Ana Patrícia Ramos é a gigante de Espinosa que virou campeã olímpica do vôlei de praia. Nascida em 1997 no norte de Minas, ela ganhou o ouro em Paris 2024 ao lado de Duda, numa final contra o Canadá decidida no tie-break, à sombra da Torre Eiffel. Antes disso, já tinha sido campeã mundial em 2022. Vem com a gente contar como uma menina que jogava futsal com os meninos do bairro chegou ao topo do mundo, e onde ela está agora, em outubro de 2026.

De Espinosa para a areia

Espinosa fica no norte de Minas Gerais, quase na divisa com a Bahia, e longe de qualquer praia. Foi lá que Ana Patrícia Silva Ramos nasceu, em 29 de setembro de 1997. Segundo o Diário do Nordeste, a menina jogava futsal todo dia pelo time da cidade, entrava nas peladas com os meninos e ainda passou pelo handebol e pela natação. Com cerca de 1,94 m, também contou ter sofrido bullying na escola, numa fase que ela descreve como difícil.

A virada veio nos Jogos Escolares. Pelo perfil do Comitê Olímpico do Brasil, ela dividia o tempo entre o vôlei de quadra e o handebol quando foi observada na competição e convidada a experimentar a areia. Não saiu mais. A base foi construída na região metropolitana de Belo Horizonte e depois no Centro de Desenvolvimento de Voleibol, em Saquarema (RJ).

Nanjing 2014: o primeiro ouro com Duda

Em 2013, Ana Patrícia formou dupla com uma sergipana franzina e habilidosa chamada Eduarda Lisboa, a Duda (a trajetória dela está contada em detalhes na nossa página sobre Duda Lisboa). Um ano depois, as duas subiram ao lugar mais alto do pódio nos Jogos Olímpicos da Juventude de Nanjing, na China. Era o primeiro aviso do que viria uma década depois.

Só que a parceria juvenil não seguiu. Em 2015, Ana Patrícia se mudou para Fortaleza, e foi no Ceará que ela amadureceu como atleta adulta. Ali nasceu a dupla com a cearense Rebecca, que durou quatro anos e rendeu títulos no Circuito Brasileiro e no Circuito Mundial.

Tóquio, as críticas e o reencontro

A estreia olímpica veio em Tóquio 2020, com Rebecca. A campanha parou nas quartas de final, contra as suíças Joana Heidrich e Anouk Vergé-Dépré. Depois da eliminação, Ana Patrícia recebeu uma enxurrada de mensagens de ódio nas redes, como ela mesma relatou, e agradeceu publicamente a quem a apoiou. A dupla com Rebecca acabou em 2021.

Aí o roteiro deu a volta completa: em 2022, Ana Patrícia reencontrou Duda. E, na nossa opinião, poucas reedições no esporte brasileiro deram tão certo tão rápido.

Roma 2022: campeãs do mundo no Foro Italico

Em junho de 2022, poucos meses depois do reencontro, as duas chegaram ao Mundial de Roma sem status de favoritas absolutas e saíram com o título. Foram oito vitórias seguidas, do primeiro jogo à decisão. Na final, em 19 de junho, no Foro Italico, bateram as canadenses Sophie Bukovec e Brandie Wilkerson por 2 a 0, com 21/17 e 21/19. Pela Volleyball World, foi o sexto título mundial feminino do Brasil e o primeiro desde 2015, quando Ágatha e Bárbara venceram na Holanda.

Dali para frente, a dupla virou referência. Segundo o Olimpíada Todo Dia, Duda e Ana Patrícia lideraram o ranking mundial por 101 semanas seguidas, de novembro de 2022 a outubro de 2024. Em 2023, perderam a final do Mundial para as americanas Kelly Cheng e Sara Hughes, mas fecharam o ano com o ouro no Pan de Santiago, de novo sobre Melissa e Brandie, por 22/20 e 21/18. No mesmo ano, em 15 de setembro, levantaram em Fortaleza o primeiro título de etapa do Circuito Brasileiro juntas. A torcida cearense, claro, estava do lado dela.

Paris 2024: ouro sob a Torre Eiffel

Chegou 9 de agosto de 2024. Arena lotada no Eiffel Tower Stadium, torre iluminada ao fundo, e do outro lado da rede as velhas conhecidas Melissa Humana-Paredes e Brandie Wilkerson. O primeiro set foi um susto: o Canadá abriu 11 a 5. A dupla brasileira buscou, o placar virou várias vezes e o set terminou 26/24 para o Brasil. No segundo, as canadenses dispararam numa sequência sem resposta e fecharam em 21/12.

O clima esquentou na reta final. Ana Patrícia e Brandie bateram boca de lados opostos da rede, as jogadoras reclamaram com a arbitragem, e o DJ da arena resolveu soltar uma música de John Lennon, o que arrancou risadas das próprias atletas. No tie-break, o Brasil esteve na frente o tempo todo e fechou em 15/10. Foi o primeiro ouro olímpico feminino do Brasil no vôlei de praia desde Atlanta 1996, quando Jackie Silva e Sandra Pires inauguraram a modalidade no programa. Seis edições de espera.

Para fechar a festa, Duda e Ana Patrícia foram escolhidas porta-bandeiras do Time Brasil na cerimônia de encerramento. E na entrevista depois do ouro, a mineira que virou meio cearense ainda brincou com a tradicional vaia da torcida do Ceará, num vídeo que rodou as redes. A lista completa das medalhas do país na modalidade está no nosso guia de medalhistas olímpicos do vôlei de praia.

Hérnia, pausa e o recomeço do ciclo

O ouro teve um preço. Ana Patrícia já disputava os Jogos com dor nas costas e, em janeiro de 2025, contou que uma hérnia lombar a obrigou a ficar cerca de três meses longe da areia. A dupla perdeu etapas, caiu de forma inédita para o 57º lugar do ranking mundial e só voltou ao Circuito Mundial em março de 2025. A recuperação foi rápida: em setembro, com o bronze no Elite 16 de João Pessoa, as duas somavam quatro pódios seguidos em etapas de nível Elite e voltaram ao top 10.

No Mundial de Adelaide, na Austrália, em novembro de 2025, a dupla estreou com vitória, mas abandonou o torneio nas oitavas de final, em 20 de novembro, por razões médicas. Mais tarde, Duda revelou que vinha enfrentando crises de ansiedade, e as duas fizeram uma pausa no fim do ano.

Ana Patrícia em 2026: o que aconteceu até agora

A volta internacional foi em grande estilo: prata no Elite 16 de João Pessoa, em 15 de março de 2026, com vitória sobre as americanas Kraft e Cheng na semifinal e derrota para Cruz e Brasher na final, por 21/16 e 21/19. Em 26 de abril, a dupla conquistou a etapa de Brasília do Circuito Brasileiro, batendo Thâmela e Vic por 21/18 e 21/15. No Elite 16 de Brasília, dias depois, caiu nas oitavas.

Em 31 de julho de 2026, Duda anunciou uma nova pausa, até novembro, para cuidar da saúde física e mental e chegar inteira ao começo da corrida por Los Angeles 2028. A decisão foi tomada junto com a comissão técnica, o Praia Clube, a CBV e o COB. Ana Patrícia seguiu treinando em Uberlândia e jogou o Elite 16 de Hamburgo, em agosto, com Carol Horta, parceira de 2015 e 2016. Sem entrosamento, a dupla ficou na fase de grupos, com três derrotas. Ela não fez drama: “Nada importa mais do que isso agora”, disse ela ao Olympics.com, ao falar do bem-estar da parceira. Até 24/10/2026, Hamburgo segue como o último torneio internacional dela, não há anúncio oficial de nova parceria fixa, e o plano divulgado é o retorno de Duda ao lado dela.

Para quem acompanha a modalidade desde os tempos de Jackie e Sandra, vale ler também a história do vôlei de praia.

Títulos e marcos de Ana Patrícia

Ano Conquista Parceira
2014 Ouro nos Jogos Olímpicos da Juventude (Nanjing) Duda
2021 Quartas de final em Tóquio 2020 Rebecca
2022 Campeã mundial (Roma) Duda
2023 Vice-campeã mundial e ouro no Pan de Santiago Duda
2024 Ouro olímpico (Paris) Duda
2026 Prata no Elite 16 de João Pessoa Duda

Perguntas frequentes

Qual é o apelido de Ana Patrícia?

Ela é chamada de Pati pelas companheiras. A própria Duda usa o apelido: foi “a Pati” que ela citou ao contar, em janeiro de 2025, o problema nas costas da parceira.

Em que clube Ana Patrícia treina?

Ana Patrícia e Duda treinam no Praia Clube, em Uberlândia (MG), que participou da decisão sobre a pausa de Duda em 2026. É de lá que a dupla costuma viajar para as etapas no Centro-Oeste.

Ana Patrícia já disputou duas Olimpíadas?

Sim. Foi quadrifinalista em Tóquio 2020, com Rebecca, e campeã em Paris 2024, com Duda. Em março de 2026, ela disse que encara a corrida por Los Angeles 2028 campeonato por campeonato, como fez nos dois ciclos anteriores.

Quantos anos Ana Patrícia tem?

Ana Patrícia nasceu em 29 de setembro de 1997, em Espinosa (MG).

Quiz: você conhece a história de Ana Patrícia?

Escolha uma alternativa em cada pergunta. A resposta aparece na hora.

1. Em que cidade de Minas Gerais Ana Patrícia nasceu?

Ana Patrícia nasceu em Espinosa, no norte de Minas, perto da divisa com a Bahia, em 29 de setembro de 1997.

2. Onde Ana Patrícia e Duda conquistaram o ouro nos Jogos Olímpicos da Juventude de 2014?

Foi em Nanjing, na China, em 2014: o primeiro grande título da dupla, ainda adolescente.

3. Com quem Ana Patrícia jogou os Jogos de Tóquio 2020?

Ela fez a estreia olímpica ao lado da cearense Rebecca. A campanha parou nas quartas de final, contra as suíças Heidrich e Vergé-Dépré.

4. Em que cidade Duda e Ana Patrícia foram campeãs mundiais em 2022?

Foi em Roma, no Foro Italico, com 2 a 0 (21/17 e 21/19) sobre as canadenses Bukovec e Brandie.

5. Qual foi o placar da final olímpica de Paris 2024 contra o Canadá?

Duda e Ana Patrícia venceram Melissa e Brandie por 26/24, 12/21 e 15/10, no estádio montado ao pé da Torre Eiffel.

Seu placar:

Fontes: Olimpíada Todo Dia, Volleyball World.

Eric Filardi Content Coordinator

Coordenador do Esportelândia desde 2021, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo. Autor do livro “Os Mestres do Espetáculo”, que está na biblioteca do Museu do Futebol de São Paulo. Passou por Jovem Pan, Futebol na Veia e PL Brasil.