No judô paralímpico, só lutam atletas com deficiência visual, divididos em duas classes (J1, para cegos ou quase cegos, e J2, para baixa visão) e em categorias de peso. A regra que muda tudo: a luta não começa à distância. O árbitro chama “kumi-kata”, os dois já seguram o judogi um do outro, manga e gola, e só então vem o “hajime”. Perdeu a pegada? O árbitro para na hora. Vem com a gente entender o resto, incluindo os ouros que o Brasil coleciona no tatame.
| Ponto da regra | Judô paralímpico | Judô olímpico |
|---|---|---|
| Quem compete | Só atletas com deficiência visual, nas classes J1 e J2 | Aberto, sem classificação funcional |
| Início da luta | Pegada obrigatória (manga e gola) antes do hajime | Atletas começam separados e disputam a pegada |
| Pegada perdida | Árbitro dá matte imediatamente | Luta segue normalmente |
| Tempo de luta | 4 minutos, com golden score em caso de empate | 4 minutos, com golden score |
| Pontuação | Ippon, waza-ari e yuko, pelas regras da IJF | Ippon, waza-ari e yuko |
| Saída da área | Árbitro grita “jogai”; J1 só é punido se sair de propósito | Sem aviso sonoro |
| Categorias (ciclo LA 2028) | Masculino: -70, -81, -95 e +95 kg; feminino: -52, -60, -70 e +70 kg, para J1 e J2 | Grade própria da IJF, separada por gênero |
Quem pode lutar: as classes J1 e J2
Todo judoca passa pela classificação da Federação Internacional de Esportes para Cegos (IBSA) na primeira competição oficial e pode ser reavaliado depois. A classe J2 reúne atletas com acuidade visual entre LogMAR 1.3 e 2.5 ou campo visual de até 60 graus de diâmetro; a J1, quem é cego ou quase cego. O J1 é fácil de reconhecer: pelo regulamento IBSA de 2025 a 2028, ele leva um círculo vermelho de 7 cm no número das costas do judogi (não na manga) e é conduzido pelo árbitro até o centro do tatame.
Essa divisão é recente. A IJF registrou que, depois de Tóquio 2020, o Comitê Paralímpico Internacional decidiu criar as classes J1 e J2, os exames de visão ficaram mais rígidos e as sete categorias de peso caíram para quatro. Paris 2024 foi a primeira Paralimpíada nesse formato, com 16 medalhas de ouro em disputa. Cego não enfrenta mais atleta de baixa visão na chave: as duas classes só se misturam quando faltam inscritos para formar dois pódios.
Na prática: como é uma luta no tatame paralímpico
Imagine a cena: os dois judocas seguram o braço do árbitro, saúdam juntos e caminham até a marca. O árbitro anuncia “kumi-kata”: cada um dá um passo à frente e pega com uma mão a manga e com a outra a gola oposta, entre a clavícula e a ponta do esterno. Nada de pegar no pescoço ou no ombro, nada de braço esticado, cabeça erguida. Nesse momento ainda não há luta. Só com o “hajime” a briga começa.
A partir daí, a regra de ouro do regulamento IBSA é lutar com as duas mãos o tempo todo. Se um atleta perde uma ou as duas mãos da pegada, o árbitro deve dar matte na hora. Soltar com uma mão só é permitido se vier um ataque imediato ou a troca por outra pegada com as duas mãos. E quem puxa o braço para trás para impedir que o rival segure a manga leva shido direto. Na minha opinião, é isso que deixa o judô paralímpico tão franco: ninguém consegue fugir da luta, os dois estão sempre agarrados.
Perto da borda, o árbitro corre para o centro e grita “jogai” bem alto, várias vezes, para o atleta se orientar pela voz e mudar de direção. O J1 normalmente não é punido por pisar fora, a não ser que ande de costas para escapar do combate; o J2 que deixa a área sem ação e de propósito leva shido. O técnico só pode passar orientação e informações de segurança.
Pontuação, tempo e punições
A base é a mesma do judô olímpico, porque a IBSA arbitra pelas regras da Federação Internacional de Judô, com as exceções para atletas com deficiência visual. A luta dura quatro minutos e, se terminar empatada, vai para o golden score, em que o primeiro a pontuar vence, como descreve o CPB. O ippon acaba a luta na hora: vem de uma projeção perfeita, de uma imobilização de 20 segundos ou de chave de braço e estrangulamento que levam à desistência. Abaixo dele estão o waza-ari e, desde 2025, o yuko, que a IJF trouxe de volta para quedas de lado e imobilizações de 5 a 9 segundos.
Como muitos atletas não veem o placar, o árbitro escreve na palma da mão deles: “I” para ippon, “W” para waza-ari, “Y” para yuko. Um toque com um dedo indica o primeiro shido, dois dedos o segundo, e um “H” significa hansoku-make. Pelo resumo do Comitê Paralímpico Internacional, quem recebe três shidos perde a luta.
Categorias de peso: o que mudou depois de Paris
Em Paris 2024, os homens lutaram em -60, -73, -90 e +90 kg, e as mulheres em -48, -57, -70 e +70 kg, conforme o regulamento IBSA em vigor desde 2022. Em outubro de 2024, a IBSA publicou em Budapeste a tabela para o ciclo até Los Angeles 2028: feminino em -52, -60, -70 e +70 kg; masculino em -70, -81, -95 e +95 kg. Em 29/10/2026, a página de apresentação da IBSA ainda mostrava -90 e +90 kg no masculino, mas o regulamento e o Mundial de 2026 usam 95 kg.
O Brasil no judô paralímpico: de Tenório a Paris
A história verde e amarela começou cedo. Segundo o CPB, o país estreou internacionalmente em 1987, num torneio em Paris, e no ano seguinte, em Seul, ganhou suas três primeiras medalhas paralímpicas na modalidade, com os bronzes de Leonel Filho, Júlio Silva e Jaime de Oliveira. O primeiro ouro veio com Antônio Tenório, nascido em 1970, em Atlanta 1996.
E Tenório não parou mais. O Comitê Paralímpico Internacional o aponta como o primeiro judoca da história a ganhar quatro ouros paralímpicos seguidos, de Atlanta 1996 a Pequim 2008. Depois ainda vieram o bronze em Londres 2012 e a prata no Rio 2016, em casa: seis Paralimpíadas, seis medalhas. Até Tóquio 2020, o Brasil somava cinco ouros na história da modalidade, quatro dele e um de Alana Maldonado.
Paris 2024 mudou essa conta. A Gazeta Esportiva registrou oito medalhas brasileiras no judô: quatro ouros, duas pratas e dois bronzes. Alana abriu o caminho na sexta-feira, 6 de setembro, com ippon sobre a chinesa Yue Wang na final até 70 kg J2, e virou bicampeã paralímpica. No mesmo dia, Brenda Freitas viu um ippon a seu favor ser anulado na revisão e ficou com a prata na J1 até 70 kg, um lembrete de como o vídeo também manda no tatame.
O sábado foi histórico. De acordo com a Agência Brasil, vieram três ouros, todos por ippon: o potiguar Arthur Silva bateu o britânico Daniel Powell na final até 90 kg J1, o paraibano Wilians Araújo superou o moldávio Ion Basoc no +90 kg J1, depois de ter perdido para ele em maio, e Rebeca Silva venceu a cubana Sheyla Hernández na estreia paralímpica, no +70 kg J2. “Não estou acreditando”, disse Rebeca. Erika Zoaga (prata no +70 kg J1), Rosicleide Andrade e Marcelo Casanova (bronzes) completaram a campanha.
E a turma segue no topo. No Mundial de Tbilisi, em 26 de setembro de 2026, Arthur Silva foi ouro até 95 kg J1, de novo diante de Powell, Alana chegou ao tetracampeonato mundial até 70 kg J2 com waza-ari no golden score e Brenda Freitas venceu até 70 kg J1 por ippon, segundo a Agência Brasil. A história completa do título de Arthur está na nossa reportagem sobre o ouro mundial. E o ciclo rumo a Los Angeles começou em casa: a IJF destacou que a etapa de julho de 2026, no CT Paralímpico, em São Paulo, foi a primeira chance de somar pontos no ranking para 2028.
Se você quer comparar com o judô convencional, confira as regras do judô olímpico; para o panorama de todas as modalidades, veja as regras dos esportes paralímpicos e a história das Paralimpíadas.
Perguntas rápidas sobre o judô paralímpico
Desde quando o judô está na Paralimpíada?
Desde Seul 1988, só com provas masculinas, segundo a IBSA. As mulheres entraram no programa em Atenas 2004, e a francesa Karima Medjeded, até 48 kg, foi a primeira campeã.
O que significa o círculo amarelo no judogi?
Indica atleta surdo. Pelo regulamento IBSA, o vermelho marca o atleta cego e o amarelo, o atleta com deficiência auditiva, que não escuta o “jogai” e recebe avisos por toque na mão.
Como o atleta sabe que entrou no último minuto?
O árbitro desenha um círculo no sentido horário no pulso do judoca quando começa o minuto final da luta.
Quem organiza o judô paralímpico no Brasil?
A modalidade é administrada pela Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV), segundo o Comitê Paralímpico Brasileiro.
Quiz: teste o que você sabe
Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.
1. Onde fica o círculo vermelho que identifica o atleta J1?
2. O que o árbitro faz quando um atleta perde a pegada durante a luta?
3. Quantos minutos dura uma luta de judô paralímpico, antes do golden score?
4. Em qual Paralimpíada Antônio Tenório ganhou o primeiro ouro do Brasil no judô?
5. Quantos ouros o Brasil conquistou no judô paralímpico em Paris 2024?
Seus acertos:
Fontes: IBSA, CPB.