Três medalhas olímpicas em três Jogos seguidos, três títulos mundiais e uma lista de cirurgias que faria muita gente largar o tatame bem antes. Todas essas marcas pertencem a uma única gaúcha: Mayra Aguiar! Nascida em Porto Alegre em 1991, ela virou referência do judô brasileiro nos 78 kg e, para muita gente, o maior exemplo de teimosia (no bom sentido) que o esporte olímpico do país já produziu. Vem com a gente relembrar essa trajetória, luta por luta.

De Porto Alegre para a seleção aos 14 anos

Mayra começou cedo e, aos 11 anos, já estava na Sogipa, a Sociedade de Ginástica Porto Alegre, clube que defendeu durante praticamente toda a carreira. A capital gaúcha, aliás, tem tradição no judô: é a mesma cidade de João Derly, outro nome forte do judô brasileiro. Aos 14 anos, Mayra estreou na seleção brasileira júnior, e aos 15 ganhou o bronze no Mundial Júnior de 2006.

A primeira grande vitrine veio em casa. No Pan do Rio, em 2007, a adolescente gaúcha subiu ao pódio com a prata nos 70 kg, antes mesmo de ter a faixa preta, segundo o Comitê Olímpico do Brasil. No ano seguinte, aos 17 anos, estreou em Olimpíadas em Pequim 2008, ainda nos 70 kg, e caiu na primeira luta. Depois ela subiria para os 78 kg, categoria em que fez história.

Três bronzes olímpicos em sequência

Londres 2012: o primeiro pódio

Em Londres, Mayra conquistou seu primeiro bronze olímpico. No caminho, cruzou com a norte-americana Kayla Harrison, que a derrotou naqueles Jogos. A rivalidade entre as duas marcaria os anos seguintes.

Rio 2016: 20 minutos para se levantar

Você sabia que o bronze do Rio veio pouco depois de uma derrota dura? Cabeça de chave número 3, Mayra passou pela australiana Miranda Giambelli em 39 segundos e depois pela alemã Luise Malzahn. Na semifinal, perdeu para a francesa Audrey Tcheumeo por punições. Cerca de 20 minutos depois, voltou ao tatame e venceu a cubana Yalennis Castillo, prata em Pequim 2008, para garantir a segunda medalha do judô brasileiro naqueles Jogos, que já tinham o ouro de Rafaela Silva. Segundo a Olimpíada Todo Dia, ela se tornou ali a primeira brasileira a repetir medalha olímpica em prova individual.

Tóquio 2020: a volta depois da sétima cirurgia

Tóquio foi o capítulo mais improvável. Em 2020, Mayra machucou o joelho e passou pela sétima cirurgia da carreira. Entre a operação e a pandemia, ficou 16 meses sem competir e só voltou no Mundial de Budapeste, em 2021, onde somou os pontos que a colocaram como cabeça de chave nos Jogos.

No Nippon Budokan, perdeu nas quartas de final para a alemã Anna-Maria Wagner, então campeã mundial, com um waza-ari sofrido após 3min47s de golden score. Foi para a repescagem e, na disputa do bronze, imobilizou a sul-coreana Yoon Hyun-ji. Com isso, virou a primeira judoca brasileira com três pódios olímpicos e igualou a ex-levantadora Fofão, até então a única brasileira com medalhas em três edições diferentes dos Jogos, de acordo com a Folhapress.

A única brasileira tricampeã mundial

Se nas Olimpíadas o bronze virou marca registrada, nos Mundiais Mayra chegou ao topo três vezes. Em 2014, em Tcheliabinsk, na Rússia, ela teve a revanche que esperava: venceu Kayla Harrison na semifinal com domínio total e, na final, derrubou Audrey Tcheumeo com um waza-ari a pouco mais de dois minutos do fim. Depois foi só segurar o relógio para comemorar o primeiro ouro mundial.

Em Budapeste, em 1º de setembro de 2017, a final contra a japonesa Mami Umeki, campeã de 2015, foi para o golden score, e Mayra resolveu com um waza-ari. Virou a primeira brasileira bicampeã mundial.

O tri veio em Tashkent, no Uzbequistão, em 11 de outubro de 2022, aos 31 anos e como número 6 do mundo. A campanha foi pesada: Petrunjela Pavic, da Croácia, nas punições; ippon na cazaque Aruna Jangeldina; ippon na japonesa Saori Hamada, então campeã olímpica; waza-ari na alemã Alina Böhm, campeã europeia. Na final, um waza-ari tão limpo sobre a chinesa Zhenzhao Ma que Mayra achou que fosse ippon, segundo o Estadão. Ela segurou a vantagem até o fim e se tornou a primeira brasileira tricampeã mundial de judô. Foi a sétima medalha individual dela em Mundiais.

Competição Resultado
Pan do Rio 2007 Prata (70 kg)
Jogos de Londres 2012 Bronze (78 kg)
Mundial de Tcheliabinsk 2014 Ouro
Jogos do Rio 2016 Bronze (78 kg)
Mundial de Budapeste 2017 Ouro
Pan de Lima 2019 Ouro
Jogos de Tóquio 2020 Bronze (78 kg)
Mundial de Tashkent 2022 Ouro (78 kg)
Grand Slam de Tóquio 2023 Ouro, último título no Circuito Mundial

Paris 2024: a última luta olímpica

Mayra chegou a Paris com pouca rodagem no ciclo e, por isso, sem ser cabeça de chave. O sorteio foi cruel: logo na estreia, em 1º de agosto de 2024, a italiana Alice Bellandi, vice-campeã mundial. A luta foi para o golden score, um waza-ari da italiana chegou a ser anulado, mas aos 2min11s do tempo extra Bellandi encaixou o golpe decisivo. A italiana seria campeã olímpica dias depois.

Emocionada, Mayra resumiu a carreira numa frase à TV Globo: “O judô me ensinou muito a vida inteira. Queda, levanta, cai, levanta, cai.” Ela não participou da campanha do bronze por equipes mistas do Brasil.

A despedida e o que veio depois

Em 26 de dezembro de 2024, aos 33 anos, Mayra anunciou a aposentadoria pelo Instagram. “Fui até onde meu corpo permitiu e, mesmo quando ele não permitia mais, forcei ainda mais alguns anos”, escreveu, se definindo como teimosa. Também disse que ia “descansar um pouco e pensar no futuro”. Ao longo da carreira, foram oito cirurgias, a maior parte delas nos joelhos.

Em abril de 2025, o Conselho Deliberativo da Sogipa homenageou a atleta pela trajetória de mais de 20 anos no judô. Desde a despedida, Mayra não voltou a competir, e até outubro de 2026 não houve anúncio público de um novo cargo dela no judô.

Na nossa opinião, o bronze de Tóquio resume Mayra melhor do que qualquer ouro: 16 meses parada, joelho operado de novo e, mesmo assim, pódio no berço do judô. Os números colocam a gaúcha entre os maiores nomes da modalidade no país, ao lado dos nomes da nossa lista de medalhistas olímpicos do judô brasileiro. E se você quer entender o waza-ari, o golden score e as punições que decidiram tantas lutas dela, vale conferir as regras do judô.

Quiz: você conhece a trajetória de Mayra Aguiar?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Em qual cidade Mayra Aguiar conquistou seu primeiro título mundial, em 2014?

Foi em Tcheliabinsk, na Rússia, em 2014, com vitória sobre a francesa Audrey Tcheumeo na final. Na semi, ela tinha derrotado Kayla Harrison.

2. Quem Mayra venceu na final do Mundial de Budapeste, em 2017?

A japonesa Mami Umeki, campeã mundial de 2015. A luta foi para o golden score e Mayra decidiu com um waza-ari.

3. Em quais Jogos Olímpicos Mayra Aguiar ganhou suas três medalhas de bronze?

Três bronzes em três edições seguidas: Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2020. Em Pequim 2008 ela tinha 17 anos e ainda lutava nos 70 kg.

4. Em que clube de Porto Alegre Mayra treinou desde os 11 anos?

A Sociedade de Ginástica Porto Alegre, a Sogipa, foi a casa de Mayra desde os 11 anos. O clube a homenageou em abril de 2025.

5. Contra quem Mayra perdeu na estreia em Paris 2024?

A italiana Alice Bellandi venceu no golden score e depois foi campeã olímpica. Foi a última luta olímpica de Mayra.

Seus acertos:

Fontes: Agência Brasil, Olimpíada Todo Dia, Estadão, Folhapress, Comitê Olímpico do Brasil, Sogipa, Correio Braziliense, Jornal de Brasília, Band, Forbes Brasil, JudoInside, Federação Internacional de Judô (IJF), O Povo.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.