“Um dos meus sonhos é a medalha olímpica e ser campeão mundial no half, além de conquistar o meu lugar no park e poder dizer que sou um skatista de park, porque eu já sou.” A frase, dita por Gui Khury à ESPN em abril de 2025, ganhou peso no sábado, 10 de outubro de 2026, em Assunção, no Paraguai. Aos 17 anos, o curitibano conquistou o bronze no Campeonato Mundial de Skate Park com 92,15 pontos, sua primeira medalha mundial no park, a modalidade olímpica que ele decidiu encarar mesmo sendo um fenômeno do vert.
A final em Assunção: chuva, nervos e um pódio dividido
A decisão masculina fez parte dos Jogos Mundiais de Skate 2026, disputados entre 2 e 18 de outubro na capital paraguaia. O Brasil levou três skatistas à final, algo que não acontecia desde 2024: Augusto Akio, Kalani Konig e Gui Khury. As semifinais, interrompidas pela chuva na sexta-feira (9), só terminaram no sábado, com Gui classificado em sétimo.
Na final, Gui abriu com 88 pontos e encaixou na segunda volta sua melhor apresentação, 92,15. O espanhol Egoitz Bijueska, de 15 anos, liderou desde a primeira descida e ficou com o título com 94,50. O americano Tom Schaar subiu para a prata na terceira volta, com 93,07, empurrando o brasileiro para o terceiro lugar. Akio terminou em quarto, com 91,35, e Konig em oitavo, com 66.
A medalha fechou uma semana intensa. No dia 3 de outubro, também em Assunção, Gui já tinha sido prata no Mundial de Skate Vert, atrás do americano JD Sanchez, numa final encerrada pela organização por causa da chuva antes que ele pudesse fazer sua última apresentação. Segundo o ge, ele chegou a liderar a prova.
De Curitiba ao livro dos recordes
Guilherme Khury nasceu em Curitiba, em 18 de dezembro de 2008, e passou parte da infância na Califórnia, berço do skate de transição. O pai, Ricardo Khury Filho, surfava e andava de skate por hobby e foi quem colocou o filho em cima do shape. “Meu pai sempre me influenciou a andar de skate. Ele é minha inspiração”, contou Gui à ESPN.
A precocidade virou marca registrada. Em 2019, convidado para os X Games de Minneapolis, tornou-se o atleta mais jovem da história do evento, com 10 anos, segundo o Guinness World Records. No ano seguinte, aos 11, acertou o primeiro 1080 (três giros completos no ar) em uma rampa vertical, inspirado no lendário 900 de Tony Hawk. Em 2021, venceu o Vert Best Trick dos X Games e se tornou o mais jovem medalhista de ouro masculino da competição. O Esportelândia acompanhou essa trajetória na época em que Gui Khury mirava novos recordes nos X Games.
A rampa no quintal e o investimento da família
Por trás do prodígio há uma estrutura pouco comum no skate brasileiro. Em 2022, a família inaugurou em Curitiba, no terreno da avó de Gui, um complexo de treino batizado de Green Box Skate, com uma Mega Park em escala menor inspirada na pista criada por Bob Burnquist na Califórnia. Segundo o ge, Ricardo contratou uma empresa americana para montar a estrutura. “Quero agradecer ao meu pai por realizar esse sonho”, escreveu o skatista nas redes sociais na ocasião.
Em abril de 2025, a Oakley anunciou Gui como novo atleta patrocinado. “É muito irado fazer parte de uma marca que eu sempre admirei e que tem um time só com os melhores atletas”, afirmou ele no anúncio, divulgado pelo portal MKT Esportivo.
Notas históricas e o reinado no vert
No vert, Gui virou referência mundial. Em setembro de 2024, aos 15 anos, foi campeão mundial em Roma com 268,49 pontos, numa dobradinha com Augusto Akio. Em março de 2025, tirou 98 no STU de Porto Alegre, igualando a maior nota da modalidade, que pertencia a Bob Burnquist. Em novembro do mesmo ano, foi além: cravou 99 no STU Vert de São Paulo, no Vale do Anhangabaú, a maior nota da história das competições de skate vertical, segundo o ge. “A nota era do Bob, a pista é do Mineirinho e o atleta é o Gui Khury”, comemorou.
Em 2026, a coleção cresceu. Ele venceu o vert dos X Games em Sacramento e, em setembro, ganhou a etapa de Brasília do STU com quatro voltas acima de 90 pontos na mesma final, fechando com 97,20. “Já é muito difícil acertar uma volta, digamos, perfeita. Agora, imagina acertar quatro?”, disse ao ge. Até ali, somava 20 medalhas nos X Games: 13 de ouro, cinco de prata e duas de bronze.
O desafio do park e a rivalidade com Bijueska
O problema é que o vert não está no programa olímpico de Los Angeles 2028, que manteve apenas park e street. Por isso, Gui iniciou a transição. “O park realmente é difícil acostumar, é uma modalidade muito mais criativa, precisa usar a pista inteira”, explicou ao Lance! em 2025. Em junho daquele ano, na Copa do Mundo de Roma, virou o primeiro skatista a acertar um 900 em uma competição oficial de park e levou o bronze.
Naquela final em Roma, o campeão também foi Egoitz Bijueska, com os mesmos 94,50 pontos que lhe deram o título em Assunção. O espanhol, mais novo que Gui, tornou-se o adversário que o brasileiro precisa superar no bowl. Dentro de casa, a disputa é entre amigos: “A gente é como irmãos. Meu pai nos criou juntos”, disse Gui sobre Augusto Akio e Luigi Cini, com quem divide o sonho de chegar aos Jogos.
O caminho nem sempre foi linear. Em 2025, ele ficou fora da primeira convocação da seleção de park. “Isso não me abalou”, afirmou à ESPN. O bronze em Assunção é a resposta mais forte até aqui na briga pelas vagas do Brasil, uma das forças da modalidade, como mostra a lista dos melhores skatistas do Brasil.
Principais marcos da carreira
| Ano | Conquista | Modalidade |
|---|---|---|
| 2019 | Atleta mais jovem da história dos X Games, aos 10 anos | Vert |
| 2020 | Primeiro 1080 em rampa vertical, aos 11 anos | Vert |
| 2021 | Ouro no Vert Best Trick dos X Games | Vert |
| 2022 | Prata no Mundial de Buenos Aires | Vert |
| 2024 | Campeão mundial em Roma | Vert |
| 2025 | Nota 99 no STU Vert São Paulo, recorde da modalidade | Vert |
| 2025 | Primeiro 900 em competição oficial e bronze na Copa do Mundo de Roma | Park |
| 2026 | Ouro no vert dos X Games em Sacramento | Vert |
| 2026 | Prata no Mundial de Assunção | Vert |
| 2026 | Bronze no Mundial de Assunção | Park |
O que vem pela frente
Gui está escalado ao lado de Pedro Barros e Yndiara Asp para um torneio inédito que mistura surfe e skate em Florianópolis, nos dias 17 e 18 de outubro, segundo o ge. No horizonte maior está Los Angeles 2028, onde as provas de park estão marcadas para 25 a 27 de julho. “Se eu seguir esse caminho, tenho todas as chances de ir para a Olimpíada”, disse ele ao Olimpíada Todo Dia em novembro de 2025. Com duas medalhas em uma semana, o garoto do 1080 já não é apenas uma promessa do vert.
Fontes: ge, Olimpíada Todo Dia, ESPN Brasil, Lance!, Metrópoles, Guinness World Records, MKT Esportivo.