Esta semana, infelizmente, o brasileiro tricampeão de Fórmula 1, Nelson Piquet, voltou aos holofotes por conta de um comentário racista em entrevista, feita em 2021, ao referir-se a Lewis Hamilton como “Neguim”, quando falava sobre a batida do britânico com seu genro, o holandês Max Verstappen. De fato, uma coisa lamentável à época e que repercutiu de forma ainda pior este ano. Eu, como colunista, vou ter certo cuidado para debater o assunto racismo.

Em primeiro lugar, Nelson Piquet, o qual compartilha minha data de aniversário, é natural do Rio de Janeiro, local onde gírias como: mané, neguim e vacilão são habituais, mas, porém, contudo e todavia, estamos em 2022 e ele não está em uma conversa de bar com seus amigos e/ou colegas. Então, passar pano, jamais!

Por certo, o que o tricampeão, a partir deste parágrafo será mencionado apenas como Piquet, pois suas glórias não devem ser esquecidas, mas os triunfos jamais atrelados a tal comportamento, errou e não foi pouco. “Ah, mas Cartola, você é branco!”. Sim, por isso consultei jornalistas negros para dar sua opinião sobre o fato. Vamos ao caso step by step ou famoso passo à passo.

Veja o exato momento da batida entre Lewis Hamilton e Max Verstappen

Nelson Piquet – Entre o ostracismo e o racismo

  1. Primeiramente, em 3 de novembro de 2021, Piquet comentou, em entrevista à Ricardo Oliveira, sobre o acidente entre Hamilton e Verstappen referindo-se ao heptacampeão como neguim. Vale dizer que, na época, tal entrevista passou incólume.
  2. Ela ressurgiu há pouco tempo e notaram o comportamento de Piquet.
  3. A saber, o heptacampeão expressou a necessidade de mudança no comportamento e na linguagem. Nesse ínterim, a FIA publicou sua solidariedade ao mesmo. Piquet, inclusive, postou em pt-br.
  4. Então, desde o dia 3 de novembro até hoje, enquanto escrevo esta coluna, escrita pós-viralização em 27 de junho de 2022, Piquet soltou uma nota pedindo desculpas por, aparentemente, livre e espontânea pressão.

Apesar de saber que a nota foi escrita por um time de relações públicas e não pelo próprio ex-piloto, vou colocar a nota oficial das “desculpas” de Piquet.

Sob o guarda-chuva de uma assessoria de imprensa, Nelson Piquet pede desculpas por comentário racista

Gostaria de esclarecer às histórias que circulam na mídia sobre um comentário que fiz em uma entrevista no ano passado. O que eu disse foi mal pensado, e não defendo isso, mas vou esclarecer que o termo usado é aquele que tem sido amplamente e historicamente usado coloquialmente no português brasileiro como sinônimo de ‘cara' ou ‘pessoa' e nunca tive a intenção de ofender.

Eu nunca usaria a palavra da qual fui acusado em algumas traduções. Condeno veementemente qualquer sugestão de que a palavra tenha sido usada por mim com o objetivo de menosprezar um piloto por causa de sua cor de pele.

Peço desculpas de todo o coração a todos que foram afetados, incluindo Lewis, que é um piloto incrível, mas a tradução em algumas mídias que agora circulam nas redes sociais não está correta. A discriminação não tem lugar na F1 ou na sociedade e estou feliz em esclarecer meus pensamentos a esse respeito” (SIC).

Em resumo, esta nota emitida, feita por livre e espontânea pressão, não tem o tom de Piquet e o que mais me incomoda é o fato dele relativizar o termo de cunho racista utilizado pelo mesmo.

Colunistas comentam falas de Nelson Piquet

Com esta mini timeline, colunistas comentaram, extremamente solidários, engajados e negros ou pardos, as falas do ex-piloto. Decerto, autorizaram a publicar.

Thiago Abreu

A princípio, Thiago Abreu, jornalista, setorista do Chelsea na PL Brasil e comentarista na Rádio Poliesportiva, iniciou os comentários sem julgar, mas lamentando as falas:

Na atualidade é muito complicado julgar, afirmar e, principalmente, rotular qualquer pessoa, pois em segundos toda uma carreira e reputação pode ser manchada de tal forma que ‘acabe' com a vida de um ser humano. Assim, todos nós temos que ter responsabilidade de saber o que estamos afirmando, principalmente nós, jornalistas.

Contudo, sem rotular as falas de Nelson Piquet, não posso deixar de dizer que ela foi muito mal, péssimo, em utilizar termos que, hoje, finalmente, vemos como racistas, preconceituosos e que enfatizam o racismo existente.

Não estou aqui afirmando que ele é este tipo de pessoa, mas, em relação a sua fala, sobre utilizar por duas vezes o termo ‘neguinho', ele precisa, no mínimo vir a público se retratar e pedir desculpa a Lewis Hamilton e todas pessoas que se sentiram ofendidas pelo termo.

Sabemos que o Nelson possui falas polêmicas ao longo da sua carreira, sendo essa mais uma para coleção. E, sim, ele poderia ter utilizado diversos termos para mencionar o piloto, como, por exemplo: britânico; inglês; piloto da Mercedes; heptacampeão ou simplesmente o nome dele: Hamilton” (SIC).

Vale ressaltar que este depoimento de Thiago Abreu foi emitido antes da nota pública que o Piquet colocou na mídia.

Carla Regina

Sob o mesmo ponto de vista, Carla Regina, setorista do Atlético-GO no portal Futebol na Veia e jornalista do Lorena R7, comentou, também antes da divulgação da nota, os dizeres do ex-piloto, ressaltando a falta de atitude da mídia na época, só alertando sobre tal problema muito tempo depois:

A maneira que a mídia tratou o caso foi desumano. Se tratando de Hamilton, o cara chamou o melhor piloto dos tempos de ‘neguim' em forma totalmente pejorativa e os meios de comunicação simplesmente passaram uma borracha nisso, sem se aprofundar realmente no assunto.

Tanto que o caso aconteceu ano passado e veio à tona somente agora. A pergunta em questão é: por que só estão falando disso agora? Por que não teve esta repercussão na data da fala racista?” (SIC).

Carlão Barreto

A saber, conversei também com o Mestre Carlão Barreto, comentarista esportivo de MMA do Canal Combate. Abaixo, segue algumas frases da nossa conversa:

  • “Temos que aceitar o contraditório”;
  • “Foi um grande piloto, mas Piquet sempre foi polêmico”;
  • “Foi feio o que ele falou? Sem dúvida!”;
  • “Ele é resultado de sua geração”;
  • “O racismo está na nossa sociedade!”;
  • “Temos que entender e combater no debate sólido, pois a educação é a base”;
  • “Vivemos em uma sociedade racista”;
  • “Hamilton, em sua fala, foi preciso. Não devemos aceitar e repensar todo esse comportamento”;
  • “No MMA, nunca passei por situação de racismo (…)”;
  • “Se alguém foi racista comigo, eu realmente nem perdi tempo com ela (…)”;
  • “a gente sabe que no Brasil existe um racismo velado”;
  • “Quando era lutador, fui lutar em um evento nos EUA em 1997, no Sul do país, no Mississipi, em Bilox, onde começou o movimento da KKK, uma cidade racista e extremamente segregadora. Ali aconteceu um ato de racismo” (esta frase parafraseei o mestre Carlão).
  • “Nós, negros, não podemos nos esconder atrás do vitimismo. Temos que enfrentar o racismo de frente, com dignidade e sabedoria”.

Nelsinho Piquet já recebeu multa por comentário homofóbico

Note-se que em momento algum atribuí ou atribuímos ao Piquet a alcunha de racista, ele pode ser como pode não ser. Acredito, piamente, que ele é um produto de sua época. Seja através de seus comportamentos ou gírias, mas, sem dúvida, uma decepção.

Gostaria de terminar minha coluna aqui, porém, tivemos mais um episódio, literalmente, familiar, no automobilismo. Veja como anunciou o portal Terra, em 2013, a multa que Nelsinho Piquet, filho de Nelson pai, recebeu por homofobia:

“Kligerman havia postado uma imagem na semana passada, e Nelsinho fez um comentário direto ao colega: o brasileiro escreveu fag, um termo em inglês que é utilizado de maneira pejorativa para se referir a homossexuais (“bicha”, em tradução livre). Mais tarde, o piloto apagou o comentário, mas não escapou da punição da Nascar” – Trecho retirado do portal Terra, de 2013.

Nelsinho pronunciou-se à época

Peço desculpas pela minha escolha errada de palavras na semana passada. Eu não quis ofender ninguém. O que aconteceu me permitiu um grande aprendizado cultural que me tornará uma pessoa mais sensível”.

Nelsinho, possivelmente, um produto de seu meio. Não à toa, foi flagrado na Stock Car com uma camisa que dizia: “Patrão é meuzovo”, clara referência ao heptacampeão, Hamilton. Recalque ou uma forma de exaltar seu cunhado, Max Verstappen?

Opinião sobre o caso Nelson Piquet e o racismo

Nós, fãs do automobilismo, em suas várias formas, sabemos que o esporte que amamos é, predominantemente, contemplado e admirado pelo homem hétero, cis e branco, mas temos a esperança que venha ser para todos e, diferentemente de seu pai, Nelsinho veio a publico desculpar-se sem uma pressão ou ajuda de assessoria.

Em suma, não podemos admitir comportamentos como esses em 2022. Não podemos nos contentar com poucas pilotas em diferentes categorias. Quantas mulheres, quantas Danicas Patrick serão necessárias para mudarmos o esporte que amamos?

Hamilton, talvez, receba o título de GOAT (Greatest Of All Time, o maior de todos os tempos, em tradução livre) não só pelo que fez e faz dentro das pistas, como também por não se calar diante a assuntos relevantes e, por vezes, polêmicos.

Tanto a figura do alemão Michael Schumacher, quanto do argentino Juan Manuel Fangio, são icônicas, mas Hamilton transcende isso guiando e externando suas opiniões. N

Punição à Nelson Piquet e atitudes contra o racismo

No dia 29 de junho de 2022, a F1/FIA anunciou que considera banir Piquet dos Paddocks. Vai fruir, não sei. Apesar da tristeza, me alegro em partes. A RBR anunciou, em 28 de junho de 2022, que rompeu o contrato com piloto de F2, Juri Vips.

Em uma live, o piloto estoniano utilizou termos inaceitáveis, como nigga (termo pejorativo para referir-se a pessoas de pele negra) e complementou dizendo que rosa é uma cor gay.

A RBR está corretíssima. E contraditória, pois veio a público quando a Oracle, sim, a patrocinadora da Red Bull Racing, está sendo processada aqui no Brasil.

Em um telecall com um cliente, um dos diretores representantes, alegadamente, referiu-se ao cliente em certo momento com: “Aí não, negão. Ai você que me fod**”.

O racismo é algo que, se disser arcaico é pouco, não deve ser aceito de forma alguma. Vamos combater, juntos, esse comportamento desprezível e atrasado. Ayrton Senna disse, em sua entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura: “Como piloto o respeito muito, mas como pessoa, tenho minhas restrições”.

Nelson Piquet, você foi espetacular. Você foi um campeão. Você, um dia, provavelmente, acabará esquecido. Hamilton, o “neguim”, já faz parte da história. De fato, seus números, seus títulos, sua personalidade e seu ativismo cravam sua presença na memória e, quiçá, nos livros de história.

Em conclusão, me dói, até certo ponto, mas apenas um desses nomes será lembrado. Mas não estou falando apenas do nosso amado esporte automobilismo, pois enquanto um de vocês será alcançado pelo ostracismo, outro será alcançado e alçado ao panteão de lenda, dentro e fora das pistas.

Foto destaque: Reprodução / Sky Sports