Zidane, Pirlo, Gerrard e mais: conheça as ideias, os estilos e os trabalhos da nova geração de meio-campistas que viraram técnicos

No ciclo do futebol, um armador nunca deixa de organizar seu time. Se no meio de campo o faz com sua visão e movimentação, no banco de reservas usa sua inteligência e experiência. São os casos de Xavi, Pirlo, Gerrard e todos os outros nomes da nova geração de meias que viraram técnicos

Craques da última década, esses meio-campistas foram testemunhas privilegiadas das transformações técnicas e táticas do futebol nos últimos anos. Eles próprios são produtos da velocidade com essas mudanças acontecem, iniciando suas carreiras sem mal completar 40 anos.

Alguns até já assumiram cargos nos maiores clubes do mundo. Outros parecem ter a ida encaminhada aos times em que foram ídolos, fora aqueles que tomam o caminho mais tradicional, subindo a escada do futebol profissional.

São, enfim, diversos os jogadores de meio campo que viraram técnicos, e que esperam reger um time na beira de campo com a mesma naturalidade que o faziam dentro dele. Suas histórias, seus estilos e seus trabalhos você confere no texto a seguir.

Os jogadores de meio-campo que viraram técnicos

Pirlo como técnico da Juventus durante treinamento
(Reprodução/Juventus)

Não há no futebol um consenso de qual posição é ideal para que um jogador torne-se um bom treinador. Zagallo era ponta esquerda, Klopp era zagueiro, Cruyff era, bom, tudo; Bielsa e Sampaoli mal jogaram profissionalmente.

Por um tempo, chegou a se acreditar que o goleiro, pela visão que tinha do campo, teria uma vantagem ao se aposentar. Rogério Ceni até tem mostrado um potencial que justificaria a crença, mas é o único representante de sua posição na elite brasileira.

Com meio-campistas, no entanto, há o que pode se chamar de tendência. Há muitos nomes entre os grandes, dos mais antigos, como Carlo Ancelotti, aos mais recentes, como Frank Lampard.

As vantagens do meio-campista como treinador

Carlo Ancelotti melhores técnicos da Itália
Ancelotti foi campeão nacional na Alemanha, na França, na Espanha, na Inglaterra e na Itália

Ainda que exista uma vantagem léxica, isto é, de que muitos jogadores podem ser enquadrados como “meias”, há um fundo de racionalidade nisso tudo. Não que eles sejam melhores, claro, mas do porquê muitos deles se tornarem — ou terem o potencial para se tornar — grandes treinadores.

Por mais que não tenham a visão privilegiada de um goleiro ou a oportunidade de enxergar o jogo como um defensor, os meio-campistas, como defende o mestre (e ex-meia) Tostão, são aqueles em que participam de todos os momentos de uma partida.

Na mesma medida, um bom técnico é aquele que consegue armar uma equipe que tenha qualidade em todos os momentos da partida.

Nos últimos tempos essa afirmação tem maior validade. Os bons jogadores de meio concentram funções defensivas e ofensivas de igual importância. É só observar o que fazem Kevin De Bruyne, Joshua Kimmich, Paul Pogba, intensos e “totais” no campo, cada um à sua maneira.

Antes deles, as referências eram, veja só, Steven Gerrard, Andrea Pirlo, Xavi Hernández, todos que despontam como treinadores na elite do futebol mundial. Mas suas carreiras como jogadores não o fazem grandes treinadores. Pelo menos não exclusivamente.

Do meio para o banco: qualidade, preparação e conhecimento

Pirlo durante exame na academia italiana de treinadores de futebol
(Reprodução)

O que foram e o que fizeram estes meias dentro de campo serve como um balizador intelectual — influenciando o jeito que pensam o jogo e influenciando o estilo que querem suas equipes — e um reforço argumentativo de autoridade, do tipo “é assim que se faz, confia em mim” ou “jogou onde, fera?”.

No fim das contas, o “complemento” é o que acaba os diferenciando. Se somado com seus conhecimentos e experiências de cancha, são realmente inigualáveis na beira do campo.

Mas que é esse complemento? O preparo: estudo, cursos, estágios, o entendimento do jogo e do cenário do futebol atual. Aí está uma vantagem de gerações. Nunca foi tão grande a troca de conhecimento futebolístico como hoje em dia. Existem literalmente escolas de treinadores estruturadas pelas federações de futebol.

Outra vantagem de Xavi, Pirlo e cia é a convivência, o exemplo e o pioneirismo, porque não, de dois nomes importantíssimos no futebol mundial: Zinedine Zidane e Pep Guardiola.

Zidane e Guardiola, as inspirações

pep guardiola melhor tecnico do mundo

Em outro texto aqui da Esportelândia, explicamos o tamanho da importância de Pep Guardiola para o futebol mundial. Suas táticas, métodos de treino e visão são extremamente importantes para entendermos o jogo de hoje em dia.

Acontece que o espanhol impactou também a sua profissão e não só em metodologias, mas também a maneira com que é vista e o que é dela exigida. Pep, afinal, une tudo: qualidade como jogador, experiências na carreira e um preparo absurdo.

Para além do texto que produzimos aqui, são infinitos os trabalhos que mostram as inúmeras fontes da qual o treinador busca conhecimento. A série de livros de Martí Perarnau, por exemplo, mostra o quanto o espanhol se debruça intelectualmente no jogo.

Guardiola, assim, criou um precedente que, quando vemos análises de Xavi, entrevistas Gerrard ou trabalhos acadêmicos de Pirlo, enxergamos semelhanças animadoras. A esse perfil “criado” pelo técnico espanhol, soma-se outro exemplo, já um pouco mais recente: o de Zinedine Zidane.

O método Zidane de comando

zidane tecnico

Sem a mesma “obsessão intelectual” de seu colega — o que não quer dizer menor conhecimento, que fique claro — o francês repaginou o trabalho que se baseia na experiência de campo.

O incontestável tricampeonato do Real Madrid na Liga dos Campeões mostrou um técnico que não ignora táticas nem metodologias modernas de treinamento mas que privilegia o desenvolvimento individual dos atletas e principalmente o entendimento da cultura e do ambiente do clube em que está inserido.

Bem-sucedido, Zidane também criou um precedente poderoso. Não demorou muito para que, por exemplo, Frank Lampard fosse contratado pelo Chelsea, clube em que foi um dos maiores ídolos, nem para que Pirlo fosse alçado ao time principal da Juventus.

Assim, essa nova geração de meias que viraram técnicos se aproveitou não somente de seus conhecimentos de campo, de melhores condições acadêmicas como de um ambiente extremamente favorável, criado por dois dos maiores treinadores do mundo — que, ora, foram meio-campistas.

Vá além do Futebol:

Os grandes meias que viraram técnicos na europa

Imagem de Steven Gerrad como treinador do Rangers
(Reprodução)

Antes de (finalmente) falar da nova geração de meias que viraram técnicos, é importante frisar que eles ainda não são grandes em suas profissões.

Foram, sim, enormes dentro de campo, craques incontestáveis e gozam de enorme prestígio dentro do futebol. Mas ainda têm de se provar comandando do banco de reservas. Acontece que, por todos os motivos que falamos acima eles mostram enorme potencial com treinadores.

Ainda que com estilos e trajetórias diferentes, todos eles contam com grande entendimento do que é o futebol nos dias de hoje e apresentam grandes ideias para jogar bem nesse cenário.

Pirlo e Lampard, os ídolos na fogueira

Imagem de Lampard como treinador do Chelsea
(ANP Sport/Getty Images)

Dessa nova geração de jogadores de meio-campo que viraram técnicos, talvez sejam Frank Lampard e Andrea Pirlo os dois mais bem-sucedidos. Pelo menos no que diz respeito ao cargo que alcançaram.

Com apenas um ano completo de carreira Lampard começou em 2019 a treinar o Chelsea, clube em que atuou por 13 anos e onde conquistou três títulos da Premier League e outro da Champions League.

No currículo do ex-meia inglês, apenas uma temporada no Derby County, em 2018-2019, quando ficou muito perto do acesso à primeira divisão.

Tanto no Derby quanto nos Blues, Frank mostrou um estilo que combina ações modernas — como a marcação por pressão, a fluidez de laterais que viram zagueiros ou alas e a flutuação dos meias entre a armação e a marcação — com o conhecimento da intensidade do futebol inglês.

Andrea Pirlo, por sua vez, mal terminou sua formação na academia italiana de técnicos que já foi anunciado como substituto de Maurizio Sarri na Juventus para a temporada 2020-2021. Na verdade, foi primeiro contratado para treinar na base juventina, mas foi promovido em menos de dois meses ao time principal.

A aposta da direção da Velha Senhora é não no tamanho e no tempo de casa de Pirlo, que jogou por 4 anos com a camisa alvinegra e levantou quatro troféus do Campeonato Italiano, mas também por suas promissoras ideias.

O agora treinador italiano diz se inspirar nos ideais de Johan Cruyff e nos métodos de trabalho de Massimiliano Allegri e de Antonio Conte, seu comandantes no Milan e na Juve, respectivamente.

Essa “mistura” originou um modelo de jogo que busca a posse de bola e o domínio do adversário, bem ao estilo do Jogo de Posição, e com uma fluidez no desenho do time, sempre variando entre quatro e três defensores e entre dois e três atacantes.

Também está nesse bolo Mikel Arteta, o espanhol da mesma geração de Pirlo e Lampard que assumiu o comando do Arsenal em 2020. Apesar de não ter a mesma grandeza de seus colegas, é o melhor preparado, tendo sido auxiliar técnico de Pep Guardiola desde 2016 — e o primeiro a conquistar um título como treinador: a Copa da Inglaterra de 2019.

Gerrard e Xavi, as lendas esperando sua vez

Foto de Xavi como treinador no Catar
(David Borrat)

Se Pirlo e Lampard já estão em seus clubes do coração, para Xavi Hernández e Steven Gerrard parece ser uma questão de tempo.

Xavi, meia do Barcelona que conquistou tudo com Guardiola, deixou o clube catalão ainda como jogador em 2015 rumo ao Al-Sadd, no Catar. Lá, jogou por quatro anos enquanto se preparava para o desejo desde cedo manifestado de se tornar treinador.

Não tardou e em 2019 passou a comandar o próprio Al-Sadd. Absolutamente influenciado por Pep Guardiola, Johan Cruyff e pelo “barcelonismo”, Xavi impõe em seu trabalho um estilo de passe e de posse. Talvez seja mais para frente o maior representante dessa forma de jogar no futebol mundial.

Até por isso, parece claro o seu futuro no Barcelona, seja pelo desejo do clube, seja pelo desejo do treinador. A reunião ficou perto de acontecer em 2019, quando o Barça estava com o banco vago. Xavi optou por esperar e o clube foi de Quique Setién, já demitido em 2020.

Steven Gerrard não chegou a estar perto de assumir o Liverpool, clube pelo qual dedicou praticamente toda a carreira, mas também nunca esteve exatamente longe. Afinal, o início de sua carreira como treinador coincide com a vertiginosa subida dos Reds sob o comando de Jürgen Klopp.

Mas a conexão entre o ex-jogador e o clube é muito forte. O próprio Klopp disse ter Gerrard como seu substituto ideal. Fora que Stevie têm feito ótimo trabalho na nova profissão, que começou em 2018, no Rangers.

Ao mesmo tempo se desenvolvendo como técnico e reconstruindo a força do time escocês — que foi a falência em 2012 e voltou à primeira divisão em 2016 —, o ex-meia apresenta um estilo bastante similar o de Klopp no Liverpool, com ofensividade, intensidade e fluidez.

Xabi Alonso e Guti se preparam

Imagem de Xabi Alonso comandando treino
(Reprodução/AS)

Na contramão “precocidade” da maioria de seus colegas de posição e geração, Xabi Alonso e Guti fazem um caminho mais tradicional dentro da profissão.

Xabi, que brilhou por Real Madrid, Liverpool e Bayern de Munique começou a sua carreira em 2018, um ano após se aposentar, como comandante da equipe sub-14 do Real. Em 2019, subiu um degrau, assumindo o time B da Real Sociedad, clube em que foi formado.

Outro adepto da escola espanhola de passe e posse, Xabi já chama a atenção pela combinação de suas ideias com seu estilo “sereno” de comando. O presidente do Bayern, por exemplo, especulou que o ex-volante é um bom nome para os bávaros no futuro.

Guti — que agora é oficialmente José María Martínez — segue o mesmo caminho de Xabi Alonso, com a vantagem de ter começado antes: se aposentou em 2011 e em 2013 começou a treinar os juniores do Real Madrid.

Em 2018, o meia que jogou por dezesseis anos no Real, foi ser auxiliar técnico do Besiktas, time em que encerrou a carreira. Então, em 2019, passou a tomar conta do Almería. Na segundona espanhola, Guti mostra um estilo que valoriza a posse mas de maneira mais agressiva e ofensiva. Outro que tem tudo para brilhar no próprio Real no futuro.

De Gallardo a Diniz: os meias sul-americanos que viraram técnicos

Marcello Gallardo durante jogo do River Plate
(Reprodução/CONMEBOL)

Claro que a tendência de meias em se tornarem técnicos não é uma exclusividade europeia. Há na América do Sul ex-jogadores tão inteligentes e capazes quanto na Europa. Nós temos até nosso próprio Guardiola, pelo menos no que toca a transformação do perfil do treinador por aqui: Marcelo Gallardo.

El Muñeco foi um brilhante camisa 10 que somou mais dez anos atuando pelo River Plate. Aposentado em 2011 e experimentado após um ano no comando do Nacional, do Uruguai (o clube em que se aposentou), Gallardo tornou-se técnico do River em 2014, com 40 anos de idade.

De lá para cá o argentino foi simplesmente brilhante. Tem mais de 250 jogos no comando dos Millionarios e mais de dez títulos conquistados, todos vencidos com um futebol moderno, corajoso e agradável de se ver.

Seu perfil talvez tenha encorajado outros ex-meias a seguirem a carreira em sua imagem , de uma maneira ou de outra.

Fernando Diniz, por exemplo, virou técnico lá em 2008, mas foi só em 2016 que começou a despontar, depois de fazer um verdadeiro “carrossel” com o pequeno Audax. Mais para frente, vimos o frenesi que foi o começo da carreira de Ramon Menezes, que durou pouco no Vasco de 2020, mas mostrou potencial.

Thiago Motta fez sua carreira na Europa e deve fazer o mesmo como técnico. Companheiro de classe de Pirlo no curso da Federação Italiana, o ítalo-brasileiro já treinou a Genoa, em 2019, sem muito sucesso. Suas ideias, no entanto, que consideram o goleiro como um jogador de meio de campo, o devem manter no mínimo no noticiários por um tempo.

E deveremos ter mais no futuro. Há a expectativa de que Alex, ídolo de Palmeiras, Cruzeiro e Coritiba, torne-se treinador nos próximos anos, assim como seu xará que brilhou no Internacional; Felipe Melo, que segue na ativa como jogador, também pondera seus próximos passos na área técnica.

Depois de ler sobre os meio-campistas que viraram técnicos, que tal conferir outros conteúdos sobre as maiores mentes do futebol? Veja também:

*Última atualização em 5 de novembro de 2020

Comentários

Salvar
Compartilhar
Twittar
Compartilhar
WhatsApp
Pin