Domingo, 18 de outubro de 2026, Estádio Banco Guayaquil, em Quito. O Palmeiras perdia para o Belgrano quando Brena Carolina deu um toque de calcanhar e Bia Zaneratto bateu. A bola explodiu na goleira argentina, voltou na própria camisa 10 e morreu na rede. Gol de quem vive na área. No segundo tempo, aos 7 minutos, Tainá Maranhão limpou a marcação pela direita, cruzou rasteiro e a Imperatriz só empurrou: 3 x 1, segunda vitória em dois jogos e vaga nas quartas de final da Libertadores Feminina com uma rodada de antecedência.

Quito, aliás, é endereço conhecido. Foi na capital equatoriana que Bia levantou, como capitã, a primeira Libertadores das Palestrinas, em 2022. Vem com a gente entender como a menina que jogava com os meninos no recreio em Araraquara virou uma das maiores artilheiras da história do Verdão e uma veterana da amarelinha.

Do recreio em Araraquara ao primeiro título continental

Beatriz Zaneratto João nasceu em 1993, em Araraquara, no interior de São Paulo. Segundo o perfil oficial do Palmeiras, ela começou a jogar com os meninos na hora do recreio. Aos 12 anos, se destacou num campeonato em Itapetininga e virou notícia. A fama trouxe preconceito: comentários homofóbicos e machistas fizeram a garota largar o futebol. Ela tentou o vôlei, mas a paixão falou mais alto e ela voltou para os campos.

A volta foi rápida e barulhenta. Com apenas 13 anos, foi convocada para a Seleção sub-17. Revelada pela Ferroviária em 2009, no ano seguinte já estava no Santos, onde conquistou a Copa Libertadores. Aos 17, ganhou a primeira chance na seleção principal, dividindo vestiário com lendas como Marta, Formiga e Cristiane. Antes de cruzar o mundo, ainda passou por Bangu e Vitória das Tabocas, de Pernambuco.

A Imperatriz nasceu na Coreia do Sul

Você sabia que o apelido mais famoso da atacante não foi criado no Brasil? Foi no Incheon Hyundai Steel Red Angels, da Coreia do Sul, que Bia ganhou o título de Imperatriz, pela facilidade para balançar as redes, segundo o Palmeiras. Foram sete temporadas por lá e sete títulos nacionais seguidos.

A decisão de ir tão longe tinha a ver com a família. Em entrevista ao Lance! durante a Rio 2016, ela contou que precisou sair de perto dos pais para conseguir ajudar em casa e que, jogando fora, deu uma casa para a avó, por quem tem um carinho enorme.

Naquela Olimpíada veio uma das noites mais bonitas da carreira. No Engenhão, com a torcida a favor, o Brasil goleou a Suécia por 5 x 1 e Bia fez o primeiro e o último gol. “O primeiro gol foi numa briga, parecia que a goleira já tinha pegado, mas eu consegui marcar”, contou ao Lance!. Na comemoração, procurou os pais na arquibancada: “apontei para eles, fiz coraçãozinho”. Depois da Coreia, ela ainda defendeu o Wuhan Xinjiyuan, da China, clube que detinha seus direitos quando o Palmeiras foi buscá-la.

Capitã, recordista e campeã no Palmeiras

A história com o Verdão começou com um empréstimo curto, anunciado em 12 de fevereiro de 2020. “Será uma honra defender o Palmeiras”, disse na chegada. Ela voltou em março de 2021, de novo emprestada pelo clube chinês, e naquele ano disputou a primeira fase do Campeonato Brasileiro pelo Verdão e saiu com os prêmios de artilheira e craque, além de faturar a Bola de Ouro e a Bola de Prata da ESPN.

Mas o ano que a torcida palmeirense não esquece é 2022. Em 28 de outubro, no Estádio Rodrigo Paz Delgado, em Quito, as Palestrinas venceram o Boca Juniors por 4 x 1 na final da Libertadores, campanha invicta na primeira participação do clube. Aos 90 minutos, Bia ganhou a disputa de duas zagueiras, deixou a goleira para trás e fechou a goleada. Com a faixa no braço, virou a primeira capitã palmeirense a levantar uma taça continental.

Naquela temporada ela também foi campeã paulista, marcou nas decisões das duas competições e terminou o ano com 22 gols em 37 jogos, o maior número de gols de uma palmeirense numa única temporada, superando os 21 de Nildinha em 1999, segundo o clube. Para quem acompanha a história alviverde, esse recorde é pura poesia.

Kansas City, o sonho olímpico interrompido e Paris

Em janeiro de 2024, o Kansas City Current, da NWSL, anunciou a contratação da brasileira. A estreia foi logo na inauguração do CPKC Stadium, a casa exclusiva do time feminino. “Foi contra o Portland [Thorns], um jogo bem emocionante. Terminou 5 a 4, e eu pude marcar”, lembrou à Máquina do Esporte. Impressionada com o centro de treinamento exclusivo, resumiu: “É uma estrutura que times masculinos da Série A [do Brasil] não têm”.

O golpe veio em junho daquele ano. Depois de meses jogando com dores de fascite plantar, Bia sofreu uma fratura por estresse no quarto metatarso e ficou fora dos Jogos de Paris 2024, onde o Brasil ficaria com a prata, depois de perder a final para os Estados Unidos por 1 x 0. “Me superei durante esses meses pra conseguir jogar e ter a chance de estar em mais uma Olimpíada”, escreveu, segundo a CNN Brasil. As lesões também a tiraram de uma Copa América, como lembrou a CBF.

Uma veterana da amarelinha

Poucas jogadoras têm um currículo tão longo com a Seleção. Bia disputou os Mundiais sub-17 de 2008 e 2010, o sub-20 de 2012, quatro Copas do Mundo principais (2011, 2015, 2019 e 2023), os Jogos Olímpicos de 2016 e 2020 e foi bicampeã da Copa América em 2018 e 2022. Segundo o Palmeiras, foi a primeira palestrina a marcar em Olimpíadas e em Copa América.

Quando voltou a ser convocada por Arthur Elias, em outubro de 2025, a CBF contabilizava 124 jogos e 43 gols dela pela equipe principal. E a Imperatriz seguiu marcando: fez o gol da virada sobre os Estados Unidos (2 x 1) em 6 de junho de 2026, na Neo Química Arena, e abriu o placar de cabeça no 2 x 2 com a Argentina na Arena de Pernambuco, em 13 de outubro. Com a Copa do Mundo de 2027 no Brasil no horizonte, ela não esconde: “a gente sonha muito com esse título mundial e sendo no Brasil não tem como ser mais especial”.

A volta para casa e a camisa 10

Em 7 de janeiro de 2026, depois de duas temporadas nos Estados Unidos, o Palmeiras confirmou a quarta passagem da atacante, agora com a camisa 10. “É bom demais poder voltar para casa”, disse. Ela tinha assistido, da arquibancada, ao primeiro título nacional da história das Palestrinas, a Copa do Brasil Feminina de 2025, e ouviu as ex-companheiras pedindo a sua volta.

A nossa opinião: poucas contratações fizeram tanto sentido. O site do Palmeiras registrava, em 20 de outubro de 2026, 112 jogos e 68 gols de Bia pelo clube, 14 deles nesta temporada. Na história do futebol feminino no Brasil, poucas atacantes juntaram tanto faro de gol e tanta identificação com uma torcida. O próximo passo é na quarta-feira, 21 de outubro, contra o Dragonas IDV, ainda em Quito, para fechar a fase de grupos.

A carreira de Bia Zaneratto em resumo

Período Clube ou seleção Destaque
2009 e 2010 Ferroviária e Santos Revelada pela Ferroviária, campeã da Libertadores pelo Santos em 2010
Sete temporadas Incheon Hyundai Steel Red Angels (Coreia do Sul) Sete títulos nacionais e o apelido de Imperatriz
Até 2022, com idas e vindas Wuhan Xinjiyuan (China) Clube dono dos direitos quando chegou ao Palmeiras
2020 a 2023 Palmeiras Capitã na temporada 2022, campeã da Libertadores e do Paulista, recorde de 22 gols numa temporada
2024 e 2025 Kansas City Current (EUA) Gol na inauguração do CPKC Stadium
Desde 2026 Palmeiras Camisa 10, dois gols no 3 x 1 sobre o Belgrano
Desde 2011 em Copas do Mundo Seleção principal Quatro Copas do Mundo, duas Olimpíadas, bicampeã da Copa América

Quiz: você conhece a história da Imperatriz?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Onde Bia Zaneratto ganhou o apelido de Imperatriz?

Foi na Coreia do Sul, no Incheon Hyundai Steel Red Angels, pela facilidade para balançar as redes. Por lá foram sete títulos nacionais seguidos.

2. Que esporte Bia tentou quando largou o futebol na infância, depois de sofrer preconceito?

Depois de virar notícia num campeonato em Itapetininga, aos 12 anos, ela ouviu comentários homofóbicos e machistas, foi tentar o vôlei e logo voltou para os campos.

3. Contra quem Bia fez o primeiro e o último gol de uma goleada por 5 x 1 no Engenhão, na Rio 2016?

Foi a Suécia. Depois do primeiro gol, ela apontou para os pais na arquibancada e fez coraçãozinho.

4. Em que cidade Bia levantou a Libertadores de 2022 como capitã, a mesma onde fez dois gols no 3 x 1 sobre o Belgrano em 2026?

Quito, no Equador. Em 2022, ela fechou o 4 x 1 sobre o Boca Juniors aos 90 minutos e virou a primeira capitã palmeirense a erguer uma taça continental.

5. Por que Bia Zaneratto ficou fora dos Jogos de Paris 2024?

Depois de meses jogando com dores de fascite plantar, ela sofreu uma fratura por estresse no quarto metatarso, no fim de junho de 2024, defendendo o Kansas City Current.

Seus acertos:

Fontes: Gazeta Esportiva, Palmeiras, CBF, Lance!, CNN Brasil, Máquina do Esporte, KSHB, Diário do Nordeste, O Povo.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.