É fácil afirmar que Pep Guardiola é um dos maiores treinadores de futebol de todos os tempos. Difícil é explicar o porquê. Não que faltem motivos, muito pelo contrário. É que são muitos.

Falar do trabalho de Guardiola é percorrer os diversos aspectos da profissão nos quais ele é bem-sucedido. Há resultado, método, estilo, escola, visão, influência…

O espanhol é um dos mais vitoriosos técnicos da história do futebol. Em pouco mais de dez anos de carreira são trinta títulos vencidos. É o único a conquistar um bicampeonato nacional em três países diferentes — Espanha, Alemanha e Inglaterra — e, em dois deles, bater o recorde de troféus erguidos num único ano ou temporada.

Tamanho sucesso em condições tão diferentes só pode ser resultado de um projeto sólido, mas que passa longe de fórmulas prontas e repetidas a exaustão.

Na verdade, Guardiola exerce o seu cargo com tanta riqueza de conceitos e de metodologias que já foi chamado de revolucionário. Coincidência ou não, Espanha e Alemanha foram campeãs mundiais depois de pelo menos um ano (e um título) do treinador em suas ligas.

Uma maneira de observar seu “poder transformador” é notar a mudança nas análises futebolísticas, que passaram a ser muito mais táticas do que antes. Dá para datar do início da carreira de Pep o “boom” desse tipo de viés por parte da mídia e o cuidado com esse tipo de conhecimento por parte dos profissionais da prancheta.

É notória a sua influência nas novas gerações de técnicos, tanto em seguidores como em antagonistas. Entre seus discípulos, alguns dos melhores jogadores das décadas passadas, como Thierry Henry e Xavi Hernández.

Entre os grandes desta e da última década, é fácil de perceber a marca de Guardiola em seu desenvolvimento. Kevin De Bruyne, Lewandowski e Lionel Messi que o digam.

A lista, enfim, dos atributos de Pep Guardiola é enorme. É só a ver a quantidade de material produzido sobre sua biografia, sua carreira e suas ideias. Este texto é mais um deles.

A história de Pep Guardiola no Barcelona

Ao longo de sua carreira, Pep Guardiola arrebatou uma legião de fãs e seguidores. Seu surgimento como um ícone futebolístico foi tão poderoso que há quase “fiéis” que espalham a sua “palavra”.

De fato, sua trajetória no futebol é estelar. Para o torcedor do Barcelona, é de um arco quase messiânico.

Na temporada de estreia de Guardiola (2008/2009), uma revolução. Dispensou Ronaldinho Gaúcho, trouxe Thierry Henry e faturou nada menos que a Tríplice Coroa — Campeonato Espanhol, Copa do Rei e Liga dos Campeões —, a primeira da história do Barça.

O feito histórico se esticou até a metade da temporada seguinte, quando o time azul-grená fechou o ano de 2009 com a até hoje inédita conquista do sexteto, que combinou a trilogia de taças de 2008/09 com as Supercopas da Espanha e da UEFA mais o Mundial de Clubes.

As ideias de Pep Guardiola na Barcelona

Tão impressionante quanto a campanha perfeita de 2009 foi a maneira como ela foi executada.

Em campo, Guardiola foi capaz de sintetizar uma ideia que combinava seus conhecimentos adquiridos, a identidade do clube (pelo qual jogou por mais de dez anos) e a competitividade necessária a um jogo que caminhava, a partir do sucesso de José Mourinho, para um lado mais físico.

Para os torcedores, espectadores e fanáticos, o tiki-taka do Barcelona encantava pelo domínio do adversário por meio de uma quantidade pornográfica de passes e de uma marcação absolutamente surpreendente.

Para os adversários, analistas e outros entendidos, o modelo de jogo de Guardiola revolucionava. As soluções adotadas permitiam que o Barça jogasse ofensivamente mas sem grandes riscos e intensamente apesar da escalação em que a parte técnica subjugava a parte física.

Até as derrotas explicitavam o poder do Barcelona de Pep. Na Champions League, foram necessárias verdadeira epopeias defensivas — por parte de Inter de Milão e Chelsea, em 2010 e 2012, respectivamente — para eliminá-lo.

Em 2011 não houve épico que pudesse parar o time de Messi, Xavi e Iniesta, que conquistou uma dobradinha de UCL e La Liga.

Messi, Xavi e Iniesta, o grande trio de Pep Guaridiola

O que melhor representa o período de Pep Guardiola no Barcelona é o trio Messi, Xavi e Iniesta. Seus giros, suas ações em espaços curtos e a sua busca quase que instintiva pelo melhor passe talvez seja a expressão pura do ideal técnico do treinador espanhol.

O desenvolvimento do trio, claro, tem muito do trabalho de Pep. Xavi e Iniesta cresceram de maneira assombrosa com o modelo de jogo implantado no time catalão, que valorizava cada gesto preciso e cada decisão certa da dupla.

Não é coincidência que sob a direção de Guardiola os dois tenham saído de uma posição de titularidade esporádica no elenco do Barça para o dividir o pódio do prêmio de Melhor do Mundo com Lionel Messi.

O argentino é outro que explodiu a partir do comando do espanhol. Claro que não dá para dizer que o técnico fez de alguém com tamanho talento o melhor do mundo.

Mas a mudança de posicionamento de um ponta para um falso nove — brilhantemente narrada no livro “Guardiola: Confidencial”, de Martí Perarnau — foi o que pavimentou o caminho do argentino rumo ao topo do futebol mundial.

Iniesta, Messi e Xavii durante evento promocional da Bola de Ouro de 2010
O prêmio Bola de Ouro FIFA de 2010 foi único em que os três finalistas foram do mesmo time (Reprodução/AS)

Pep Guardiola e a transformação do Bayern

Uma briga de bastidores aliada a uma certa vontade de se provar em outros desafios fez com que Pep Guardiola fosse parar no Bayern de Munique. O clube alemão, por sua vez, buscava um novo futebol para manter o domínio europeu após a Tríplice coroa de 2013.

No Bayern, o que ficou em evidências foram os métodos do espanhol. Até porque não há como transformar o futebol de um clube na base da conversa.

Fora que não houve a “muleta” — seja para ele, seja para os críticos — de Messi, Xavi e Iniesta para aplicar suas filosofias mais facilmente em campo. No máximo um Thiago.

Os treinamentos de Guardiola, também muito bem documentados no livro de Perarnau, foram acompanhados de uma certa evolução de suas ideias.

Seja pela cultura futebolística diferente, seja pela ausência dos executores consagrados no Barcelona, o tiki-taka (expressão, aliás, odiada pelo treinador) sofreu uma espécie de “seleção natural”. Ficou só o que foi capaz de se manter dentro do nível competitivo alemão e da identidade bávara.

O falso nove, a cadência na construção das jogadas, o trabalho mais tático dos pontas, todos esses “adornos” foram testados e descartados. Ficou a compactação, a marcação por pressão, o domínio do campo de defesa do adversário e, claro, a intensa troca de de passes.

O melhor Bayern de Munique de Guardiola tinha o lateral Lahm como um volante, meias mais físicos como Vidal, Robben, Ribéry e Douglas Costa como alas ofensivos e a dupla Müller e Lewandowski recebendo um monte de bola na área.

Foi uma equipe feita sob medida para dominar e encarar os contra-ataques alemães. Um time tricampeão nacional e que depois de “pronto” só foi parado pelo trio MSN do Barça e pelos guerreiros do Atlético de Madri de Simeone, este em mais uma noite europeia de epopeia defensiva.

Guardiola deixou o Bayern como um técnico mudado e tendo transformado o futebol alemão.

Suas influências, bem expressas nos capítulos iniciais de mais de 700 passes da Seleção Alemã  — que tinha seis titulares do bávaros — na final da Copa do Mundo de 2014.

O impacto do espanhol é também visto no aprofundamento tático da geração de técnicos como Nagelsman, Tuchel. Até Klopp, que é da mesma época de Pep, desenvolveu o modelo do seu Liverpool quase como uma antítese do jogo guardiolista.

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Os recordes de Pep Guardiola no Manchester City

Guardiola chegou na Premier League com quase uma década de carreira. E encontrou um enorme impacto do seu próprio trabalho, especialmente no mercado de transferências.

Zagueiros rápidos e de bom passe, para jogar em linhas altas, já estavam valendo uma fortuna. Pontas com grande poder de finalização começavam a tomar conta dos ataques ingleses e meias mais técnicos do que físicos davam seus primeiros passes numa liga extremamente atlética.

No campo das ideias, alguns times como o Swansea, Blackpool e Brighton buscavam um jogo de passes e posses. Não é que Guardiola estivesse numa cruzada pelo futebol ideal, muito menos que seus colegas ingleses quisessem imitá-lo.

A questão é que o seu estilo de jogo oferecia soluções claras para quem quisesse aplicar um modelo de maior controle em seus times, assim como privilegiar uma formação técnica nos onze titulares.

O guardiolismo não é um dogma ou uma religião. É apenas uma maneira entre várias de se jogar futebol. Tanto é que ela foi novamente transformada a partir das características do futebol inglês e do Manchester City.

Após uma temporada penando e uma janela transferências bem cara, o time de Guardiola engrenou.

O City bicampeão inglês foi avassalador. Não se postava no campo de ataque como o Barcelona ou esmagava seus adversários como o Bayern. Mas tocava a bola de maneira veloz e fluída e de tal maneira que era quase impossível de ser marcada.

Os 100 pontos e 106 gols de 2018 e os 98 pontos e 95 gols de 2019 não deixam dúvidas disso. Muito menos a conquista quádrupla de 2018/2019.

Além do bi inglês, os azuis de Manchester faturaram a Supercopa da Inglaterra e as Copas da Inglaterra e da Liga Inglesa. Foi uma versão doméstica da mágica temporada de 2008/2009 do Barcelona. Só ficou faltando a Champions League…

Pep Guardiola, Klopp e a Liga dos Campeões

O sucesso na Inglaterra foi a consolidação de Pep Guardiola, tanto de suas virtudes quanto de seus defeitos. Entre estes últimos, o maior é, e não há como ser outro, a Liga dos Campeões.

Se os trabalhos em diferentes ambientes e escolas de futebol favorecem o espanhol nos argumentos em prol de sua capacidade de treinar e transformar times, eles também minam qualquer “desculpa” pelo insucesso europeu.

Barcelona, Bayern e City são casos diferentes entre si, mas o fato é que depois de 2011 Guardiola não alcançou sequer uma final do torneio europeu em nenhum deles. Ao contrário, as últimas “Orelhudas” erguidas pelos espanhóis e pelos alemães aconteceram sem o treinador em seus bancos.

Foto de Guardiola durante jogo da Chmapions League em 2017
O City de Guardiola nunca passou das quartas da UCL (Pascal GUYOT / AFP)

De qualquer maneira, a própria exigência de que Guardiola conquiste outra Champions League mostra o nível que ele alcançou.

Até mesmo algumas de suas derrotas são produto de suas próprias ideias. Klopp, que o venceu com o Liverpool na UCL de 2017/2018, e Pochettino, que o superou com o Tottenham em 2018/2019, usaram muitas daquelas suas soluções para um futebol mais técnico e intenso.

O que eles têm mostrado, em especial o Liverpool de Klopp mas também o Bayern de Hansi Flick e até o Real Madrid de Zidane, que talvez um time que almeje ser campeão de tudo precise ir além de uma única filosofia. A ideia é jogar como o jogo pede.

Melhor ainda. Guardiola, afinal, não está aí para ensinar ninguém. Pelo contrário, foi aprendendo tanto que foi capaz de mostrar tanto. E de se tornar um dos melhores da história.

Títulos de Pep Guardiola

Barcelona

  • Liga dos Campeões (2009, 2011)
  • Mundial de Clubes (2009, 2011)
  • Campeonato Espanhol (2009, 2010, 2011)
  • Copa do Rei (2009, 2012)
  • Supercopa da Espanha (2009, 2010, 2011)
  • Supercopa da UEFA (2009, 2011)

Bayern de Munique

  • Mundial de Clubes (2013)
  • Campeonato Alemão (2014, 2015, 2016)
  • Copa da Alemanha (2014, 2016)
  • Supercopa da UEFA (2014)

Manchester City

  • Campeonato Inglês (2018, 2019)
  • Copa da Inglaterra (2019)
  • Copa da Liga Inglesa (2018, 2019, 2020)
  • Supercopa da Inglaterra (2018, 2019)

Prêmios de Pep Guardiola

  • Treinador do Ano FIFA (2011)
  • Treinador do Time do Ano da UEFA (2009, 2010, 2012)
  • Treinador do Ano Premier League (2018, 2019)

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*Última atualização em 26 de agosto de 2020

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