Vem com a gente entender como se decide uma prova em que o campo de jogo é o mar, o rio ou o lago. A maratona aquática, também chamada de águas abertas, é uma prova de nado livre em percurso demarcado por boias, e vence quem completa todo o circuito e toca primeiro na placa de chegada. A distância olímpica é de 10 km, no masculino e no feminino, e o resto do regulamento da World Aquatics serve para manter a corrida justa, segura e, principalmente, legível para quem assiste.

Como funciona uma prova de maratona aquática

Todas as provas são de nado livre, e o atleta precisa completar o percurso inteiro, contornando cada boia de virada e respeitando os limites do circuito. Na prática, quase todo mundo nada o crawl, mas o regulamento não obriga um estilo específico dentro do livre.

A largada acontece com todos juntos. Nos Jogos Olímpicos, nos Mundiais e nas outras competições da World Aquatics, ela sai de uma plataforma fixa, onde cada atleta ocupa uma posição definida por sorteio. A voz de comando é "take your marks", e o sinal de partida é sonoro e visual.

Depois da largada começa a parte que diferencia a modalidade da piscina: não há raias. O pelotão se agrupa, os nadadores disputam espaço, pegam carona na esteira do rival e procuram a melhor linha entre as boias. Quem fica sozinho na frente gasta mais energia, e por isso a tática pesa tanto quanto o fôlego.

Distâncias e programas

O programa olímpico tem uma prova para cada gênero, os 10 km. Nos Mundiais da modalidade entram também os 5 km e o revezamento misto de 4×1500 m, e o 3 km knockout sprint pode ser incluído por acordo entre a World Aquatics e o comitê organizador. A idade mínima para competir em Jogos e Mundiais é de 14 anos completados até 31 de dezembro do ano da prova.

Prova Quem disputa Como é
10 km Masculino e feminino Única prova olímpica, em circuito fechado
5 km Masculino e feminino Presente no programa dos Mundiais
Revezamento misto 4×1500 m Duas mulheres e dois homens do mesmo país Cada atleta nada uma volta de 1,5 km
3 km knockout sprint Masculino e feminino Três fases de eliminação (1500 m, 1000 m e 500 m)

Revezamento misto

Todas as equipes largam ao mesmo tempo, e a ordem na plataforma sai de sorteio. Os quatro integrantes podem nadar em qualquer sequência, mas cada um nada uma única vez. A troca precisa de contato visível acima da água, entre o cotovelo e a mão, ou então do salto do próximo atleta na plataforma de revezamento, assim que o colega que chega toca nela.

Knockout sprint de 3 km

Cada federação inscreve no máximo dois homens e duas mulheres. Na primeira fase os atletas nadam 1500 m, os classificados da segunda fase nadam 1000 m, e a decisão tem 500 m. Os dez primeiros de cada bateria avançam para a fase seguinte.

O que pode e o que não pode na água

  • Equipamento: maiô ou sunga aprovados, óculos, no máximo duas toucas, prendedor de nariz e protetores de ouvido. Nenhum acessório que ajude a velocidade, a resistência ou a flutuação.
  • Apoio: o nadador não pode se apoiar em objeto fixo ou flutuante nem encostar de propósito no barco de apoio ou em quem está nele.
  • Contato: tocar de propósito outro competidor é infração.
  • Ritmo: é proibido ser puxado ou guiado por outra pessoa que entre na água.

As infrações seguem uma escada simples. Na primeira, o árbitro levanta uma bandeira amarela e um cartão com o número do atleta. Na segunda, vêm a bandeira vermelha e a desclassificação. Se o gesto for considerado antidesportivo, a eliminação é imediata e o nadador sai da água. Quando um atleta está em apuros, a assistência do médico oficial vale mais do que a regra do contato.

Temperatura da água e roupa de nado

A água deve ficar entre 16 e 31 graus. A medição é feita no dia da prova, duas horas antes da largada, em três pontos do percurso a 40 centímetros de profundidade, e vale a média das três leituras. A profundidade mínima em qualquer ponto do circuito é de 1,40 m.

A temperatura define o traje. Abaixo de 18 graus o neoprene é obrigatório. De 18 graus para cima ele não é permitido, e o maiô não pode cobrir o pescoço, passar do ombro nem descer abaixo do tornozelo. Em condições perigosas, o árbitro-chefe pode tornar o neoprene obrigatório até 20 graus, depois de ouvir os responsáveis por segurança e saúde.

Alimentação, barcos e plataformas

Nas provas longas, o atleta recebe comida e bebida de seu representante, que fica numa plataforma de alimentação ou num barco de apoio. A entrega é feita por vara de até 5 metros ou na mão, em recipiente biodegradável. Jogar o alimento de longe não vale. Nos eventos da World Aquatics, cada atleta usa as garrafas biodegradáveis oficiais, seis por nadador, distribuídas pelas federações.

O treinador pode passar orientações, mas apito é proibido. Nas provas com barco de apoio, cada embarcação leva um juiz de prova, uma pessoa da escolha do nadador e a tripulação mínima, e exibe o número do atleta e a bandeira do país. Para provas de 10 km ou menos, o regulamento dispensa um juiz por competidor.

Chegada, cronometragem e tempo limite

Cada nadador larga com um chip em cada pulso e precisa terminar com pelo menos um deles. Quem cruza a linha sem nenhum chip é desclassificado, e quem não toca a placa de chegada, quando ela existe, também. A placa tem pelo menos 5 metros de largura, e a chegada é filmada pelos lados e por cima.

A cronometragem automática prevalece sobre os árbitros e os cronometristas, e o tempo é registrado em décimos de segundo. Há ainda o sistema de revisão por vídeo, usado pelo árbitro-chefe como apoio nas decisões sobre infrações.

O tempo limite é contado a partir do primeiro colocado: 15 minutos a cada 5 km, até o máximo de 120 minutos. Em uma prova de 10 km, quem chega mais de meia hora depois do vencedor pode ser retirado da água. Se houver risco, o árbitro-chefe, junto com o responsável pela segurança, pode interromper a corrida.

O ouro de Ana Marcela e a regra do toque

A regra do toque na placa teve seu grande momento brasileiro em 4 de agosto de 2021, no Parque Marinho de Odaiba, em Tóquio. A baiana Ana Marcela Cunha largou cedo, às 6h30 no horário local, para fugir do calor, e chegou à reta final dos 10 km lado a lado com a holandesa Sharon van Rouwendaal. O desfecho veio no toque: a brasileira venceu por 0,7 segundo, de acordo com a World Aquatics, e conquistou o primeiro ouro olímpico da carreira, aos 29 anos. A história dela, de uma quinta posição aos 16 anos em Pequim 2008 até o topo do pódio em Tóquio, está contada em nossa página sobre Ana Marcela Cunha.

O Brasil já tinha subido ao pódio da prova em 2016, com o bronze de Poliana Okimoto no Rio de Janeiro. Na nossa opinião, a regra mais bonita da modalidade é a mais simples: ganha quem toca primeiro, depois de ler mar, vento e rival durante quase duas horas.

Perguntas rápidas

O nadador pode parar e ficar em pé no fundo?

Pode. Ficar em pé no fundo durante a prova não leva à desclassificação, mas o atleta não pode andar nem pular. Também é permitido usar essa pausa para se alimentar, desde que não haja apoio proibido.

Pode passar vaselina ou outra graxa no corpo?

Pode, desde que o árbitro-chefe não considere o uso excessivo. É uma prática comum para evitar assaduras em horas de nado.

Qual a diferença para a natação de piscina?

Na piscina mandam as raias, as viradas na parede e os estilos de cada prova, como explicamos nas regras da natação. Nas águas abertas não existem raias, o percurso é demarcado por boias, o estilo é o livre e a temperatura da água entra no regulamento.

Quiz: você conhece as regras da maratona aquática?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Qual é a distância da prova de maratona aquática nos Jogos Olímpicos?

O programa olímpico tem apenas os 10 km, no masculino e no feminino. Os 5 km aparecem nos Mundiais.

2. O que acontece com o nadador que recebe a segunda infração por violar as regras?

A primeira infração rende bandeira amarela e um cartão com o número do atleta. A segunda traz a bandeira vermelha e a desclassificação.

3. Em que condição o uso de traje de neoprene é obrigatório?

Abaixo de 18 graus o neoprene é obrigatório. De 18 graus para cima ele não é permitido, salvo exceção por condições perigosas.

4. Onde ficam os chips de cronometragem usados pelos nadadores?

Cada atleta larga com um transponder em cada pulso e precisa terminar com pelo menos um deles. Sem chip na chegada, há desclassificação.

5. Qual brasileira venceu os 10 km da maratona aquática nos Jogos de Tóquio?

Ana Marcela Cunha tocou na placa de chegada com menos de um segundo de vantagem sobre a holandesa Sharon van Rouwendaal.

Seus acertos:

Fontes: World Aquatics.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.