Bicampeã olímpica e considerada por muitos a melhor líbero da história, Fabiana Alvim, a Fabi, entrou para o Hall da Fama Internacional do Vôlei na turma de 2026, cuja cerimônia oficial foi marcada para o sábado (17), em Holyoke, nos Estados Unidos, cidade onde o vôlei foi inventado. Às vésperas da homenagem, a carioca de 46 anos deu ao “Abre Aspas”, do ge, uma entrevista de quase duas horas em que resumiu a carreira com uma frase: “Vivi muito mais do que imaginei”.

Fabi foi eleita na categoria jogadora de quadra e venceu a votação popular da categoria, segundo o Hall da Fama. A turma de 2026, a 40ª da instituição, tem outros dois brasileiros: o ex-presidente da FIVB e da CBV Ary Graça e o campeão olímpico de vôlei de praia Alison Cerutti.

“Você não faz um ponto em um esporte que vive disso”

A frase mais forte da entrevista resume a posição que mudou a vida dela. “A beleza do líbero está no altruísmo. É uma posição que foi feita para servir ao time. Jogar como líbero é um exercício diário de humildade. Essa posição foi criada para ser mais uma, porque você não faz um ponto em um esporte que vive disso. O líbero, por mais que tenha jogadas lindas, é muito mais o coração do time, naquele lugar do operário que passa despercebido”, disse Fabi ao ge.

A ironia é que ela quase recusou a função. Com 1,66 m, jogava como ponteira e central na base do Flamengo e ouvia que não teria futuro no vôlei profissional. Quando o técnico do juvenil apresentou a nova posição, oficializada em 1998, a descrição foi pelo que o líbero não fazia. “Ele não ataca, não saca, não bloqueia e não faz ponto. Eu dei uma gargalhada”, lembrou. No mesmo ano, recebeu convite de Macaé e virou profissional.

Fabi Alvim em números Dados
Nome Fabiana Alvim de Oliveira, 46 anos (7 de março de 1980)
Clubes Macaé, Flamengo, Vasco, Campos e Rio de Janeiro (atual Sesc-Flamengo)
Olimpíadas Ouro em Pequim 2008 e Londres 2012
Seleção Seis títulos do Grand Prix, ouro pan-americano em Guadalajara 2011, duas pratas em Mundiais
Clubes (títulos) 10 Superligas, tetracampeã sul-americana
Prêmios individuais Mais de 20, incluindo melhor jogadora do Sul-Americano de 2009

A defesa com o pé e o pai taxista

Entre tantos lances, um ficou guardado: a defesa com o pé contra a Coreia do Sul, na fase de grupos de Londres 2012. Fabi chorou ao explicar por quê. “A defesa com o pé conversa com uma menina que só queria jogar bola quando era garota. Meu pai trabalhava como taxista e aprendeu a colocar o vídeo da defesa no celular para mostrar aos passageiros. Com aquela bola em Londres, me transformo também na filha do meu pai”, contou.

O corte de Atenas e a pecha de “amarelona”

O primeiro grande golpe veio em 2004. Zé Roberto Guimarães precisava escolher entre ela e Arlene para a única vaga de líbero em Atenas, e Fabi ficou fora. “É o primeiro grande baque profissional, não tenho nenhuma dúvida”, disse. Ela voltou à seleção em 2005 e não saiu mais até 2014.

A virada da semifinal de Atenas contra a Rússia, quando o Brasil vencia o quarto set por 24 a 19, deixou um rótulo que, segundo Fabi, foi atribuído ao gênero e não ao desempenho. “Atenas só termina em Pequim”, resumiu. Para ela, o ponto de ruptura foi a derrota para Cuba no Pan de 2007, no Maracanãzinho. Antes da final de 2008, Zé Roberto pediu ao grupo: “Queria muito que vocês me ajudassem a recuperar a metade de mim que ficou em Atenas”.

A trajetória com os dois maiores técnicos do país também passa por Bernardinho, que a levou para o time do Rio de Janeiro, convite que ela recebeu de forma inusitada: Fernanda Venturini avisou no cumprimento da rede, depois de um playoff, que “o Bernardo vai te ligar”.

Rivalidade: a vascaína que era Flamengo

Torcedora rubro-negra, Fabi defendeu o Vasco na final da Superliga 2000/2001 justamente contra o Flamengo, com o Maracanãzinho lotado. Após a derrota por 3 a 1 na série, ouviu um elogio do então presidente vascaíno Eurico Miranda, que a apontou como símbolo do clube. “Meu Deus, mal sabia ele que sou Flamengo. Mas foi um dos elogios mais bonitos que pude receber”, contou.

A saída da seleção e a sucessora

Fabi deixou a seleção em 2014, a dois anos da Rio 2016, e diz não se arrepender. A tranquilidade veio ao ver a evolução de Camila Brait, com quem travou uma disputa saudável pela posição, tema de outra comparação clássica: quem foi a melhor líbero do Brasil. “Se você me perguntar do que eu sinto falta, é do vestiário”, admitiu. Hoje ela é comentarista da Globo.

“Achei que fosse brincadeira”

Sobre o Hall da Fama, a reação foi de incredulidade. Fabi estava de férias quando recebeu uma ligação pedindo um depoimento sobre a posição de líbero. “Quando ele vem com papo de Hall da Fama, só penso: ‘Você está brincando’. Jamais imaginei que pudesse acontecer algo próximo disso”, disse.

Com a homenagem, Fabi se junta ao seleto grupo do museu de Holyoke, que, segundo a própria instituição, passa a ter 194 integrantes de 28 países. A geração dela aparece também na lista das bicampeãs olímpicas do vôlei brasileiro.

Fontes: ge, International Volleyball Hall of Fame.