A volta do futebol pós-pandemia criou um ambiente de emoções mistas. Sem a torcida, grandes momentos parecem passar despercebidos, faltando aquela boa e velha validação da arquibancada. Ninguém estava lá para ver, por exemplo, quando Gianluigi Buffon se tornou o jogador que mais atuou no Campeonato Italiano.

Na goleada contra a rival Torino, o goleiro completou 648 jogos na Serie A, ultrapassando Paolo Maldini, o lendário defensor do Milan. O recorde se somou a outros feitos impressionantes de Buffon.

“Gigi” é também o jogador italiano que mais atuou por clubes, indo para mais de 900 jogos; foi quem mais atuou pela Juve no Campeonato Italiano (480 jogos) e na Champions League (115); quem mais jogou na Seleção Italiana (176 jogos) e o 4º no ranking de número de jogos por seleções nacionais.

É também o recordista em jogos sem sofrer gols (21), minutos sem ser vazado (971) e títulos (10), tudo no Italiano. Até agora, são 25 títulos em 25 anos no futebol profissional.

Essa coleção de números mostra não só a longevidade de uma carreira de mais de mil jogos, mas a capacidade de um atleta em se manter em alto nível.

Mas Buffon não foi só um atleta. Foi uma referência na sua posição, uma lenda na sua seleção e no seu clube. Com eles, esteve nos pontos mais altos e nos momentos mais complicados, pronto para defendê-los, do jeito que fosse.

O começo do Buffon e aquele Parma dos anos 90

Quando falamos da carreira de Buffon em alto nível, não é uma generalização. O goleiro já impressionava por seu nível de atuação desde sua estreia.

Com só 17 anos, assumiu a bucha do gol do Parma, clube que o revelou. E bota bucha nisso. Sua estreia foi numa partida contra o Mlian de Roberto Baggio e George Weah.

Veja só, isso foi em 1995, dois anos depois do meia italiano ter sido eleito Melhor do Mundo e um ano depois de ser vice-campeão do Mundo. Naquele mesmo ano, seria indicado novamente ao prêmio da FIFA. Em 1996, seria a vez do liberiano Weah de ser o Melhor do Mundo.

E o jogo terminou em 0 a 0. Que coisa. Dino Zoff, o lendário goleiro italiano, que parou Zico, Sócrates e Falcão e conquistou a Copa do Mundo de 1982, disse que “nunca tinha visto uma estreia como aquela, com tamanha personalidade e qualidade”.

Naquele 1995, Buffon jogaria mais oito jogos do Campeonato Italiano, sendo derrotado somente duas vezes, e assumiria a titularidade de vez na temporada 1996-97, na oitava rodada da competição.

Dali em diante, arrebentou com a camisa do Parma. Segurou 15 de 27 jogos sem sofrer gols em 1997. Seu time terminou o ano como vice-campeão da Serie A, e ele, como estreante na Azurra.

Buffon manteve o nível na temporada 1997-98, sem nenhum título ou grande campanha, mas sofrendo só 46 gols em 46 jogos. A média de um gol por jogo era especialmente importante para uma equipe com um ataque poderoso, em que despontava um jovem Hernán Crespo.

Então, houve o histórico 1998-99 do Parma, quando ganhou a Copa da Uefa, a Copa da Itália e ainda ficou em 4º no Campeonato Italiano. Buffon terminou o ano com mais partidas disputadas que gols sofridos e foi eleito o Melhor Goleiro do país.

O feito certamente chamou a atenção da Juventus, campeã Italiana de 1999. Dois anos mais tarde, depois de Buffon manter uma média de 11 jogos sem sofrer gols na Serie A e levar mais um prêmio de Melhor Goleiro (2001), a Velha Senhora acertou a sua contratação.

Com os bolsos cheios depois venda recorde de Zinedine Zidane para o Real Madrid, a Juve não mediu esforços e pagou 53 milhões de euros no jovem de 23 anos. O valor é até hoje um dos maiores a serem pagos por um goleiro.

As defesas e os títulos de Buffon na Juventus

No inflacionado mercado da bola de hoje, é comum o debate sobre a pressão que uma transferência de centenas de milhões de reais pode ter sobre um jogador. Isso é realmente um debate de hoje, porque, na época, Buffon não pareceu sentir absolutamente nada.

Logo na primeira temporada do goleiro em Turim, a Juventus foi campeã italiana, batendo a poderosa Roma do início do século XXI, de Cafu, Totti e Batistuta. Buffon foi mais uma vez eleito o Melhor Goleiro da Itália.

A carreira de Gigi parecia um foguete. No ano seguinte, o bicampeonato italiano e mais um prêmio de Melhor Goleiro. Domínio nacional. No âmbito internacional, foi premiado não como o melhor em sua posição, mas o melhor jogador em todo o continente europeu, na eleição da UEFA de 2002-03.

A premiação levou em conta o incrível desempenho do goleiro da Juventus na Champions League. Buffon pegou tudo durante o jogo, e mais duas cobranças na disputa de pênaltis, mas mesmo assim o rival Milan levou a taça.

Juve e Buffon retomaram o caminho dos títulos só na outra temporada, a de 2004-2005. Nela, sob o comando do calculista Fabio Capello, o time faturou outro scudetto e mais uma vez o seu goleiro foi o melhor da posição no campeonato, dessa vez somando 20 jogos sem sofrer gols, um recorde batido só por ele mesmo oito anos depois.

O louco ano de Buffon em 2006: bicampeão, dono do mundo e rebaixado

O ano de 2006 foi de longe o ano mais agitado e o mais maluco na vida de Buffon. Veja só: em junho ele embarcava para a Alemanha mais uma vez como bicampeão italiano.

No Mundial, entrou no seleto grupo de goleiros que ficaram cinco jogos do torneio sem sofrer gols — e que só não ficou o recorde de seis jogos por conta daquela cavadinha do Zidane — e marcou seu nome na história com o título da Copa do Mundo.

Exatamente uma semana depois, enquanto o vinho abundava e a macarronada não tinha fim na família Buffon, chega a notícia: Juventus rebaixada.

Por conta do escândalo de manipulação de resultados do Campeonato Italiano, o chamado Calciopoli, Juventus, Fiorentina e Lazio foram rebaixadas, e o Milan começou a temporada 2006-2007 fora da Liga dos Campeões e com 30 pontos negativos na Serie A. A Juve teve ainda o bicampeonato retirado.

A notícia foi um duro golpe para Buffon, mas também uma oportunidade de demonstrar a sua lealdade. Se Cannavaro, Thuram, Zambrotta e cia abandonaram o barco, ele e Del Piero ficaram.

Esse tipo de ato não é esquecido tão fácil, e se ambos eram ídolos antes, depois dali pavimentaram o caminho para se tornarem lendas. Não à toa são os dois jogadores que mais atuaram na Juventus.

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Buffon e a dinastia da Juventus

Depois de passar pela Segundona do Italiano com as mãos nas costas, a Juve começou a sua reconstrução. Entre o penta da Internazionale (2006-2010) e aquele Milan de Ibrahimovic, Robinho e Thiago Silva, o time pegou um vice-campeonato em 2008, ano em que Buffon beliscou mais um prêmio de Melhor Goleiro da Itália.

Então, com as contas em dia, uma base montada e a chegada do “faminto” Antonio Conte no banco de reservas, a Juventus começou a sua dinastia. A nova fase foi muito bem-vinda para Buffon, se recuperando do vexame da Copa do Mundo de 2010, em que a Itália foi eliminada na fase de grupos.

Desde então, são nove scudettos consecutivos, três Supercopas da Itália e outros 4 títulos da Copa da Itália entre 2011 e 2019. Nesse período, Buffon levou oito prêmios de Melhor Goleiro, sendo 3 da UEFA.

Em 2012 e depois em 2016, bateu o próprio recorde de jogos sem sofrer gols no Campeonato Italiano, chegando em 21 nesses dois anos. Em 2016, aliás, bateu o recorde de Dino Zoff e chegou a 974 minutos sem sofrer gols na liga.

Com o domínio nacional, o projeto da Velha Senhora começou a se voltar para a Europa. Buffon adorou. Afinal, o único título da Champions League é o único que não conquistou por clubes.

Por seleções, ficou faltando a Eurocopa. A Azzura chegou perto naquele vice de 2012, mas aquela Espanha de Iniesta e Xavi parecia realmente imbatível.

Em 2015, mesmo batendo o Real Madrid nas semis, o vice era um tanto inevitável. O rival era o “só” o Barcelona do trio MSN. Já em 2017, tudo era possível, e por isso mesmo que a derrota para o Real Madrid foi tão dolorosa.

O ano de 2017 de Buffon e obsessão pela Champions

Dá para colocar a temporada de 2016-17 como uma das três melhores da carreira de Buffon. Com aquela tradicional combinação de goleiros veteranos, de experiência com um nível físico ainda bastante interessante, o vecchio Gigi pegou tudo e mais um pouco.

Não bateu nenhum recorde de desempenho como nas temporadas anteriores, mas liderou uma Juventus que ganhou o Campeonato Italiano e a Copa da Itália, além do já citado vice da Liga dos Campeões.

Naquela altura, com 37 anos, já começava a se falar em aposentadoria. O próprio Buffon admitiu que isso poderia acontecer, caso conquistasse a UCL.

Com essa energia e vibração, Gigi levou os prêmios de Melhor Goleiro da Itália e da Europa, levou o inédito título de Melhor Goleiro do Mundo, do renovado FIFA Best e ainda ficou em 4º na corrida do Melhor do Mundo. Só ficou faltando mesmo a “orelhuda”.

No ano seguinte, talvez um tanto desgastado, anunciou que não renovaria o contrato com a Juventus e que provavelmente se aposentaria. Com mais uma dobradinha da Serie A e da Copa da Itália, os jogos do fim da temporada tinham um ar nostálgico de despedida.

Mas aí veio o Real Madrid, mais uma vez. No jogo de volta quartas de final da Liga dos Campeões, a Juve se recuperava de um 3 a 0 sofrido na Espanha e caminhava para uma disputa de pênaltis com todo o Juventus Stadium a seu favor.

O pênalti para o Real nos acréscimos foi tão anticlimático que o próprio estádio não parecia acreditar. É possível que ali mesmo que Buffon tenha decidido que não poderia terminar assim.

Buffon surpreende no PSG, mas volta

Em defesa de Buffon, o goleiro não tinha necessariamente confirmado a aposentadoria. E o obsessivo projeto do PSG com a Champions League o atraiu. A proposta era boa: um salário altíssimo, um time forte, com Neymar, Mbappe e cia e a responsabilidade de jogar somente na competição europeia.

É possível também que a dor das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018 o tenha motivado a mudar de ares. Sofrendo com uma entressafra daquelas, a Azzura foi para a repescagem e caiu diante da Suécia.

Na França, tudo parecia mais tranquilo. Com muitos talentos na frente, o PSG conseguiu liderar o “grupo da morte” da Champions League 2018-2019, que tinha Liverpool e Napoli. Buffon — e todo o PSG, na verdade — só não contava com a camisa pesada do Manchester United, que, desfalcado, conseguiu superar os franceses nas oitavas.

Já cicatrizado das feridas Europeias e um tanto entediado pelo fim de temporada de um PSG campeão francês com muitas rodadas de antecedência, Gigi voltou para a casa, e anunciou um contrato de um ano com a Juventus.

O retorno à Itália foi já em novos termos, como um reserva de luxo do polonês Szczęsny e uma voz experiente no elenco. Poder ser companheiro Cristiano Ronaldo, seu grande carrasco nos últimos anos, também ajudou na decisão da volta.

Mas vencer a Champions League não parece ser mais o grande objetivo de Buffon. Em 2021, o goleiro decidiu retornar para onde tudo começou, no Parma. A equipe hoje ocupa a segunda divisão do Campeonato Italiano, na temporada 2022/23, o time chegou aos playoffs, mas terminou sendo eliminado para o Cagliari.

No ano de 2023, aos 45 anos, Buffon decidiu se aposentar do futebol. Ao todo, foram 1151 partidas como profissional, sendo que 685 foram defendendo as cores da Juventus, 265 pelo Parma e 25 pelo PSG.

Além disso, pela camisa da seleção italiana, Buffon defendeu a Azurra em 176 ocasiões. Agora, o ex-goleiro vai ter um novo desafio pela frente: ser o chefe de delegação da seleção na Federação Italiana de Futebol.

Vou voltar para a seleção. Aquela criança que atravessou o portão de Coverciano pela primeira vez há trinta anos ainda quer sonhar e viver esse sonho junto com os torcedores italianos, afirmou Buffon em declaração divulgada pela federação italiana em seu site oficial.

A camisa da Azzurra sempre fez parte da minha vida: vesti com orgulho e honrei com empenho. Chorei quando ganhamos a Copa do Mundo e quando não conseguimos a classificação, completou Buffon.

Buffon: times, títulos e prêmios

Times

  • Parma (1995-2001)
  • Juventus (2001-2018; 2019-2021)
  • PSG (2018-2019)
  • Parma (2021- 2023)

Títulos

  • Copa do Mundo (2006)
  • Campeonato Italiano (2002, 2003, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2020)
  • Copa da UEFA (1999)
  • Copa da Itália (1999, 2015, 2016, 2017, 2018, 2021)
  • Supercopa da Itália (1999, 2002, 2003, 2012, 2013, 2015, 2021)
  • Campeonato Italiano – Série B (2007)
  • Campeonato Francês (2019)
  • Supercopa da França (2018)

Prêmios

  • Melhor Goleiro do Mundo (2017)
  • Melhor Jogador da Europa (2003)
  • Melhor Goleiro da Itália (1999, 2001, 2002, 2003, 2005, 2006, 2008, 2012, 2014, 2015, 2016, 2017)
  • Melhor Goleiro da Europa (2003, 2016, 2017)

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*Última atualização em 07 de agosto de 2023