Ela queria chutar. Literalmente. Foi assim, de um jeito quase cômico, que começou a história de Maria Clara Pacheco, a menina de São Vicente, no litoral paulista, que hoje é campeã mundial, líder do ranking da categoria até 57 kg e chega ao fim de outubro de 2026 sem ter perdido uma única luta na temporada. No sábado, 10 de outubro, ela ganhou o Grand Prix de Paris, o terceiro seguido do circuito, e transformou a cidade onde chorou uma eliminação olímpica em palco de festa. Vem com a gente entender como essa trajetória foi construída.

Da capoeira ao tatame, por causa de uma série na TV

Antes do taekwondo, Maria Clara passou por capoeira, jazz e balé. Ela mesma se define, em entrevista ao Lance!, como uma criança “um pouco hiperativa”, que precisava gastar energia. A virada veio na frente da televisão: assistindo a uma série no canal Disney XD, ela se encantou com as cenas de luta e foi direto falar com a mãe. “Eu falei: mãe, eu quero fazer isso aí. Quero chutar a cabeça dos outros”, contou, rindo, no OTD Entrevista, do Olimpíada Todo Dia.

A cena seguinte parece roteiro de filme. A mãe lembrou que costumava ver gente de kimono perto de um mercado. As duas foram até lá, comeram um pastel em frente e ficaram esperando o grupo passar. Quando os atletas apareceram, seguiram atrás até a academia. Maria Clara achava que ia encontrar uma aula de karatê. Era taekwondo. Topou a aula experimental mesmo assim, gostou, passou a treinar duas vezes por semana e, pouco depois, todos os dias.

No primeiro exame de faixa, chamou atenção pela flexibilidade e pela qualidade dos chutes, e logo veio o convite para competir. “Eu gostei muito. Aí eu saí do jazz, saí do balé, saí da capoeira, larguei tudo e fui para Santos”, relembrou. Segundo o Metrópoles, a troca definitiva para o taekwondo aconteceu em 2014. Se você quer entender o que ela faz no tatame, vale conhecer os golpes do taekwondo e como são executados.

O “tiro no escuro” que virou medalha mundial

A primeira competição internacional da carreira já foi um Mundial: o de cadetes de 2017. Ao Lance!, ela descreveu aquela viagem como um “tiro no escuro”, porque nem sabia direito o que era um campeonato mundial. Voltou com o bronze. Segundo a própria atleta, foi ali que a ficha caiu de que o esporte poderia virar profissão. Dali ela subiu para o juvenil, entrou na seleção e, em 2019, foi campeã pan-americana júnior em Cali, na Colômbia, de acordo com o Comitê Olímpico do Brasil (COB).

A transição dura para o adulto

Nem tudo foi fácil. No OTD Entrevista, Maria Clara contou que a passagem para o adulto teve derrotas, dificuldade para bater o peso e até a vontade de parar. A virada veio quando assumiu de vez a categoria até 57 kg: em cinco competições, quatro medalhas. Em outro trecho da conversa, ela relembra o período em que treinava numa igreja, uma estrutura improvisada que marcou essa fase de aperto.

Em 2023, a nova Maria Clara apareceu para o mundo. No Mundial de Baku, no Azerbaijão, ganhou o bronze com uma campanha de nervos: contra a canadense Skylar Park, então número 3 do mundo, levou um chute na cabeça a segundos do fim que daria a virada à rival, mas a arbitragem revisou o lance e anulou o ponto, conforme o relato do Olimpíada Todo Dia. Ela só parou na semifinal, diante da húngara Luana Marton, em três rounds. No mesmo ano, foi prata nos Jogos Pan-Americanos de Santiago.

Paris 2024: a noite que mudou tudo

Nos Jogos de Paris, Maria Clara estreou com vitória sobre a australiana Stacey Hymer, sem tomar pontos. Nas quartas, encarou a chinesa Luo Zongshi, então líder do ranking e 12 centímetros mais alta, segundo O Liberal. A brasileira venceu o primeiro round por 1 a 0, perdeu o segundo por 3 a 2 e viu a chinesa acertar dois chutes na cabeça no terceiro. Ainda havia a esperança da repescagem, mas ela dependia de uma vitória de Luo na semifinal, e a chinesa caiu diante da sul-coreana Kim Yu-jin. Fim da linha, sem disputa de medalha.

A resposta veio fora do tatame. De acordo com o COB, ela trocou de treinadores e preparadores físicos e passou a disputar mais torneios de alto nível e camps internacionais. Hoje, o técnico dela é José Carlos Figueiredo Coelho Junior, que, como ela contou ao Olimpíada Todo Dia, também é seu namorado. A equipe nova começou a trabalhar junta só no fim de 2024.

2025: o ano em que o Brasil voltou ao topo

A temporada pós-olímpica foi um atropelo. Em junho, na etapa de Charlotte, nos Estados Unidos, Maria Clara reencontrou Luo Zongshi na final e venceu por 2 a 0, com parciais de 17 a 0 e 12 a 0, segundo o COB. Revanche servida.

Por trás daquela medalha havia um drama que ela só revelou em dezembro, no Prêmio Brasil Olímpico, onde foi eleita a melhor atleta do ano. No discurso, contou que a mãe foi internada em estado grave no dia em que ela embarcaria para os Estados Unidos. Passou noites no hospital, treinou de manhã e, antes de viajar, ouviu da mãe um único pedido: “Clara, eu só quero a medalha de ouro”. A mãe melhorou, e a medalha virou tradição para o resto do ano.

Vieram o título do Grand Prix de Muju, na Coreia do Sul, o ouro inédito do Brasil no taekwondo dos Jogos Mundiais Universitários, em Essen, e, enfim, o Mundial de Wuxi, na China. Em 24 de outubro de 2025, a brasileira fez cinco lutas e venceu as cinco. Na semifinal, despachou justamente Luo Zongshi por 2 a 0. Na final, bateu a campeã olímpica Kim Yu-jin, também por 2 a 0. “É uma emoção que eu não consigo explicar, é a primeira vez que eu ganho um título tão importante”, disse logo depois da final, segundo a Agência Brasil. Foi o segundo título mundial do Brasil na história da modalidade, 20 anos depois de Natália Falavigna, em 2005. A história do taekwondo brasileiro ganhava um novo capítulo.

Cirurgia, volta e uma temporada sem derrotas

O começo de 2026 assustou. Segundo a Agência Brasil, Maria Clara passou por uma cirurgia no quadril em fevereiro. Em maio, a Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD) decidiu poupá-la do Campeonato Pan-Americano, no Rio, para priorizar o Grand Prix de Roma, primeiro evento válido para o ranking olímpico rumo a Los Angeles 2028.

A decisão se pagou. Em Roma, em junho, ela não perdeu nenhum round até a final e, na decisão, venceu de novo Kim Yu-jin, com parciais de 6 a 2 e 14 a 2, de acordo com o Olimpíada Todo Dia. Depois vieram a President’s Cup, o Grand Prix de Muju, em setembro, sem ceder rounds e outra vez com vitória sobre Kim Yu-jin na final, o ouro nos Jogos Sul-Americanos de Santa Fé, na Argentina, e o Aberto do Brasil, em Londrina. Sobre o título sul-americano, ela revelou um hábito curioso: “Eu tenho um bloco de notas com várias competições que eu quero dar check e ganhar medalhas em todas elas”.

Paris, de novo: o que o ouro de outubro muda

O Grand Prix de Paris tinha um sabor especial. Na final, estava a jordaniana Fadia Khirfan, número 2 do mundo e responsável pela última derrota da brasileira, nas quartas do Grand Prix de Bangkok, em novembro de 2025, a única competição desde Paris em que ela ficou fora do pódio. Desta vez, não teve conversa: Maria Clara forçou punições da rival, acertou um chute na cabeça, abriu 5 a 0 e fechou o primeiro round em 5 a 2. No segundo, abriu 6 a 0 e administrou até o 6 a 4. Antes disso, já tinha passado pela francesa Kanelya Carabin, pela iraniana Nahid Kiyanichandeh, prata em Paris 2024, e pela cazaque Mariya Sevostyanova, sem perder um round sequer no torneio.

Na mesma etapa, Henrique Marques virou na final e também foi ouro em Paris, num fim de semana dourado para o Brasil.

Segundo o Olimpíada Todo Dia, foi o sexto título dela em 2026, com 23 vitórias em 23 lutas no ano. Na prática, a brasileira deixa de ser “a promessa” e passa a ser a referência da categoria: já derrotou a campeã olímpica Kim Yu-jin em finais de Mundial e de Grand Prix e devolveu as derrotas para Luo e Khirfan. A próxima parada é a etapa final do circuito, em Astana, no Cazaquistão, em novembro, com a chance de fechar o ano com todos os Grand Prix da temporada.

Na nossa opinião de torcedor, poucas atletas brasileiras chegam a dois anos de uma Olimpíada com tanto controle sobre a própria categoria. Perguntada pelo Olimpíada Todo Dia se já se imagina campeã olímpica, Maria Clara respondeu sem hesitar: “Todo dia”. Por aqui, a gente também.

Quiz: você conhece a história de Maria Clara Pacheco?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Que modalidade Maria Clara Pacheco achava que ia aprender quando chegou à academia pela primeira vez?

Ela queria karatê, inspirada por uma série da Disney XD, mas a academia era de taekwondo. Topou a aula experimental e nunca mais saiu.

2. Quem eliminou Maria Clara nas quartas de final dos Jogos de Paris 2024?

Foi a chinesa Luo Zongshi, então líder do ranking, por 2 rounds a 1. A brasileira se vingou na final de Charlotte e na semifinal do Mundial de 2025.

3. Antes de Maria Clara, quem era a única brasileira campeã mundial de taekwondo?

Natália Falavigna foi campeã mundial em 2005. Maria Clara encerrou o jejum de 20 anos em Wuxi, em 2025.

4. Em que cidade Maria Clara Pacheco conquistou o título mundial, em outubro de 2025?

O título veio em Wuxi, na China, com vitória sobre a campeã olímpica Kim Yu-jin na final. Em Baku, em 2023, ela tinha sido bronze.

5. Quem Maria Clara derrotou na final do Grand Prix de Paris, em 10 de outubro de 2026?

Foi a jordaniana Fadia Khirfan, por 2 a 0 (5 a 2 e 6 a 4). Era a revanche da derrota nas quartas do Grand Prix de Bangkok, em 2025.

Seus acertos:

Fontes: Olimpíada Todo Dia, Agência Brasil, Comitê Olímpico do Brasil (COB), Lance!, Metrópoles, O Liberal, O Povo, Rádio Itatiaia, Diário do Grande ABC.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.