Bicampeã mundial de skate street, Pâmela Rosa está em Assunção, no Paraguai, para o Campeonato Mundial de Skate Street, que integra o World Skate Games 2026 e é disputado de quarta-feira (14) a domingo (18). Aos 27 anos, a skatista de São José dos Campos (SP) é uma das 16 integrantes da seleção brasileira de street e chega a um torneio que distribui pontos importantes para o ranking olímpico de Los Angeles 2028 depois de uma sequência de lesões que a acompanharam nos dois Jogos Olímpicos que disputou e de uma cirurgia no ombro em 2025.

A trajetória de Pâmela Rosa em resumo

Momento O que aconteceu
Aos 8 anos Ganha o primeiro skate dos pais, em São José dos Campos
Aos 13 anos Depois do título sul-americano, estreia nos X Games
2019 Campeã mundial de street em São Paulo
2021 Lesão no tornozelo às vésperas de Tóquio; bicampeã mundial em Jacksonville (EUA)
2023 Prata nos Jogos Pan-Americanos de Santiago
2024 Torce o pé dois dias antes da estreia em Paris e fica fora da final
2025 Lesão no ligamento do ombro esquerdo em julho e cirurgia
2026 Volta ao Mundial em São Paulo (março) e é convocada para Assunção (outubro)

O skate que custou a conta de luz

O primeiro amor de Pâmela foi o futebol. Em carta publicada no The Players’ Tribune em 2022, dirigida à mãe, dona Evânia, ela contou que era o pai quem a levava aos jogos e jogava bola com ela, e que chegou a receber propostas de times. O skate apareceu por acaso: um amigo da irmã foi fazer um trabalho de escola na casa da família e deixou o skate do lado de fora. Ele não deixou a menina andar, por achá-la nova demais, mas ela aproveitou a distração, colocou a prancha no chão e saiu remando.

“Sim, eu queria ser jogadora de futebol, já tinha recebido até propostas para jogar em times, uma coisa que eu desejava muito, mas, quando eu comecei a andar de skate, a sensação de liberdade não tinha igual. Foi mais forte do que eu”, escreveu.

Ela tinha oito anos. E o primeiro skate de verdade veio com sacrifício da família: “Mesmo com seu receio de eu praticar esportes, você e meu pai deixaram de pagar as contas de água e luz naquele mês só para me dar um skate de presente”, relatou na carta. Pâmela diz guardar até hoje o shape com que aprendeu as primeiras manobras no Poliesportivo do Jardim Cerejeiras, em São José dos Campos. Na primeira competição, ficou em terceiro. Aos nove anos, num torneio em São Sebastião, era a única menina entre os participantes.

Da Califórnia aos X Games

Com pouca estrutura de pistas no Brasil, o caminho foi a Califórnia. “Eu nunca tinha viajado para tão longe. Mal sabia falar o português direito, quanto mais o inglês”, lembrou. Lá, contou com a ajuda de Kelvin Hoefler, que abriu a casa para que ela pudesse treinar e que mais tarde seria medalhista de prata em Tóquio.

A primeira viagem internacional, à Argentina, terminou com o título sul-americano, com a mãe ao lado. Logo depois veio o convite para os X Games, aos 13 anos. Pâmela acumulou medalhas na competição, com dois ouros em 2016, nas etapas de Oslo e Austin, e se firmou entre as principais skatistas do mundo. A geração que ela ajudou a abrir está na nossa lista dos melhores skatistas do Brasil.

Dois títulos mundiais e o mesmo roteiro nas Olimpíadas

Em 2019, no Parque Cândido Portinari, em São Paulo, Pâmela foi campeã mundial de street. O sonho olímpico, porém, esbarrou no corpo. Às vésperas dos Jogos de Tóquio, ela rompeu completamente o ligamento deltoide do tornozelo esquerdo. “Quando cheguei em Tóquio, já sabia, lá no fundo, que não conseguiria dar o meu melhor na competição para a qual me preparei durante vários anos da minha vida”, escreveu depois.

A resposta veio no mesmo ano. Ainda em recuperação, conquistou o bicampeonato mundial em Jacksonville, nos Estados Unidos, numa dobradinha com Rayssa Leal, que ficou com a prata. “Foi um ano um pouco difícil ali entre junho e julho, porque infelizmente acabei me lesionando dois dias antes dos Jogos Olímpicos”, disse ao Lance! na época.

Em Paris-2024, a história se repetiu. Pâmela caiu três vezes nas eliminatórias, somou 205,23 pontos e ficou uma posição abaixo da zona de classificação para a final. Só então revelou que estava machucada. “Estou satisfeita por mais uma Olimpíada, mas é um pouco triste, porque a mesma história que se repetiu em Tóquio aconteceu aqui. Infelizmente, dois dias antes aqui da competição, no treino, eu torci meu pé. Estou lesionada”, disse ao Terra. “O filme se repetiu de novo.”

Ombro operado e um Mundial em casa

O ciclo para Los Angeles começou com mais um obstáculo. Em julho de 2025, treinando para a etapa de Brasília da Street League Skateboarding (SLS), Pâmela lesionou o ligamento do ombro esquerdo e precisou de cirurgia. O Mundial, então marcado para setembro nos Estados Unidos, estava fora de alcance. O cancelamento do evento e sua transferência para São Paulo, em março de 2026, deram a ela uma nova chance, justamente na pista onde havia sido campeã em 2019.

“Acho que tudo tem que acontecer na hora certa. Sou muito grata a tudo que o skate vem me proporcionando, independentemente de conseguir participar ou não. O skate é isso, às vezes mesmo no tempo em que a gente tá machucada, o skate faz a gente estar no topo não só em competições, mas de felicidade, de saúde mental”, afirmou ao Lance! antes daquela competição.

A preparação física virou prioridade. “Tenho certeza que eu 100% com o meu corpo, consigo dar 1000% no skate. Agora é manter o trabalho, continuar bem nas competições, pontuar e representar meu país, para em 2028 estar em mais uma Olimpíada”, disse.

Da pista para a bateria da escola de samba

Fora do skate, Pâmela tem outra paixão declarada: o Carnaval. Ela costuma integrar a bateria das escolas de samba e, em 2026, desfilou pela Mocidade Alegre e pela Dragões da Real, em São Paulo, e pela Grande Rio, no Rio de Janeiro. “O Carnaval é a melhor época do ano pra mim. Em época de Carnaval minha vida é uma loucura, mas é o que me move, me dá uma vontade absurda de evoluir tanto na vida pessoal quanto na profissional”, contou ao Lance!.

O que está em jogo em Assunção

O Mundial de Street no Paraguai vale pontos decisivos na corrida pelo ranking olímpico de Los Angeles 2028. A seleção brasileira feminina tem Rayssa Leal, Pâmela Rosa, Gabi Mazetto, Duda Ribeiro, Isabelly Avila, Maria Lucia e Bia Godoi. Na avaliação do Surto Olímpico, Pâmela e Mazetto têm condições de brigar por vaga nas finais, enquanto Rayssa, bicampeã mundial em 2022 e 2024, segue como principal candidata do país ao pódio. Para acompanhar a disputa por posições, veja o ranking mundial de skate street e entenda os critérios de nota nas regras do skate.

Para Pâmela, Assunção é mais um passo no plano anunciado em março: competir com o corpo inteiro, somar pontos e chegar à terceira Olimpíada da carreira. Depois de dois Jogos marcados por lesões na véspera, a meta é que, desta vez, o roteiro seja outro.

Fontes: Olimpíada Todo Dia, Lance!, Terra, The Players’ Tribune, Surto Olímpico.