, de acordo com o Jornal do Brasil. Para quem cresceu longe da neve, um aproveitamento de dar orgulho.

Mas é no biatlo paralímpico que o Brasil tem hoje sua força. A modalidade, com distâncias de 6 a 12,5 km, tem classes para atletas sentados (no sit-ski), em pé e com deficiência visual. Segundo o Comitê Paralímpico Internacional, o tiro é feito a 10 metros, e os atletas cegos ou com baixa visão disparam um feixe de laser: o fuzil emite um som que fica mais agudo conforme a mira se aproxima do centro, e eles esquiam guiados por um acompanhante.

A cara do biatlo brasileiro é Aline Rocha. Paranaense, ela foi da cadeira de rodas do atletismo, na Rio 2016, para a neve: em dezembro daquele ano pisou na neve pela primeira vez, na Suécia. Foi a primeira brasileira em uma Paralimpíada de Inverno (PyeongChang 2018) e, em 2023, virou a primeira campeã mundial brasileira de esqui nórdico paralímpico, no sprint sentado de Östersund. Em Milão-Cortina 2026, no estádio de Tesero, terminou em 7º lugar na velocidade sentada com dois erros no tiro, o melhor resultado do país no biatlo naqueles Jogos. A mesma edição ainda viu Cristian Ribera conquistar a prata no sprint do esqui cross-country sentado, primeira medalha do Brasil na história dos Jogos Paralímpicos de Inverno.

Onde continuar aprendendo

Quem curtiu a parte do tiro pode aprofundar nas regras do tiro esportivo, e quem quer mais neve tem as regras do curling. A coleção completa está na nossa página de regras dos esportes.

Fontes: International Biathlon Union (IBU Event and Competition Rules 2026), International Paralympic Committee, Jornal do Brasil, Exame, Portal Tela.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.