Onze metros, a bola na marca, o goleiro sozinho contra o batedor. A cobrança parece simples, mas segue um roteiro preciso: quem fica onde, o que o goleiro pode fazer, quando a cobrança se repete. Tudo isso, segundo a Lei 14 das Regras do Jogo da IFAB para 2026/27, com a história do pênalti e as decisões que marcaram a Seleção Brasileira.
Como funciona a cobrança, passo a passo
O pênalti é marcado quando um jogador comete, dentro da sua própria grande área, uma falta que seria punida com tiro livre direto. A bola fica parada sobre a marca, com uma parte dela tocando ou cobrindo o centro da marca, e o batedor precisa estar claramente identificado.
Todos os outros jogadores ficam dentro do campo, atrás da marca, fora da grande área e a pelo menos 9,15 metros (10 jardas) da bola. O árbitro só autoriza a cobrança depois que todos estão posicionados. A bola entra em jogo quando é chutada e se move com clareza, e o batedor não pode tocar nela de novo antes que outro jogador a toque.
O chute precisa ir para a frente. Calcanhar vale, desde que a bola siga para a frente. Se ela for para trás, o jogo recomeça com tiro livre indireto para a defesa, mesmo que a bola entre.
O que o goleiro pode e não pode fazer
Até a bola ser chutada, o goleiro fica sobre a linha de gol, entre as traves, de frente para o batedor. Quando o chute sai, pelo menos uma parte de um dos pés precisa estar tocando a linha, alinhada com ela ou atrás dela. Ele não pode distrair o batedor, por exemplo atrasando a cobrança ou mexendo na trave ou na rede. Mexer braços e corpo é permitido, desde que não seja considerado desrespeitoso ou antidesportivo.
Se a infração do goleiro faz a cobrança ser repetida, ele é advertido verbalmente na primeira vez na partida e recebe cartão amarelo nas seguintes. É a base da conversa sobre o "pé adiantado": o goleiro que sai da linha antes do chute pode ver a defesa anulada, desde que isso tenha atrapalhado o batedor. Veja também as regras dos cartões amarelo e vermelho.
Invasão da área, paradinha e outros erros comuns
A invasão da área antes de a bola entrar em jogo só é punida quando muda alguma coisa. Se um companheiro do batedor entra cedo e atrapalha claramente o goleiro, ou joga a bola e cria chance ou gol, a cobrança é repetida ou há tiro livre indireto. Se o invasor é do time do goleiro e atrapalha claramente o batedor, ou impede o gol depois de jogar na bola, a cobrança também é repetida.
A famosa paradinha é permitida na corrida. O que não vale é fingir o chute depois de terminada a corrida: o batedor leva cartão amarelo e o jogo recomeça com tiro livre indireto para a defesa, mesmo que a bola entre. Outro engano comum é achar que todo toque duplo do batedor é falta: se foi acidental e a bola entra, a cobrança se repete, e se não entra, é tiro livre indireto (esclarecimento incorporado ao texto de 2026/27).
Outro detalhe que passa despercebido: se o pênalti sai no fim de um tempo, o árbitro prolonga a etapa até a cobrança acabar. Se a bola entrar, o jogo termina sem novo pontapé inicial. Para ver o quadro completo, leia o guia das regras do futebol.
O VAR e o pênalti
O VAR pode ajudar o árbitro nas decisões de pênalti, quando há erro claro e óbvio. O protocolo da IFAB prevê a revisão de pênalti marcado por engano, de pênalti não marcado, e da posição da falta (dentro ou fora da área). Também cobre infrações do goleiro ou do batedor na cobrança. Para entender a tecnologia, veja nosso explicativo sobre o VAR.
Cobranças na disputa por pênaltis
A disputa vem depois do fim da partida, e os chutes são alternados, cinco para cada lado. Cada cobrança é de um jogador diferente, e todos os elegíveis precisam bater antes de alguém repetir. A disputa para antes dos cinco chutes se um time já não pode ser alcançado pelo adversário. Persistindo o empate, o processo continua em rodadas, até um time ficar na frente com o mesmo número de cobranças.
Só quem estava em campo no apito final (ou temporariamente fora por lesão ou ajuste de equipamento) pode bater. Se um time termina com mais jogadores, precisa reduzir ao número do rival, e os excluídos não batem. O goleiro lesionado pode ser substituído por um excluído para igualar o número, ou por um reserva nomeado se o time ainda tem substituições disponíveis.
De onde veio o pênalti
Antes de 1891, supunha-se que nenhum jogador faria uma falta de propósito. O pênalti nasceu dessa ingenuidade desfeita. O nome mais associado à criação é o de William McCrum, goleiro do Milford, de Armagh, na Irlanda, um clube que terminou o primeiro Campeonato Irlandês (1890-91) sem pontos. Segundo o museu local da Milford House, a federação irlandesa (IFA) levou a proposta dele ao International Board, que só a discutiu em 1891.
A ata do encontro de 2 de junho de 1891, em Glasgow, mostra a lei aprovada logo no início da reunião, proposta pelo irlandês Reid e apoiada pelo inglês Crump. Na primeira versão, o goleiro não podia avançar mais de seis jardas da linha de gol, e os demais jogadores ficavam a pelo menos seis jardas atrás da bola. A FIFA lembra a data como o ano em que o pênalti foi introduzido. Na época, a novidade também era chamada de "pontapé da morte" ("kick of death").
O Brasil e as disputas de pênaltis em Copas
O pênalti marcou a Seleção Brasileira para o bem e para o mal. Em 1986, nas quartas de final, o Brasil empatou em 1 a 1 com a França e perdeu por 4 a 3 nos pênaltis: Sócrates e Júlio César erraram as suas cobranças, e Michel Platini também desperdiçou uma pelos franceses. Em 1998, na semifinal contra a Holanda, outro 1 a 1 no tempo normal e vitória brasileira por 4 a 2, com Cocu e Ronald de Boer desperdiçando.
Mas a disputa mais lembrada é a final da Copa de 1994, em 17 de julho, no Rose Bowl, em Pasadena. Depois de 0 a 0 em 120 minutos, foi a primeira final de Copa decidida nos pênaltis. Franco Baresi abriu os erros italianos, Márcio Santos desperdiçou a primeira brasileira, Romário e Branco converteram, Daniele Massaro errou, Dunga marcou e Roberto Baggio, o último italiano, errou a cobrança que deu o tetra ao Brasil por 3 a 2 nas penalidades. Mais recente, a eliminação de 9 de dezembro de 2022: nas quartas da Copa do Catar, a Croácia venceu por 4 a 2 nos pênaltis, com Rodrygo tendo a cobrança defendida por Livakovic e Marquinhos acertando o travessão.
Goleiros pegadores e batedores brasileiros
O Brasil tem tradição de goleiros que crescem na hora da disputa. Em nossa lista dos maiores pegadores de pênaltis, aparecem nomes como Rogério Ceni, Dida, Marcos e Cássio. Do outro lado, a página dos melhores batedores de pênalti reúne gente como Romário, Ronaldinho, Neymar, Hulk e o próprio Rogério Ceni, goleiro que também virou especialista na bola parada.
Minha opinião: o que mais separa um bom batedor de um craque não é a potência, é a cabeça fria na corrida. Para mim, quem decide o canto antes tem vantagem sobre quem tenta enganar no último passo, e a Lei 14 deixa pouco espaço para a esperteza: a paradinha só vale enquanto a corrida não terminou.
Quiz: teste o que você sabe
Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.
1. A que distância mínima da marca do pênalti ficam os demais jogadores na cobrança?
2. No momento do chute, o que o goleiro precisa fazer com os pés?
3. Quem é mais associado à ideia do pênalti, apresentada à IFA irlandesa?
4. Quem desperdiçou a última cobrança italiana na final da Copa de 1994?
5. O que acontece se o batedor chuta a bola para trás num pênalti?
Seu placar:
Fontes: IFAB, FIFA.