Vanderlei Cordeiro de Lima é o único brasileiro com medalha olímpica na maratona e o homem que ganhou, no gesto, uma honraria que nenhum outro compatriota tem: a Medalha Pierre de Coubertin, entregue pelo Comitê Olímpico Internacional pelo espírito esportivo. Em 29 de agosto de 2004, em Atenas, ele liderava a prova mais dura do atletismo quando foi agarrado por um ex-padre irlandês no quilômetro 36. Terminou em terceiro e entrou para a história pela forma como reagiu.

A história de Vanderlei, porém, não cabe em uma cena só. Ela começa na lavoura do interior do Paraná, passa por Tóquio, por Winnipeg e Santo Domingo, e termina, de um jeito que ninguém previa, com uma tocha na mão diante do Maracanã lotado.

Resumo da carreira em uma olhada

Item Dado
Nome completo Vanderlei Cordeiro de Lima
Origem Nascido em Cruzeiro do Oeste e criado em Tapira, no Paraná
Prova Maratona (42,195 km)
Pan-Americanos Ouro em Winnipeg (1999) e em Santo Domingo (2003)
Melhor marca 2h08min31s, em Tóquio, em 1998
Olimpíadas Bronze em Atenas 2004, com 2h12min11s
Honraria Medalha Pierre de Coubertin, do Comitê Olímpico Internacional
Rio 2016 Acendeu a pira olímpica na cerimônia de abertura

Do canavial ao asfalto

Vanderlei nasceu em Cruzeiro do Oeste, no noroeste do Paraná, e cresceu em Tapira. A vida era simples e o trabalho começava cedo: ele cortava cana como boia-fria para ajudar em casa. Antes de correr, jogou bola, como quase todo menino brasileiro daquele tempo, e chegou a atuar como jogador de futebol.

A virada veio pela televisão. Em 1984, Joaquim Cruz conquistou o ouro nos 800 metros em Los Angeles, e o rapaz do Paraná entendeu que corredor brasileiro podia subir no lugar mais alto do pódio. Em 1985, ele começou a competir. Anos depois, já emocionado numa homenagem, resumiria o início assim: não tinha nada quando começou, mas a vontade de vencer na vida era muito grande.

Depois de uma passagem por Maringá, foi para São Paulo defender a equipe da Funilense. Era o caminho clássico do atleta brasileiro dos anos 1990: pouco dinheiro, muita quilometragem e a esperança de que um bom resultado abrisse uma porta. Vanderlei abriu várias.

A estrada até Atenas

Na maratona, ele foi construindo um currículo que pouca gente fora do meio conhecia. Venceu a Volta Internacional da Pampulha, em Belo Horizonte, em 1999 e em 2002. Subiu ao ponto mais alto do pódio nos Jogos Pan-Americanos duas vezes seguidas, em Winnipeg e em Santo Domingo. Em 1998, em Tóquio, correu em 2h08min31s, sua melhor marca, um tempo de gente grande em qualquer lugar do mundo.

Também levou pancada. Nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, uma lesão o impediu de brigar pelas dez primeiras posições. Em 2002, venceu a maratona internacional de São Paulo, e em 2004, pouco antes dos Jogos, ganhou a de Hamburgo. Chegou a Atenas como um corredor maduro, experiente, que sabia sofrer.

E o plano para a prova era atrevido. Vanderlei saiu do meio do pelotão, avançou posições e chegou à ponta antes mesmo dos 10 km. Em certo momento da corrida, sua vantagem sobre o grupo perseguidor passou de um minuto.

O quilômetro 36

Agora imagine a cena. É 29 de agosto de 2004, o último dia da programação do atletismo, e o Brasil tem um homem na frente de uma maratona olímpica. No quilômetro 35, a vantagem de Vanderlei já havia caído para cerca de 30 segundos sobre o grupo de Stefano Baldini, Meb Keflezighi e Paul Tergat. Ainda era uma vantagem boa para quem tinha mais sete quilômetros pela frente.

Foi quando um homem saiu da multidão, invadiu a pista e o empurrou para fora do percurso, para dentro do público. O agressor era o ex-padre irlandês Neil Horan, o mesmo que dois anos antes havia invadido a pista do Grande Prêmio da Inglaterra de Fórmula 1, vestido com roupas tradicionais irlandesas. Em Atenas, ele entrou no meio da maior prova da vida de Vanderlei.

Quem ajudou foi um torcedor grego chamado Polyvios Kossivas. Ele correu, afastou o invasor e devolveu Vanderlei ao asfalto. O treinador do brasileiro, Ricardo D’Angelo, falou em uma vantagem de 25 segundos, algo como 250 metros, antes do incidente. As contas variam conforme a fonte, mas o consenso é que o episódio custou cerca de 20 segundos. Com o ritmo quebrado e as pernas esfriando, Vanderlei voltou a correr, tentando segurar o que restava.

O que veio depois é o que torna a história tão humana: ele voltou à pista e seguiu em frente.

O pódio e o sorriso

Baldini e Keflezighi vinham cerca de 100 metros atrás e disseram depois que nem viram o que aconteceu. Foram se aproximando, e os dois passaram o brasileiro nos quilômetros finais. Baldini, da Itália, venceu em 2h10min55s. Keflezighi, dos Estados Unidos, ficou com a prata em 2h11min29s. Vanderlei cruzou a linha em 2h12min11s: bronze, a 1min16s do ouro e 42 segundos da prata.

A conduta dele depois do episódio o transformou em símbolo de esportividade.

Pouco tempo depois, o Comitê Olímpico Internacional lhe concedeu a Medalha Pierre de Coubertin, que reconhece atitudes de espírito esportivo. Ele continua sendo o único brasileiro a receber a honraria.

No fim de 2004, o Comitê Olímpico do Brasil convidou o grego Polyvios Kossivas para vir ao Rio de Janeiro, onde ele foi homenageado no Prêmio Brasil Olímpico e entregou seu troféu a Vanderlei, no reencontro com o brasileiro. Kossivas morreu em 2023, aos 71 anos, e o COB lamentou a perda de quem, com um gesto de segundos, entrou para a história do esporte brasileiro.

A medalha de ouro que veio em 2016

Vanderlei seguiu sendo referência no atletismo, mas a segunda grande cena pública de sua vida só aconteceu doze anos depois. Na abertura dos Jogos do Rio de Janeiro, em agosto de 2016, o Maracanã esperava o último condutor da tocha. O nome inicialmente anunciado era o de Pelé, que desistiu por problemas de saúde. Vanderlei foi escolhido de última hora, e foi ele quem acendeu a pira.

Horas depois, por volta de 1h30 da madrugada, parou num posto de gasolina perto do Maracanã e deu uma entrevista improvisada, que virou assunto. Disse que acender a pira foi como receber a medalha de ouro que perdeu em Atenas. A frase dele foi direta: “Hoje eu recebi a minha medalha de ouro”. Contou ainda que era a primeira vez que participava de uma cerimônia de abertura, já que a maratona costuma ser a última prova do programa, e falou do esporte como exemplo, mais do que como troféu.

Nem todo mundo recebeu o momento com carinho. Horan, ouvido pela imprensa, disse que ficou com raiva ao ver a cena. O episódio mostra que, quase doze anos depois, o assunto ainda mexia com os personagens.

Legado: o que Vanderlei deixou

O legado de Vanderlei tem três camadas. A esportiva é a de um maratonista que, em uma geração sem muita estrutura, brigou de igual para igual com os melhores do mundo, bateu marcas sul-americanas e foi duas vezes campeão pan-americano. A simbólica é a da pessoa que, sob uma injustiça, escolheu a elegância. E a social aparece no Instituto Vanderlei Cordeiro, criado em 2008 em Campinas para formar crianças e jovens pelo esporte.

Em 28 de agosto de 2014, na véspera dos dez anos do bronze, ele recebeu uma placa em homenagem da BM&FBOVESPA, patrocinadora da equipe da qual é padrinho, e chorou ao falar. Prometeu, brincando, não chorar mais em entrevistas. Quem acompanha a carreira dele sabe que essa promessa é difícil de cumprir.

Em maio de 2026, ele esteve na Maratona de Belo Horizonte, liderou o pelotão de uma corrida de 5 km na noite de abertura e participou de uma conversa aberta com o público sobre sua trajetória. Disse que a cidade faz parte da sua história e da sua vida, e é fácil entender: foi lá que venceu a Pampulha duas vezes.

Se você quer entender o atletismo brasileiro por outros olhares, vale conhecer também a trajetória de Adhemar Ferreira da Silva e de Maurren Maggi, dois ouros olímpicos que mudaram a régua do esporte no país. E, se a rua é o seu terreno, a história da Corrida de São Silvestre mostra como o Brasil aprendeu a amar uma prova de fundo. Para comparar marcas, confira também os recordes brasileiros no atletismo.

Perguntas frequentes sobre Vanderlei Cordeiro de Lima

O que é a Medalha Pierre de Coubertin?

É uma honraria do Comitê Olímpico Internacional que reconhece atletas que demonstram espírito esportivo de forma excepcional. Vanderlei a recebeu pela forma como reagiu ao ataque em Atenas, e é o único brasileiro a tê-la no currículo.

Vanderlei é o único brasileiro medalhista olímpico na maratona?

Sim. Até hoje, o bronze de Atenas 2004 é a única medalha olímpica do Brasil na prova, o que torna a campanha ainda mais especial para a corrida de rua nacional.

Quem era o torcedor que ajudou Vanderlei na pista?

O grego Polyvios Kossivas, que correu até o brasileiro e afastou o agressor. Ele foi levado ao Brasil pelo Comitê Olímpico do Brasil e recebeu homenagem no Prêmio Brasil Olímpico.

Vanderlei ainda corre?

Ele é descrito como ex-atleta, mas segue ligado às corridas: participa de eventos, lidera pelotões em provas de rua e conversa com o público sobre sua história, como fez em Belo Horizonte, em 2026.

Quiz: Vanderlei Cordeiro de Lima

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Em que ano Vanderlei Cordeiro de Lima foi agarrado durante a maratona olímpica?

O incidente aconteceu em 29 de agosto de 2004, nos Jogos de Atenas, perto do quilômetro 36.

2. Que medalha Vanderlei conquistou na maratona de Atenas?

Ele terminou em terceiro, com 2h12min11s, atrás de Stefano Baldini e Meb Keflezighi.

3. Qual honraria do Comitê Olímpico Internacional ele recebeu pelo espírito esportivo?

A Medalha Pierre de Coubertin reconheceu sua atitude depois do ataque, e ele é o único brasileiro com a honraria.

4. Quem inspirou Vanderlei a começar a competir, ao ganhar o ouro olímpico em 1984?

Ele contou que começou a competir em 1985, motivado pelo ouro de Joaquim Cruz nos 800 metros em Los Angeles.

5. Qual momento marcou Vanderlei na cerimônia de abertura do Rio 2016?

Escolhido de última hora, ele acendeu a pira no Maracanã e disse que recebeu ali a sua medalha de ouro.

Seus acertos:

Fontes: World Athletics, Comitê Olímpico do Brasil.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.