Em 2011, o Brasil foi a grande sensação do surf internacional. Naquela edição do WCT Masculino (World Championship Tour, o Circuito Mundial), foram sete surfistas brasileiros participando. Eles conquistaram quatro das onze etapas e ainda estiveram em outros quatro pódios.

Os mais experientes viam naquela temporada uma espécie de tempestade surgindo. Não deu outra: nasceu a Brazilian Storm. Do apelido em diante, o Brasil foi, ano a ano, dominando o cenário mundial do surf.

Entre 2012 e 2014, três finais consecutivas. Em 2014, o primeiro título mundial com Gabriel Medina. Em 2015, foi a vez de Adriano de Souza, Medina repetiu a dose em 2018 e 2021. Italo Ferreira conseguiu seu título em 2019 e Filipe Toledo também entrou na galeria de campeões em 2022.

Entre 2015 e 2019, foram 30 etapas vencidas de 66 disputadas. Só no último circuito (2019), foram seis vitórias e outros 10 pódios de surfistas brasileiros. Nessa edição, o Brasil tinha 11 representantes, o país com o maior número de participantes.

Mas como surgiu a “Brazilian Storm”? Como os surfistas brasileiros se tornaram os melhores surfistas do mundo?

Como surfistas brasileiros se tornaram os melhores do mundo

Brazilian Storm conhece sua primeira eliminação em Saquarema
WSL

Para quem é novo no surf, pode parecer parecer estranho que um país com quase 8 mil quilômetros de costa seja apenas uma potência recente no esporte. A prática pode até dominar as praias brasileiras desde sempre, mas a estrutura esportiva é uma novidade.

Foi só no começo de 2010, quando cresceu o pensamento do surf como um esporte competitivo no Brasil, que o país passou a ter surfistas que pensam em carreiras de fato. Isso, por sua vez, foi resultado de um processo que começou lá entre os anos 60 e 70, mas também de uma evolução natural.

Começamos, enfim, a ter famílias com pais e avôs surfistas. Nos lares, pegar uma onda não é só um lazer ou um estilo de vida, mas uma atividade esportiva de fato.

Surfistas e atletas

Essa “ancestralidade” influenciou diretamente numa transformação na mentalidade dos surfistas brasileiros. Surfistas não, atletas.

Medina, Mineirinho, Filipinho, Italo… Todos têm uma rotina similar à de qualquer esportista de elite. Todos têm alimentação controlada e uma programação rígida de treinos e preparação física.

Os brasileiros começaram a ter acompanhamento de preparadores e personal trainers e a treinar mais fora do que dentro da água. O foco é principalmente no fortalecimento muscular, na flexibilidade e na agilidade.

O condicionamento especial é um dos principais motivos para o sucesso da tempestade. Primeiro por dar a estrutura corporal necessário para a “escola de surf” brasileira, de manobras arriscadas e muitos aéreos. O estilo progressivo garante muitos pontos, mas exige muito da parte atlética dos surfistas.

Depois, a preparação física diminui sensivelmente o número de contusões, que são naturais em qualquer esporte de alto rendimento. Menos lesões quer dizer mais etapas disputadas e mais chances no Circuito.

Gabriel Medina, por exemplo, venceu duas etapas em 2011, mas deixou de participar de outras cinco. Ficou sem o título.

Ainda assim, a evolução atlética por si só não é garantia de vitórias. Tampouco o talento, que os surfistas brasileiros têm de sobra. O surf, afinal, é um esporte individual e o psicológico dos competidores é essencial.

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O psicológico dos surfistas brasileiros

Gabriel Medina demonstra confiança pra quebrar tabu no Brasil: “Melhor fase”
WSL/Thiago Diz.

Imagine a situação: um mar aberto e agitado, uma multidão na praia e só uma prancha separando você das ondas. Em jogo, o título da maior competição mundial de surf. Para piorar, você divide a água com o seu adversário. Uma pressão e tanto.

Para desempenhar e exceder nessas situações, é preciso ir além do talento e da capacidade física. É necessário frieza, concentração — força psicológica, enfim.

O preparo mental tem sido outro ponto importante para o sucesso da Brazilian Storm. Não é necessariamente um diferencial. É, sim, uma equiparação ao que fazem alguns dos melhores surfistas internacionais, como Kelly Slater e Mick Fanning.

Motivos para o desenvolvimento psicológico dos brasileiros não faltam.

Além dos exemplos e da inclusão da parte mental na programação de treinos, os surfistas daqui passaram a contar com uma verdadeira rede de apoio, seja pelo número de compatriotas no Circuito, seja pela maior estrutura das equipes de cada atleta.

A estrutura dos surfistas brasileiros

Não é só de talento e profissionalismo que vive a Brazilian Storm. Por trás de cada um dos campeões mundiais e dos outros candidatos a títulos, existe toda uma estrutura para o seu preparo.

E não estamos falando apenas de instalações, que inclusive muitos dos principais surfistas brasileiros possuem dentro da própria casa, mas sim de pessoal. O Instituto Marazul é uma referência nesse sentido.

Toledo, Medina, Italo Ferreira, Mineirinho, todos passaram por lá e foram acompanhados por nutricionistas, fisiologistas e psicólogos.

Há também treinadores, agentes e outros responsáveis por gerenciar a rotina e montar os planos e estratégias para o circuitos e suas etapas.

Muitos desses profissionais surfaram em outras épocas e é até possível que alcançassem maior sucesso se durante as competições tivessem alguém ao seu lado como, bom, eles mesmos.

O investimento nos surfistas brasileiros

Como você deve imaginar, nada disso sai de graça. Muito pelo contrário. A estrutura, as instalações, os profissionais, tudo é fruto de um maior investimento das empresas no surf como um esporte de alto rendimento.

O mercado do surf cresceu muito no Brasil e os empresários tiveram que acompanhar. Não basta mais investir apenas em equipes de audiovisual, nem há mais espaço para times de amigos e mentalidade amadora.

A conta é simples: maior sucesso dos atletas, maior retorno financeiro.

Mas o investimento não é só individualizado. Tradicionais marcas brasileiras de surf, como a Hang Loose, bancam competições amadoras nas praias daqui e estimulam a profissionalização de jovens talentos desde cedo.

É como uma categoria de base, que garante mais surfistas com a mentalidade dominante das jovens promessas e uma renovação constante de atletas, num processo que vem muito bem a calhar com a recente introdução do surf como esporte das Olimpíadas.

Os números e títulos dos surfistas brasileiros

  • Seis títulos dos últimos oito troféus do WCT (2014, 2015, 2018, 2019, 2021 e 2022)
  • 44 etapas vencidas do WCT masculino entre 2014 e 2023 (103 disputadas)
  • 11 participantes no WCT de 2023. 7 após o corte, Jadson André só competiu uma etapa por conta de uma lesão, Miguel Pupo só competiu em 3 eventos também devido a uma contusão. Samuel Pupo e Michael Rodrigues foram cortados.

Os títulos mundiais dos surfistas brasileiros

  • Gabriel Medina – 2014 – 3 etapas vencidas – 62.800 pontos
  • Adriano de Souza – 2015 – 2 etapas vencidas – 57.700 pontos
  • Gabriel Medina – 2018 – 3 etapas vencidas – 62.490 pontos
  • Italo Ferreira – 2019 – 3 etapas vencidas – 61.070 pontos
  • Gabriel Medina – 2021 – 2 etapas vencidas – 43.400, bateu Filipe Toledo na WSL Finals.
  • Filipe Toledo – 2022 – 2 etapas vencidas – 54.690 pontos, bateu Italo Ferreira na WSL Finals.

Membros da Brazilian Storm em 2023

  • Filipe Toledo
  • Gabriel Medina
  • Italo Ferreira
  • Tatiana Weston-Webb
  • Miguel Pupo
  • Yago Dora
  • Caio Ibelli
  • João Chianca

* Miguel Pupo se machucou, porém recebeu convite para 2024.

Agora que você sabe o que há por trás do sucesso dos surfistas brasileiros, aproveite para aumentar seu conhecimento sobre surf:

*Última atualização em 10 de julho de 2023