Algo comum entre os grandes treinadores de futebol é a maneira com que são capazes de inserir a sua personalidade no estilo de jogo de seus times. Perceba, o Manchester City é intenso e inteligente como Guardiola e o Real Madrid é elegante e confiante como Zidane. As equipes de Jürgen Klopp, por sua vez, são apaixonadas, carismáticas e multifacetadas.

O Liverpool, por exemplo, é um perigo independentemente da maneira que você decide enfrentá-lo. Contra defesas fechadas, os Reds sabem rodar a bola e pressionar. Se forem agredidos, contra-atacam de maneira mortal.

Até um antijogo eles encaram, sem fugir do contato e sem medo de mandar a bola na área. E fazem tudo sempre com muita personalidade e uma energia que só é comparável à que o seu técnico alemão despende na beira do gramado.

Dessa maneira, isto é, “comendo grama”, mas sem deixar de jogar bola, o Liverpool recuperou o seu patamar dentro dos cenários inglês e europeu.

Antes, o Borussia Dortmund fez o mesmo, saindo da beira da falência para o posto de único time capaz de rivalizar com o Bayern de Munique na Alemanha. E tinha Jürgen Klopp no banco de reservas.

O treinador não alcançou tamanha façanha só a partir de seu estilo de jogo elétrico e competitivo. Ele capitaneou uma verdadeira reestruturação interna, dando à comissão técnica e aos funcionários uma importância tão grande quanto a dos jogadores.

O foco do alemão não é somente ter um time ligado dentro de campo mas construir um ambiente e toda uma mentalidade vencedora ao redor dele. Para isso, dispôs de sua extraordinária capacidade de liderança, provavelmente a maior entre as suas habilidades.

Se utilizando de um carisma infalível e de uma inteligência que abrange esferas estratégicas, humanas e emocionais, Klopp foi capaz de reerguer dois clubes rumo ao protagonismo nacional e ao destaque internacional.

Mais do que isso, produziu equipes eternas, donas de um futebol magnético e capazes de entrar em perfeita sintonia com suas torcidas. De quebra, angariou elogios dos mais diversos personagens do mundo do futebol e a simpatia de qualquer um que, assim como ele, verdadeiramente ama o jogo.

A história de Jürgen Klopp na Alemanha

A carreira de Jürgen Klopp como treinador começou de repente. Em 2001, o então zagueiro do Mainz virou, da noite para o dia, o comandante da equipe.

Um jogador de pouca intimidade com a bola mas de enorme intelecto, Klopp foi “aposentado” por uma diretoria que via nele um bom futuro no banco de reservas. Os cartolas não poderiam estar mais corretos. Em poucos anos, o jovem técnico fez de seu jovem time uma força da segunda divisão alemã.

Não muito tempo depois, fez desse mesmo grupo um competidor internacional a partir da surpreendente vaga na Liga Europa logo no retorno ao Campeonato Alemão.

Ainda que o sonho da elite tenha terminado num rebaixamento do Mainz em 2006, o trabalho de Klopp foi o bom o suficiente para chamar a atenção de alguns dos grandes times da Bundesliga.

No livro “Klopp”, de Raphael Honigstein, há um trecho que explica exatamente o porquê do interesse do Borussia Dortmund na “revelação da prancheta”.

Os aurinegros sempre tinham enorme dificuldade em jogar em Mainz, e a capacidade do pequeno time em sobressair mesmo com um elenco inferior cativava a diretoria do clube, que vinha de uma intensa recuperação financeira e queria alguém que pudesse fazer o mesmo com um elenco igualmente limitado.

Klopp como técnico do Mainz
Klopp foi jogador do Mainz por 11 anos

A eletricidade de Jürgen Klopp e da Muralha Amarela

Depois da primeira reunião entre Jürgen Klopp a alta cúpula do Dortmund, ficou claro não só o “segredo” do desempenho do Mainz como o óbvio encaixe do treinador com o cargo que assumiria.

Para Klopp, a maneira intensa com que armava a sua equipe era, e ainda é, mais do que um capricho estético ou retórico. A eletricidade em campo era uma estratégia, digamos, holística.

A ideia era criar uma simbiose entre time e torcida. A entrega dos jogadores causava uma resposta da arquibancada, que por sua vez alimentava a equipe e assim sucessivamente. É só pensar em duas palavras para entender como o treinador era perfeito para o Dortmund: Muralha Amarela.

A montagem do Borussia Dortmund de Klopp

Mas um jogo tão idiossincrático não era possível ser feito com qualquer um, tampouco era implementado em pouco tempo. Ao longo de três anos, Klopp foi moldando o Borussia ao seu jeito.

Trabalhou lado a lado com uma rede de scouts e supervisionou praticamente todas as contratações de jogadores e de membros da comissão técnica. O intuito era captar os atletas com o talento, a capacidade física e o perfil psicológico adequado para um jogo de tamanho empenho.

Em 2008, quando assumiu o time, já tinha Hümmels e Błaszczykowski à disposição. Trouxe Şahin, Subotić, o brasileiro Felipe Santana e promoveu o lateral Marcel Schmelzer aos profissionais.  Terminou a Bundesliga em sexto.

Bender, Barrios e Großkreutz vieram em 2009 e o Dortmund foi o quinto. Então, em 2010, chegaram Piszczek, Lewandowski, Kagawa. Mario Götze foi pinçado das categorias de base. E o Dortmund de Klopp estava pronto para o rock'n'roll.

Klopp e o Futebol Rock’n’roll do Borussia Dortmund

O ponto-chave do Borussia Dortmund bicampeão alemão e vice-campeão da Liga dos Campeões era a velocidade. Os aurinegros eram velozes para formular seus ataques, para circular a bola e recuperá-la também.

Perdendo a posse, o Borussia surpreendia seus adversários com uma pressão absolutamente sufocante. Os atacantes grudavam nos zagueiros, os zagueiros grudavam nos homens de meio e os mais próximos à bola investiam na retomada.

Quando tinha a bola, o time não perdia tempo e tentava sempre ir em direção ao gol. Claro, de maneira organizada e na maioria das vezes com a bola no chão, mas sem espaço para pensar. Era o futebol rock'n'roll que Klopp gostava tanto de exaltar.

O Gegenpressing do Borussia Dortmund de Jürgen Klopp

A ideia da pressão e da velocidade, além de ter a entrega dentro de campo que retroalimentava a sintonia com a torcida, era atacar o adversário no momento em que ele estava realmente desprevenido.

Roubar a bola de um time que está formando seu contra-ataque permite não só ter a posse já bem próxima ao gol como aumenta o tempo de resposta da marcação adversária. Com todo mundo começando a se projetar para frente, até um jogador parar, retornar e acelerar, o Dortmund já fazia estrago.

O gegenpressing, como a tática era conhecida na Alemanha, mostrava que o plano de Klopp não se limitava somente ao físico ou o anímico. O treinador é, sim, um motivador de primeira linha, mas cheio de ideias para aplicar em campo.

O alemão foi um dos pioneiros dessa execução moderna do “perde-e-pressiona” no alto nível do futebol mundial, junto de Guardiola. A saída de bola fluída do Borussia também tinha um quê de vanguarda.

A flutuação do segundo volante — primeiro Şahin e depois Gündoğan — entre a linha de marcação do meio campo e a linha de criação no ataque também ditou uma tendência nos anos subsequentes na Europa. Na Copa do Mundo de 2010, a Seleção Alemã tinha Khedira fazendo justamente esse movimento.

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A liderança de Jürgen Klopp no Liverpool

Se há um lado ruim das capacidades múltiplas de Klopp como técnico é a dependência que os times apresentam da sua figura, da sua liderança.

Depois da saída do treinador, o Borussia Dortmund nunca mais alcançou o mesmo nível competitivo, ainda que se mantendo nas cabeças do futebol alemão.

Mas o conjunto da sua obra continuou muito atrativa para o mercado, especialmente o inglês, onde a intensidade no futebol é muito bem apreciada. Depois de recusar uma proposta do Manchester United, Klopp enfim assinou contrato com o Liverpool.

O alemão encontrou no clube de Merseyside o ambiente ideal para o seu trabalho, da “página em branco” que era a estrutura do futebol a relação do time com sua torcida, que causa um inebriante clima no estádio de Anfield antes de cada jogo.

O Liverpool, por sua vez, conseguiu alguém capaz de rivalizar em intelecto e personalidade com os maiores treinadores do mundo.

No fim das contas, os Reds receberam mais do que a encomenda: Klopp se mostrou inteiramente adaptado à cultura do clube e absolutamente capacitado a tocar o projeto de inovação do Fenway Sports Group.

Donos do Boston Red Sox, time de beisebol, o grupo gestor do Liverpool acreditava em decisões apoiadas em estatísticas e na construção de uma equipe vitoriosa a partir de um ambiente vencedor.

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O carisma de Klopp foi fundamental para a sua liderança no Liverpool

A construção de um time campeão

O processo de construção do Liverpool de Klopp mostra bem esse encaixe entre time e treinador. Foram pelo menos três anos selecionando jogadores, estabelecendo táticas e remodelando o departamento de futebol.

O ano de 2016, por exemplo, serviu “só” para definir o sistema-base, o 4-3-3 que depois apavorou defesas Inglaterra e mundo afora. Esse mesmo processo, por exemplo, determinou Phillipe Coutinho como “dispensável”.

Para Klopp, o brasileiro mostrou nos testes que não entregava física e animicamente o que era necessário para figurar entre os titulares. Com o camisa 10 no banco, foi mais fácil vendê-lo ao Barcelona.

O dinheiro dessa transação foi usado para trazer peças muito mais importantes ao esquema, como o goleiro Alisson e o zagueiro Van Dijk. As contratações no geral, aliás, seguiram um caminho similar ao do Borussia no começo da década de 2010, com a adição de dois out três jogadores-chave por ano.

Aí sim, com todo mundo jogando, o time de Jürgen Klopp fez valer a espera, e com grande estilo. O Liverpool emendou, em dois anos, o título da Liga dos Campeões e o da Premier League, este último encerrando uma seca de 30 anos sem a conquista nacional.

jurgen klopp liverpool
A expectativa da diretoria era que Klopp mantivesse o Liverpool na UCL regularmente

O Liverpool “camaleão” de Klopp

O Liverpool de Klopp conquistou o mundo e o encantou com o seu futebol. O estilo não é tão mágico como foi o Barcelona de Guardiola, por exemplo, mas absolutamente fantástico em sua em sua execução.

Não há uma só coisa que esse time não faça bem. Construir, contra-atacar, pressionar, cadenciar. Os Reds são camaleões, capazes de entregar exatamente o que um partida pede para ser vencida.

O meio de campo é extremamente móvel e intenso, com iguais técnicas para combater e para circular a bola. A defesa, corajosa e segura, joga lá no alto, com laterais que são os verdadeiros donos das assistências. No ataque, os talentos de Firmino, Mané e Salah falam por si só.

O trio atua com muita confiança e sem medo de tentar dribles, tabelas e outros lances diferentes. Os outros oito servem como um apoio preciso para essa ousadia.

Essa personalidade talvez seja, junto da velocidade e da intensidade, a marca do futebol dessa equipe. Ou seriam a qualidade, o carisma e a ofensividade? Independente da resposta, é um time irresistível de um técnico incrível.

Jürgen Klopp, um líder transformador

A história de Jürgen Klopp como um treinador da elite do futebol mundial tem um lado muito interessante.

Klopp não foi um craque, longe disso. Não passou por grandes times e não teve as experiências e convivências comuns ao alto escalão da bola, que normalmente contribuem para a formação de algumas das melhores mentes futebolísticas, como Zidane e Guardiola, por exemplo.

Munido de um enorme intelecto e de uma ainda maior paixão pelo jogo, o alemão foi capaz de deixar a sua marca mesmo sem ser um jogador marcante. Para tal feito, usou as ferramentas que tinha ao seu alcance, como a força de uma torcida envolvida ou a eficiência de um grupo de uma convivência bem cultivada.

Dando importância a outros envolvidos no esporte, que, como ele, não são de histórias memoráveis, mas que podem contribuir e construir projetos eternos, Klopp chegou ao topo. E não deve sair de lá tão cedo.

Títulos de Jürgen Klopp

Borussia Dortmund

  • Campeonato Alemão (2011, 2012)
  • Copa da Alemanha (2012)
  • Supercopa da Alemanha (2013, 2014)

Liverpool

  • Liga dos Campeões (2019)
  • Mundial de Clubes (2019)
  • Campeonato Inglês (2020)
  • Supercopa da UEFA (2019)

Prêmios de Jürgen Klopp

  • Treinador do Ano FIFA (2019)
  • Treinador do Ano Premier League (2020)
  • Melhor Treinador da Liga dos Campeões (2013)

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*Última atualização em 30 de agosto de 2020

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