Em 31 de julho de 1996, em Savannah, nos Estados Unidos, um paulistano de 23 anos se tornou o primeiro campeão olímpico da história da classe Laser. Robert Scheidt, nascido em 1973, ainda ganharia mais quatro medalhas olímpicas e, em agosto de 2026, continuava vencendo regatas. Se você acha que a vela é um esporte distante do Brasil, esta história começa numa represa de São Paulo.

Do Guarapiranga a Savannah

Scheidt ganhou o primeiro barco do pai aos nove anos e começou a velejar na represa do Guarapiranga. Jogou tênis até uns 15 anos, mas o vento ganhou a disputa. Em 1991 levou o Mundial juvenil da classe Laser vencendo dez das onze regatas, e em 1995 conquistou o primeiro título mundial entre os adultos. Estudou administração de empresas na Universidade Mackenzie, em São Paulo, enquanto o nome crescia no circuito.

Atlanta 1996: a largada que decidiu o ouro

A vela dos Jogos de Atlanta aconteceu em Savannah, a cerca de 480 quilômetros da cidade-sede, com calor pesado e tempestades. Na Laser, a briga era entre Scheidt e o britânico Ben Ainslie, então um jovem em ascensão. Antes da 11ª e última regata, o brasileiro liderava por dois pontos.

Houve duas largadas anuladas, e na terceira tentativa a comissão de regatas hasteou a bandeira preta, que desclassifica quem cruza a linha depois do sinal do último minuto. Segundo o relato do Sailing Scuttlebutt, Scheidt tinha descartes melhores e só precisava tirar Ainslie da prova. Foi o que fez nos instantes finais, e o ouro ficou com o Brasil. O troco do britânico viria quatro anos depois.

Sydney 2000: a prata

Em Sydney, segundo o Scuttlebutt, Ainslie empurrou Scheidt para o fim da frota numa regata famosa e garantiu o primeiro dos seus títulos olímpicos. O brasileiro ficou com a prata na Laser, e a rivalidade entre os dois virou capítulo obrigatório da história da classe.

Atenas 2004 e a virada para a Star

Em Atenas, Scheidt voltou ao lugar mais alto do pódio na Laser. Foi eleito Velejador do Ano pela Rolex e pela federação internacional de vela em 2001 e em 2004. A partir de 2006, trocou o barco individual pela Star, em dupla com Bruno Prada. A parceria rendeu a prata em Pequim 2008, quando ele foi o porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura, e o bronze em Londres 2012.

Rio 2016: a quarta posição que o Brasil não esqueceu

De volta à Laser em 2013, Scheidt chegou à baía de Guanabara já veterano. Venceu a regata da medalha, mas terminou o torneio em quarto lugar, a um passo do pódio. Dias depois, assistiu a outro ouro brasileiro: o de Martine Grael e Kahena Kunze na 49erFX. Ele contou que se preocupou quando a dupla se separou da frota depois da marca 4, mas concluiu que a escolha estava certa, e disse que elas “velejaram de maneira excepcional”.

Aposentadoria que durou pouco

Em outubro de 2017, Scheidt anunciou o fim da carreira olímpica, dizendo que não se sentia mais competitivo. Mudou de ideia em 2019. Garantiu a vaga para Tóquio, a sétima Olimpíada da carreira, e ficou em oitavo lugar na Laser, sem medalha. Na minha opinião, voltar para disputar mais uma Olimpíada, depois de anunciar o fim da carreira olímpica, é o capítulo mais bonito da trajetória.

Grael e Scheidt: as duas famílias da vela brasileira

Em Atlanta 1996 e em Atenas 2004, a vela brasileira ganhou dois ouros em cada edição: o de Scheidt na Laser e o de Torben Grael com Marcelo Ferreira na Star. Torben também tem cinco medalhas olímpicas, e os dois foram durante anos os nomes mais citados quando o assunto era vela. A filha de Torben, Martine Grael, venceu a classe 49erFX duas vezes, no Rio e em Tóquio, e foi justamente ela que Scheidt elogiou na baía de Guanabara. Para entender as classes, os barcos e as regras, vale ler o nosso guia tudo sobre a vela olímpica. Se quiser comparar com os outros gigantes do COB, veja os maiores medalhistas brasileiros das Olimpíadas.

Scheidt hoje e o filho Erik

Scheidt mora em Garda, na Itália, é casado com a lituana Gintaré Volungevičiūtė, também velejadora olímpica, e tem dois filhos. Em 30 de agosto de 2026, com o americano Austin Sperry, ele ganhou o Europeu da classe Star em Medemblik, na Holanda, com quatro vitórias em sete regatas, numa frota de 70 duplas de 17 países. Erik, o filho que também compete, foi campeão mundial juvenil da classe ILCA 6 em Aarhus, na Dinamarca, em agosto de 2026, e contou que o pai o ajuda muito na parte psicológica. A nova geração aparece em Kiko Dal Ri e Erik Scheidt no Mundial de ILCA 6.

Ficha: Robert Scheidt nos Jogos

Jogos Classe Resultado
Atlanta 1996 Laser Ouro
Sydney 2000 Laser Prata
Atenas 2004 Laser Ouro
Pequim 2008 Star Prata
Londres 2012 Star Bronze
Rio 2016 Laser Quarto lugar
Tóquio 2020 Laser Oitavo lugar

Nascido em São Paulo em 1973, Scheidt soma 12 títulos mundiais, nove na Laser e três na Star, segundo a Associação Internacional da Classe ILCA.

Quiz: teste o que você sabe

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Em que cidade americana Scheidt ganhou o ouro olímpico da Laser em 1996?

A vela de Atlanta 1996 foi disputada em Savannah, onde Scheidt se tornou o primeiro campeão olímpico da classe Laser.

2. Qual velejador britânico foi o grande rival de Scheidt em Atlanta e em Sydney?

Ben Ainslie perdeu o ouro para Scheidt em 1996 e venceu a disputa em Sydney, em 2000.

3. Quem foi o parceiro de Scheidt na classe Star a partir de 2006?

Com Bruno Prada, Scheidt ganhou a prata em Pequim 2008 e o bronze em Londres 2012.

4. Em que represa paulistana Scheidt começou a velejar?

Ele ganhou o primeiro barco do pai aos nove anos e velejava no Guarapiranga.

5. Que dupla brasileira Scheidt elogiou depois do ouro na 49erFX no Rio 2016?

Ele disse que Martine Grael e Kahena Kunze velejaram de maneira excepcional na regata da medalha.

Seu placar:

Fontes: Olympics.com, ILCA.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.