Ana Marcela Cunha é a baiana que levou o Brasil ao topo das águas abertas: campeã olímpica dos 10 km em Tóquio 2020, sete vezes campeã mundial e dona de 17 medalhas em Mundiais. Em 2026, com duas décadas de alto rendimento nas costas, ela ainda achou fôlego para cruzar o Canal da Mancha com recorde sul-americano, ganhar os Jogos Sul-Americanos com um tendão rompido e mirar Los Angeles 2028. Vem com a gente conhecer essa história.

Ana Marcela Cunha em números

Ano Competição Resultado
2008 Jogos Olímpicos de Pequim, 10 km 5º lugar
2011 Mundial de Xangai, 25 km Ouro
2013 Mundial de Barcelona Prata nos 10 km, bronze nos 5 km
2015 Mundial de Kazan Ouro nos 25 km, bronze nos 10 km e mais uma prata
2016 Jogos Olímpicos do Rio, 10 km 10º lugar
2017 Mundial de Budapeste Ouro nos 25 km, bronze nos 5 km e nos 10 km
2019 Mundial de Gwangju / Pan de Lima Ouro nos 5 km e nos 25 km / ouro nos 10 km
2021 Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, 10 km Ouro (1h59min30s8)
2022 Mundial de Budapeste Ouro nos 5 km e nos 25 km, bronze nos 10 km
2023 Pan de Santiago, 10 km Prata
2024 Mundial de Doha / Jogos de Paris Bronze nos 5 km / 4º lugar nos 10 km
2025 Mundial de Singapura, 10 km 6º lugar
2026 Canal da Mancha / Jogos Sul-Americanos de Santa Fé, 10 km 8h25min29s, recorde sul-americano / ouro

De Salvador para Santos: o começo da história

Ana Marcela de Jesus Soares da Cunha nasceu em Salvador em 23 de março de 1992, segundo o Comitê Olímpico do Brasil. Caiu na água cedo: começou a nadar com 2 anos. A virada veio na adolescência, quando trocou a Bahia pelo litoral paulista para defender a Unisanta, em Santos, clube que até hoje aparece nos agradecimentos dela.

Foi nos corredores da Unisanta que nasceu um sonho que levaria duas décadas para sair do papel. Recém-chegada e ainda adolescente, ela ouviu falar de Renata Agondi, nadadora do mesmo clube que morreu em 1988 tentando atravessar o Canal da Mancha. “Comecei a escutar muito sobre a história e, com mais ou menos um ano de casa, falei: quero fazer essa travessia”, contou à Forbes.

Pequim 2008: uma adolescente no parque de diversões

A maratona aquática estreou no programa olímpico em Pequim 2008, e o Brasil mandou uma menina de 1992 para a largada. Ana Marcela terminou em quinto, resultado enorme para quem mal entendia onde estava. Ela mesma resumiu a experiência ao Olimpíada Todo Dia, em 2026: “Eu tinha 16 anos, estava muito jovem, muito nova. Eu acho que cheguei dentro de uma Olimpíada ainda dentro de um parque de diversões, vendo os maiores ídolos ali na minha frente, não sabendo lidar ainda com as emoções.”

O que veio depois foi uma escalada no circuito internacional. Em 2010, ganhou a primeira medalha em Mundiais, e em 2011, em Xangai, conquistou o primeiro título mundial, nos 25 km.

Londres e Rio: as duas frustrações

O mesmo Mundial de Xangai que deu o ouro nos 25 km fechou a porta de Londres. A seletiva olímpica era a prova de 10 km, que classificava as dez primeiras, e Ana Marcela chegou em 11º. Ficou fora dos Jogos de 2012, uma das maiores frustrações da carreira.

No Rio 2016, em casa, a expectativa era de pódio. Não veio. Ana Marcela terminou em décimo, 56 segundos atrás das líderes, e a explicação virou uma das histórias mais amargas da natação brasileira: a alimentação da prova caiu na água e ela perdeu força. Pelo plano, deveria ter se alimentado três vezes, e conseguiu só uma. “Foi isso que fez a diferença para mim”, disse depois. Ainda em 2016, ela foi diagnosticada com uma doença autoimune que afeta as plaquetas, passou por uma cirurgia para retirar o baço e ficou quase dois meses fora das competições no início de 2017.

A rainha dos 25 km

Enquanto o pódio olímpico não vinha, Ana Marcela empilhava medalhas em Mundiais. Ouro nos 25 km em 2011, 2015 e 2017; dobradinha de ouros (5 km e 25 km) em Gwangju 2019 e repeteco em Budapeste 2022. No 25 km de Budapeste, aliás, a decisão foi de cinema: ela venceu em 5h24min15s, dois décimos à frente da alemã Lea Boy, com Sharon van Rouwendaal logo atrás. Era o pentacampeonato mundial na distância e o sétimo título mundial da carreira.

Em 2019, ela ainda ganhou o ouro nos 10 km do Pan de Lima, primeiro do Brasil na prova, segundo o COB. Depois vieram a prata em Santiago 2023 e o bronze nos 5 km do Mundial de Doha, em 2024, a 17ª medalha em Mundiais. “Desde 2010, eu venho conquistando medalhas em campeonatos Mundiais”, lembrou na época.

Tóquio 2020: oito anos de espera em 1h59

A Olimpíada adiada pela pandemia aconteceu em 2021, e a prova dos 10 km foi disputada na baía de Tóquio, no Odaiba Marine Park, na manhã de 4 de agosto no Japão (noite de 3 de agosto no Brasil). Com a água perto dos 29 °C, Ana Marcela nadou sempre no pelotão da frente e assumiu a ponta na parte final. Fechou em 1h59min30s8, apenas 0s9 à frente da holandesa Sharon van Rouwendaal, campeã no Rio. A australiana Kareena Lee levou o bronze.

A primeira frase ao SporTV dizia tudo: “Finalmente. Acho que, por mais nova que fui em 2008, foi minha primeira Olimpíada.” E completou com outra que virou marca daquela campanha: “Aprendi a ser feliz. Fui feliz fazendo o que eu amo e foi tudo bem”. Por trás do ouro, um trabalho de perfeccionista com o técnico Fernando Possenti, que media frequência de braçada no cronômetro.

Ombro operado e o quarto lugar no Sena

Depois da temporada dos sonhos de 2022, com dois ouros em Budapeste e o sexto título do circuito mundial, Ana Marcela passou em novembro daquele ano por uma cirurgia no ombro esquerdo, para tratar uma lesão no manguito rotador. Voltou a tempo do ciclo de Paris.

No Sena, em 8 de agosto de 2024, a briga foi até a última das seis voltas. A uma volta do fim, ela estava cerca de 30 segundos atrás do trio da frente, tirou seis e não alcançou. Terminou em quarto, em 2h04min15s, com o ouro para van Rouwendaal. “Eu acho que um quarto lugar é um abismo muito grande entre ter uma medalha”, desabafou ao COB, contando ainda que, no caminho até Paris, chegou a ligar para a família e para a psicóloga dizendo que queria parar de nadar. No Mundial de Singapura, em 2025, foi sexta nos 10 km e criticou o calor e a qualidade da água.

2026: Canal da Mancha, Santa Fé e o caminho até Los Angeles

Em 22 de julho de 2026, o sonho de adolescente virou realidade. Ana Marcela saiu de Dover, na Inglaterra, nas primeiras horas da manhã, e tocou a costa francesa perto de Calais depois de 8h25min29s, num percurso de 42,9 km, bem maior que os cerca de 33 km em linha reta por causa das correntes. Segundo o COB, a marca é o novo recorde sul-americano da travessia entre homens e mulheres, superando Adherbal de Oliveira (8h49min, em 2015) e Ana Mesquita (9h40min, em 1993). A Channel Swimming Association registrou o tempo oficial de 8h25.

A preparação incluiu um treino de 12 horas na Represa Billings, em São Paulo, com a água na casa dos 13 graus. “Nadei dez horas e meia no escuro”, contou à Forbes. Na chegada, a dúvida foi quase cômica: ela demorou a tirar os óculos com medo de invalidar a travessia. No barco, a esperavam a esposa e os pais.

Menos de dois meses depois, em 13 de setembro, ela venceu os 10 km dos Jogos Sul-Americanos de Santa Fé, na Argentina, em 1h56min58s, com Viviane Jungblut na prata: dobradinha que garantiu ao Brasil as duas vagas femininas no Pan de Lima 2027. O detalhe foi revelado pelo Olimpíada Todo Dia logo após a prova: ela nadou com um tendão do ombro direito rompido. A cirurgia foi feita no início de outubro, em São Paulo, com sucesso. “Como já operei o outro ombro, sei direitinho tudo o que tenho que fazer para voltar o mais rápido possível. Estarei ainda mais forte”, garantiu.

E a aposentadoria? Por enquanto, não antes de Los Angeles. Para a Forbes, citou um plano de despedida em Los Angeles 2028; em Santa Fé, foi além: “Eu acho que são 20 anos, acho que é o sexto ciclo olímpico, pode ser a minha quinta Olimpíada. E acho que a gente treina sempre pensando em medalha de ouro olímpica.” Torcedor de águas abertas, pode anotar: a baiana ainda não terminou de escrever essa história.

Onde Ana Marcela está entre os grandes do Brasil

Ouro olímpico, Pan, Mundiais e uma travessia histórica colocam Ana Marcela entre os melhores atletas brasileiros da atualidade. Se você curte esporte olímpico, confira também os maiores medalhistas brasileiros das Olimpíadas, a biografia de César Cielo, e tudo sobre maratona aquática aqui no site.

Quiz: você conhece a história de Ana Marcela Cunha?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Em que cidade Ana Marcela Cunha nasceu?

Ana Marcela nasceu em Salvador, na Bahia, em 1992, e se mudou para Santos para defender a Unisanta.

2. Qual foi a colocação de Ana Marcela nos 10 km de Pequim 2008, sua estreia olímpica?

Ainda adolescente, ela terminou em quinto lugar na primeira prova olímpica de maratona aquática da história.

3. Quem ficou com a prata nos 10 km de Tóquio, menos de um segundo atrás de Ana Marcela?

A holandesa Sharon van Rouwendaal, campeã no Rio, chegou em 1h59min31s7, 0s9 depois da brasileira.

4. Qual foi o resultado de Ana Marcela nos 10 km de Paris 2024, no Rio Sena?

Ela fechou em 2h04min15s, em quarto, e definiu a distância para o pódio como um abismo.

5. Em quanto tempo Ana Marcela atravessou o Canal da Mancha em julho de 2026?

O tempo de 8h25min29s virou o recorde sul-americano da travessia, entre homens e mulheres.

Seu placar:

Fontes: Comitê Olímpico do Brasil, Olimpíada Todo Dia, Forbes Brasil, Correio Braziliense, Channel Swimming Association, Folha Vitória, A Gazeta, Gazeta Esportiva, Diário do Nordeste, Jornal Grande Bahia, BBC Brasil, Associated Press, Diário de Pernambuco, SwimSwam, Ajinomoto.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.