O roteiro do Bayern de Munique ao fim da Bundesliga 2019-2020 foi o mesmo de sempre: título confirmado e uma comemoração protocolar. A ausência de torcedores no estádio deixou, sim, os jogadores mais contidos na celebração dentro de campo, mas a imagem não era lá muito diferente ao fim do jogo do título de 2019, de 2018, de 2017…

Desde que conquistou o quarto título consecutivo do Campeonato Alemão, batendo o recorde da competição, o Bayern parece entrar em campo não com a obrigação de faturar o título da liga, mas sim sabendo que irá conquistá-lo.

O time é octacampeão alemão, afinal, dobrando o recorde alcançado em 2016 e formando uma verdadeira hegemonia no futebol local. Nas redes sociais, diriam que o Bayern “quebrou” a Bundesliga.

São 29 títulos em 57 edições. Nem as conquistas dos outros três maiores campeões da era moderna da campeonato — Nuremberg , Borussia Dortmund e Schalke 04 — somadas (24) superam a sala de troféus bávara.

Depois que venceu o primeiro Alemão da sequência, o clube ainda levou cinco títulos da Copa da Alemanha e outros três da Supercopa.

Talvez a hegemonia tenha ficado ainda mais explícita nas últimas duas ou três edições da Bundesliga, em que o Bayern, em meio a uma renovação, vacilou no início, deu chances aos concorrentes, mas acabou faturando a Meisterschale mesmo assim.

Os antis alemães têm o costume de chamar isso de Bayern-Dusel, algo como “A sorte do Bayern”, mas no fundo sabem que o atual momento é fruto de um planejamento minucioso feito por pessoas competentes, ainda que com um pouquinho de sorte.

Os craques do passado e o plano de três fases do Bayern

Antes da criação da Bundesliga, o Bayern de Munique só tinha conquistado um título alemão, nos longínquos anos 30. A mudança de rumo do clube começou com um grupo de jogadores do quilate de Sepp Maier, Uli Hoeneß, Paul Breitner e liderado por ninguém menos que Franz Beckenbauer.

Essa geração deu a partida à sequência de conquistas que levou o time ao tamanho de hoje. Os quatro estavam presentes no primeiro tricampeonato dos bávaros na década de 1970 (1972-1974) — o feito se repetiu outras duas vezes antes da atual hegemonia.

Tempos depois de erguer o Bayern dentro de campo, foi a vez de fazê-lo fora de campo. Se juntando a referências mais recentes, como Rummenigge e Matthias Sammer, os craques tomaram conta da gerência do futebol do clube um pouco antes de 2010.

Apesar das “facilidades” de assumir um gigante, esse conselho de notáveis teve um feito, ora, notável: elevar ainda mais o domínio dos bávaros no futebol alemão.

Derrotas e Barcelona inspiram mudança no Bayern

Foi preciso coragem, proatividade e um pouco de inspiração para começar uma mudança num clube gigante, dono de 20 títulos alemães. E uma boa dose de pressão. Em 2009, o Wolfsburg de Grafite e Džeko chocou o país e conquistou a Bundesliga.

Ao mesmo tempo, o Barcelona de Lionel Messi e Pep Guardiola chocava o mundo com seu tiki-taka e a sua incrível tríplice coroa.

O sucesso catalão somou-se ao insucesso bávaro e a somatória resultou num planejamento minucioso da diretoria estrelada.

Conta o livro “Guardiola Confidencial” que o Bayern entendeu que a sua formação e seu estilo de jogo estavam datados e precisaria se renovar para alcançar o topo da Europa, mas sem esquecer do seu quintal, como mostrava o título do Wolfsburg.

Foi traçado então um plano de três fases, para fazer do futebol do time de Munique uma versão bávara do que era praticado em Barcelona.

O Bayern de Van Gaal e a primeira fase

O técnico escolhido para capitanear a mudança foi Louis Van Gaal. O holandês chegou em 2009 e já reformulando o elenco, liberando veteranos como Zé Roberto, Lúcio e Luca Toni.

Também trouxe talentos como Arjen Robben e deu maior espaço para crias da base do nível de Thomas Müller e Schweinsteiger, que teve a decisiva mudança de posicionamento de um meia de lado para um volante.

O Bayern de Van Gaal tocava mais a bola, era capaz de reter a posse e era escalado equilibrando bem o físico e o técnico. Era um bom time. Tanto que ganhou o Campeonato Alemão de 2009-2010 e chegou à final da Champions League, derrotado então pela “copeira” Inter de Milão de José Mourinho.

O entendimento da diretoria foi que a primeira fase do plano foi um sucesso. O estilo de jogo foi modificado, mas a equipe era um tanto previsível. Era a hora de planejar a segunda fase.

O conselho de craques só não contava com o plano de uma outra equipe, que um ano antes disso tudo tinha contratado um jovem técnico. Estamos falando do Borussia Dortmund de Jürgen Klopp.

A rivalidade Bayern x Borussia e a tríplice coroa

Os anos de Klopp no Dortmund foram como a cena punk: curta, intensa e transformadora. O primeiro título daquele Borussia, em 2011, causou a demissão de Van Gaal antes mesmo do fim da temporada.

O “futebol rock'n'roll” dos auri-negros era ameaçador e o plano da segunda fase do Bayern teve de virar ação. Veio Jupp Heynckes, que já tinha comandado o time no bicampeonato da Bundesliga no fim da década de 1980.

A missão era fazer do burocrático futebol de Van Gaal algo mais intenso, e nivelar a competição com o Dortmund. Mas é que aquele Borussia era muito bom mesmo.

O último ano de Heynckes e a Liga dos Campeões 2012-2013

A temporada 2011-2012 foi doída que só. No auge da rivalidade com o Borussia Dortmund, o Bayern foi derrotado nas quatro vezes que enfrentou o time da Muralha Amarela, incluindo um 5 a 2 na final da Copa da Alemanha, a maior derrota em finais da história clube.

Teve ainda aquele 1 a 0 em Dortmund que sacramentou o bicampeonato da equipe de Klopp, com direito a pipocada do Robben e uma provocada monstra do zagueiro Subotic.

Para completar, teve a final da Liga dos Campeões 2011-2012, em que o Bayern abriu o placar, foi melhor o jogo todo, mas tomou um gol de escanteio no final e depois perdeu nos pênaltis. Em plena Allianz Arena.

O baque da derrota, e de todo o ano, aliás, foi tão grande que o técnico Jupp Heynckes decidiu se aposentar ao fim da temporada seguinte.

Tudo bem, os craques da diretoria já começavam a negociar com ninguém menos que Pep Guardiola — o acordo foi inclusive vazado seis meses depois, em janeiro de 2013, com Heynckes ainda no cargo.

Lembra daquela história da segunda fase? Pois é, ela deu certo. Muito certo. Antes mesmo do acerto com Guardiola sair na mídia, o Bayern tinha iniciado uma sequência invicta na Bundesliga que começou na nona rodada e só terminaria na 29º rodada. Do campeonato seguinte.

Logo depois do anúncio, inclusive, os comandados de Heynckes emendaram 14 vitórias consecutivas.

Tanto sucesso dentro de campo culminou em nada menos que a histórica tríplice coroa, com títulos da Copa da Alemanha (eliminando o Dortmund nas quartas), da Champions League (vencido contra o Dortmund, com gol de Robben) e do Campeonato Alemão (advinha o vice?), o primeiro do atual octocampeonato.

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Pep Guardiola e o tetra inédito do Bayern na Bundesliga

Então, no ápice da sua gestão, a diretoria do Bayern fez a sua maior transformação. Pep Guardiola começou seu trabalho no segundo semestre de 2013 e transformou o time para além do seu famoso estilo de jogo.

O espanhol comandou sua revolução atualizando toda a preparação dos bávaros, interligando métodos de treino, preparação física e nutrição.

As sessões de treinamento eram curtas e intensas, o preparo todo voltado à bola e a alimentação extremamente controlada, enfim, tudo o que hoje é considerado obrigatório para um clube de alto nível.

O resultado ficou bem claro logo com dois meses de trabalho, no baile aplicado no Manchester City, na fase de grupos da Champions League:

No fim, Pep só não mexeu na atuação do time no mercado. Nisso, o Bayern já tinha se antecipado, fazendo sua contratação mais cara com Javi Martínez (€40 mi) e tirando Mario Götze do Borussia Dortmund.

Foi nessa que o clube retomou a sua ação predatória no mercado alemão. Vale lembrar que a mesma estratégia já tinha acontecido com a transferência de Lottar Mathäus no fim dos anos 80.

O volante alemão, eleito Melhor do Mundo em 1990, foi captado diretamente do Borussia Monchengladbach, o grande rival dos bávaros na época e dono do outro tricampeonato da Bundesliga.

A terceira fase e o recorde da Bundesliga

Pep Guardiola conduziu com maestria a terceira fase do plano de Sepp Maier, Paul Breitner, Rummenigge e cia. Entre 2013 e 2016, o Bayern de Munique foi uma legítima versão bávara do Barcelona, com bola no chão, troca de posições e muita intensidade. Um time histórico.

Em 2013-2014, conquistou a Bundesliga na 27ª rodada, o título mais rápido da história da competição. Por pouco não foi invicto, sendo duas derrotas e a primeira só na 29ª rodada.

O tricampeonato de 2014-2015, o quarto da história do Bayern, veio a galope. E com requintes de crueldade, tirando Robert Lewandowski, o artilheiro do ano anterior, do Borussia Dortmund.

Se a transferência do atacante polonês influenciou diretamente é outra história, mas o fato é que os aurinegros terminaram na sétima colocação e que Jürgen Klopp saiu do comando do time ao fim da temporada.

Em 2015-2016, o tetracampeonato tinha cara de momento histórico. Sim, o recorde de títulos consecutivos foi batido, mas a comemoração, a campanha — só diferente em um empate do título de 2013-2014 —, enfim, tudo parecia ser um ponto irreversível. Tanto que o recorde foi batido sucessivamente depois disso.

O fracasso na Champions League e um novo Bayern no mercado

Algo que parece padrão das recentes hegemonias nacionais é fracasso internacional. É só olhar para Juventus e PSG, com iguais domínios nos seus países, mas nenhuma vitória sequer na Liga dos Campeões.

A Juventus até chegou mais perto, alcançando duas finais, mas não foi páreo para Barcelona e Real Madrid. Curiosamente, foram os mesmos que acabaram com o sonho europeu de Bayern e Guardiola, o que, considerando a carreira do espanhol, chega a ser irônico.

Teve ainda o Atlético de Madrid, no último ano de Pep na Alemanha, na partida em que os bávaros bateram o recorde de finalizações num jogo de mata-mata da Champions League.

A eliminação para o time de Simeone foi certamente a mais cruel, já que o Real de Cristiano Ronaldo, em 2014, e o Barça de Messi, Neymar e Suárez, em 2015, pareciam destinados aos seus respectivos títulos.

O insucesso no torneio europeu não foi o único motivo, mas foi sim decisivo para a saída de Guardiola do Bayern de Munique, ao fim da temporada 2015-2016. Tanto que para o lugar do espanhol foi trazido o técnico Carlo Ancelotti, tricampeão da UCL.

Elenco renovado e a hegemonia do Bayern de Munique

Ancelotti acabou sendo uma última cartada do Bayern para a conquista de um título europeu.

O italiano não fez um mau trabalho, pelo contrário, conduzindo o time ao pentacampeonato alemão, com uma campanha que não ficou devendo em nada aos anos de Guardiola, pelos menos nos resultados.

Na Champions League, porém, mais do mesmo. Na edição de 2016-2017, o clube de Munique caiu mais uma vez para o Real; na edição de 2017-2018, uma derrota por 3 a 0 para o PSG, ainda na fase de grupos, derrubou Ancelotti, que já vinha de um começo ruim na Bundesliga.

Ao mesmo tempo em que falhava no projeto europeu, o Bayern viu os seus concorrentes se fortalecerem financeiramente.

Os negócios bilionários pelos direitos de transmissão da Premier League e da La Liga fortaleceram ainda mais seus rivais continentais e fez o clube alemão traçar uma nova rota,  se adaptando à nova realidade.

Renovação e títulos ganhos “na marra”

O jeito foi voltar as atenções ao projeto de renovação do elenco que vinha caminhando desde o último ano de Guardiola.

Naquela temporada (2015-2016), o Bayern já estava de olho nos substitutos de Robben, Ribery e Lahm, e trouxera Coman (20 anos), Douglas Costa (26) e Kimmich (21), para os seus lugares, respectivamente.

Em 2017-2018, foi a vez do zagueiro Süle (22), o volante Tolisso (23) e do meia James Rodríguez (26) chegarem, antevendo as saídas e/ou o envelhecimento de Hummels — que chegou em 2016 em mais um negócio entre Dortmund e Bayern —, Thiago e Thomas Müller.

Talvez na empolgação, os bávaros trouxeram também um jovem técnico para o lugar de Ancelotti,  Niko Kovac. O croata justificou o cargo assim que chegou, comandando uma arrancada que terminou no hexa do Campeonato Alemão e nas semis da Liga dos Campeões.

O título nacional foi a primeira das recentes conquistas “na marra” do Bayern de Munique, que passou a vacilar na largada da Bundesliga, mas reencontrar a liderança nos momentos decisivos da competição.

Talvez por isso mesmo que o clube tenha se sentido mais confortável em intensificar a renovação do time.

Em 2018-2019, Kimmich e Süle já faziam parte da rotação dos titulares, e Coman e Tolisso eram as primeiras opções de banco. Entre os reforços, vieram o lateral-esquerdo Davies, o meia Goretzka e o atacante Gnabry, todos abaixo dos 23 anos na época de sua chegada.

No Campeonato Alemão, o Bayern só assumiu a liderança na 26ª rodada, seguindo invicto até o hepta. Na UCL, a eliminação para o Liverpool, campeão daquela edição, nem foi tão comentada assim, mas influenciou o planejamento para o ano seguinte.

Bayern octocampeão abre o bolso

Sentindo que o caminho com os jovens era certo, mas que o mercado pedia maiores investimentos, o Bayern tirou o escorpião do bolso — aportado pelos novos e ótimos valores da venda de direitos de transmissão da Bundesliga.

Vale lembrar que até então, o time da Baviera sempre foi mais inteligente do que gastão no mercado, buscando jogadores em fim de contrato, como foi o caso de Lewandowski e de Goretzka, e bons negócios, como Gnabry e Kimmich, ambos contratados por menos de 8 milhões de euros cada.

A gestão de finanças e investimentos do Bayern é inclusive um dos principais motivos para o domínio nacional. Para uma contratação acontecer, por exemplo, é necessária antes a aprovação dos sócios.

Sim, o clube fatura mais que seus rivais em patrocínios e ações da bolsa de valores, mas a distribuição das bilionárias cotas de TV é bem justa e equilibrada na Alemanha.

A última fase da renovação

Então, no começo da temporada 2019-2020, o Bayern bateu mais uma vez seu recorde de transferências, pagando 80 milhões de euros no defensor Lucas Hernández, campeão do mundo com a França em 2018.

Depois, pagou mais 50 milhões numa outra dobradinha francesa, no lateral Pavard, também campeão da Copa do Mundo da Rússia, e no meia Cuisance.

O trio cumpre os requisitos do novo perfil do elenco do Bayern de Munique, recheado de jovens versáteis e igualmente técnicos e potentes fisicamente. Para você ter uma noção, a atual média de idade bávara está abaixo dos 25 anos.

Hernández e Pavard têm 23 anos e podem atuar em qualquer uma das quatro posições da defesa, e Cuisance (20 anos) faz qualquer função do setor do meio-campo.

Eles se juntaram a Goretzka (25), um meio-campista completo, Gnabry (25), que joga em todos os lugares do ataque, e Kimmich (25), que, bom, faz de tudo um pouco pelo campo inteiro.

Com o grupo pronto, só faltava mesmo um técnico que desse conta. Kovac, pressionado desde a derrota para o Liverpool, foi demitido após um sonoro 5 a 1 sofrido diante do Eintracht Frankfurt.

Veio Hans Flick, auxiliar técnico de Joachim Löw na seleção alemã entre 2006 e 2014. Um cara jovem como Kovac (ambos na casa dos 40) e muito mais identificado com o projeto e o estilo que os bávaros querem dentro de campo.

Flick assumiu na sequência do 5 a 1, com o time em 4º, e advinha? Isso mesmo, arrancada e título alemão, o octocampeonato consecutivo, com direito a campanha 100% desde o retorno da competição, pausada por conta da pandemia.

Com o recorde da Bundesliga dobrado e um elenco completamente renovado nesse meio tempo, o Bayern de Munique mostrou não só a competência para formar uma hegemonia, mas a visão para mantê-la por anos a fio. E tem ainda a Champions League por vir…

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*Última atualização no dia 22 de julho de 2020