Entenda como o Sevilla dominou a Liga Europa nas duas últimas décadas: as finais, os principais nomes e os destaques de 2020

A relação do Sevilla com a Liga Europa parece seguir a máxima tão repetida pelos torcedores brasileiros: deixou chegar…

O finalista da edição de 2020 do torneio é, ora, o seu maior campeão. Já são seis troféus no salão do clube.

A história de amor entre os espanhóis e a Europa League é recente e a paixão é arrebatadora. Cinco das seis taças foram erguidas num espaço de dez anos, entre 2006 e 2016, com direito a um Bi e depois a um raríssimo tricampeonato.

Antes do Sevilla, o último a conseguir um tri europeu tinha sido o Bayern de Munique de Müller e Beckenbauer, só que na Liga dos Campeões, entre 1974 e 1976. Depois, só o Real Madrid de Cristiano Ronaldo e Zidane, entre 2016 e 2018.

O que deixa tudo mais impressionante é que até 2006 o clube da Andaluzia só tinha conquistado quatro títulos em sua história centenária. Como os Rojiblancos (“alvirrubros”, em espanhol) partiram daí para a hegemonia do “Lado B” da Europa?  É o que vamos contar a seguir.

A ascensão do Sevilla

A história moderna do Sevilla começa com o diretor esportivo Ramon Rodríguez, o Monchi. E não no sentido figurado, tendo ele assumido o cargo em 2000.

Dar a ele a responsabilidade de toda uma era vitoriosa é não somente ignorar todos os processos de um clube de mais de 130 anos como aqueles que foram literalmente responsáveis pelas conquistas.

É um fato, porém, que Monchi foi um vetor de mudanças. Ele não marcou nenhum gol do título ou defendeu um chute decisivo, mas transformou um time que vivia numa gangorra no Campeonato Espanhol em uma equipe pronta para ser campeã.

O método Monchi no Sevilla

O maior impacto do diretor esportivo se deu na construção e gestão do elenco. Num primeiro momento, reformulou a estrutura de formação de atletas e construiu uma rede de olheiros.

Consolidadas as bases de captação de talentos, começa o que ficou conhecido o “Método Monchi”, espécie de filosofia de trabalho do gestor espanhol. A lógica era simples, de investimentos em jovens jogadores por preços irrisórios e de vendas por valores grandiosos.

Na sua primeira passagem, Monchi somou 17 anos como diretor (Reprodução/Sevilla FC)

O diferencial estava no seu nível de execução, de um funcionamento de tamanha eficiência que foi capaz de manter o Sevilla competitivo e saudável financeiramente. E gerando grandes retornos esportivos.

Só das “compras” de talentos brasileiros no começo do século, foram contratados Daniel Alves, Luís Fabiano, Adriano, Renato e Júlio Baptista.

Os primeiros títulos do Sevilla na Liga Europa

Os brasileiros, juntos de crias da base como Reyes, Navas, Puertas e até Sergio Ramos — que foi para o Real Madrid com menos de um ano de clube — formaram a base do primeiro ciclo vitorioso do Sevilla de Monchi.

Aquele grupo foi responsável por, em dois anos, igualar o número de títulos conquistados nos outros cento e tantos de história sevilhana. A série de conquistas começou, claro, com a Liga Europa, na temporada 2005/2006.

A primeira taça europeia do Sevilla foi levantada após uma vitória com estilo sobre o Middlesbrough do brasileiro Fábio Rochembach. O placar de 4 a 0 foi inclusive aberto por Luís Fabiano após um cruzamento de Dani Alves.

A combinação do talento captado com a confiança da vitória europeia alçou os Rojiblancos a um ano seguinte fantástico.

Entre 2006 e 2007, foram vencidas a Supercopa da Uefa, a Copa do Rei, a Supercopa da Espanha e a consagração com o bi da Copa da Uefa 2006/2007.

Se nas duas Supercopas o Sevilla deu um show contra seus conterrâneos — 3 a 0 contra o Barcelona de Messi e Ronaldinho e 6 a 3 no agregado contra o Real Madrid de Robinho e Cannavaro — na Liga Europa a tarefa foi bem mais difícil.

O Espanyol vendeu caro a derrota. Os catalães empataram duas vezes o placar, sempre dez minutos depois dele ser alterado pelos andaluzes, seja no primeiro tempo do período regulamentar ou no segundo tempo da prorrogação.

O Bicampeonato da Liga Europa só foi confirmado na última penalidade, defendida por Andrés Palop, outro fruto do “Método Monchi”.

Em dez anos, o Sevilla conquistou mais títulos europeus do que o Barcelona (Reprodução/UEFA)

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A reconstrução e a identidade do Sevilla

O sucesso de Monchi nas negociações acaba por esconder uma parte muito importante do seu trabalho: o culto à identidade sevillista. As análises das contratações feitas na sua gestão não levavam em conta apenas aspectos técnicos e financeiros, mas psicológicos também.

Os scouts davam prioridade a jogadores com bons “atributos mentais”, isto é, com potencial para desempenhar não só nas decisões como nos momentos decisivos. Dani Alves talvez seja o melhor exemplo desse critério, um atleta com uma personalidade do tamanho da bola que joga.

No mesmo balaio era considerado o encaixe dos possíveis contratados com a identidade do Sevilla. Essa avaliação o diretor fazia pessoalmente. Foi jogador do clube por mais de dez anos e nele trabalhou por outros doze antes de ascender ao atual cargo.

Assim, a valorização da história e da cultura dos rojiblancos era e ainda é algo tão importante quanto a preparação para o seu futuro.

A homenagem a Antonio Puerta fala por si só. O jogador foi um dos heróis do Bi da Liga Europa de 2006 e 2007 e morreu depois de um problema cardíaco em campo, em agosto de 2007.

Sevilla Tricampeão da Liga Europa

Sete anos separaram o segundo e o terceiro título do Sevilla na Liga Europa. Não dá para dizer que esse cuidado com a identidade do clube não tenha contribuído para a manutenção da competitividade nesse meio tempo.

Até porque a formação campeã, de Dani Alves, Luís Fabiano, Kanouté e cia, que chegou até a liderar La Liga em 2006, foi completamente desmontada.

Mas a mesma frieza foi vista na disputa de pênaltis com o Benfica, que definiu o título de 2014; a mesma coragem se reproduziu no intenso 3 a 2 contra o Dnipro, no Bi de 2015; a mesma garra foi o combustível para a virada sobre o Liverpool de Klopp que garantiu ao clube o Tricampeonato inédito em 2016.

Sevilla entre a Europa e a Liga Europa

Na moeda da hegemonia do Sevilla na Liga Europa, duas faces: a do reconhecimento e a do questionamento. Afinal, por que o time não deslanchava em maiores competições?

São dois pontos presentes nessa pergunta. Um deles está fora do controle do clube espanhol, que apesar de todas as boas práticas financeiras, até hoje não consegue chegar perto do faturamento de Barça, Real e Atleti.

Dessa maneira, não só as vagas para a Champions League são muito disputadas como o próprio torneio segue com um nível ainda muito acima do que os rojiblancos parecem ser capazes de alcançar.

Nem para o Leicester o Sevilla foi páreo na UCL (Carl Recine, Livepic/Action Images)

É nesse nível, aliás, que está inserido o segundo ponto, o “sob o controle” do Sevilla em relação a sua incapacidade de subir de patamar. E tem a ver com os custos do “Método Monchi”.

A atuação pragmática do diretor mantém o time saudável financeiramente mas acaba impedindo um grupo forte para elite europeia. Já imaginou Dani Alves, Rakitic e Sergio Ramos juntos em seus auges físicos?

Para além da manutenção ou não de um jogador, são as constantes reformulações que de fato impedem voos mais altos.

Precisando encaixar os infindáveis “pacotões” de reforços de Monchi, o time sai atrás na largada do Espanhol e se complica em ocasionais fases classificatórias da Liga dos Campeões. Resta, assim, a Liga Europa.

Sergio Ramos e Dani Alves disputavam posição no Sevilla em 2004 (Reprodução/Marca)

Sevilla na final da Europa League 2020

A temporada 2019/2020 é muito representativa nesse sentido. Ela marcou o retorno de Monchi ao clube, depois de dois anos de pouco sucesso na Roma. O diretor voltou à vontade, liberando mais de vinte jogadores do elenco e formando um time titular praticamente do zero.

A qualidade de suas contratações é irrefutável. Na defesa, Diego Carlos, Koundé e Reguillón tiveram desempenhos fantásticos e já motivam mensagens no celular do gestor. O ataque com Ocampos, Munir e Youssef En-Nesyri  mostrou um bom encaixe e poder decisivo.

As manutenções de Banega e Jesus Navas também foram acertadas. Este último, antes um ponta e agora um experiente lateral direito, é uma espécie de “elo” da tão zelada cultura do Sevilla, assim como foi o finado Reyes no Tri de 2014-2016.

diego carlos sevilla
Diego Carlos foi um dos destaque do Sevilla em 2020

Até a aposta em Lopetegui se mostrou acertada. O espanhol é um treinador de personalidade e ideais ofensivos, a exemplo de Juande Ramos e Unai Emery nos ciclos vitoriosos anteriores.

Mas, com cerca de 70% do elenco renovado, o encaixe do time demorou a acontecer. Quando o futebol de fato engrenou, já era tarde. A campanha de de 11 jogos de invencibilidade estava rendendo “apenas” a vaga na fase preliminar da Champions League.

Isso até a Liga Europa. Na edição de 2020 foi aquela velha história: deixou chegar…

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*Última atualização no dia 21 de agosto de 2020

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