Entenda a academia italiana de técnicos de futebol: os métodos, as ideias e os principais alunos da escola da federação italiana

Quando Andrea Pirlo foi, apenas uma semana depois de anunciado como treinador do time  de juvenis da Juventus, alçado ao comando da equipe principal da Velha Senhora, havia apenas um item em seu currículo de “professor”: a academia italiana de técnicos de futebol.

Conhecida pelo nome do bairro da cidade de Florença que a sedia — Coverciano — a instituição é a única em toda a Itália que pode emitir o certificado UEFA Pro, necessário para qualquer um que deseja treinar equipes das duas primeiras divisões do Calcio.

Mais do que o monopólio da capacitação profissional dos misters e donnas, a escola italiana de treinadores de futebol é uma referência também por operar sob um método de ensino diferenciado, progressista, quase freireano.

Coração do centro técnico da federação italiana, Coverciano exerce um trabalho fundamental para entender não só o comando de Pirlo na Juventus como todo o sucesso continental e mundial dos treinadores da Velha Bota nas últimas décadas.

De Sacchi a Sarri, de Ancelotti a Conte, todo bom Mister foi verdadeiramente moldado pela academia italiana de técnicos de futebol. Depois de ler o texto abaixo, você vai entender o porquê.

O centro técnico da federação italiana

Foto do Centro Técnico da Federação Italiana
Elegância e inovação em Coverciano (Reprodução)

Nos anos 1950, o condecorado soldado do exército italiano Luigi Ridolfi tinha uma visão: elevar o futebol do seu país a um esporte de alto nível.

Sim, a Azzurra já era naquela altura bicampeã da Copa do Mundo. Simultaneamente presidente da Associação Italiana de Atletismo e vice-presidente da Federação Italiana de Futebol, Ridolfi viu de perto as diferenças na condução da milenar atividade e do esporte bretão.

O dirigente enxergava na multiplicidade do atletismo — de corridas, saltos e arremessos — o caminho para a evolução do futebol. Por isso que, quando comprou na Florença um terreno receber o novo CT da Federação Italiana, Randolfi o idealizou como um centro polidesportivo.

A ideia era que a convivência com profissionais do nado, do atletismo e demais áreas fizesse com que as mentes responsáveis pelo futebol italiano — que teriam uma escola própria para a sua formação — evoluíssem naturalmente seus métodos, seus treinos, suas ideias.

Décadas depois, a integração permanece. Nos dias de hoje, ao entrar no centro técnico da Federação Italiana, é preciso passar primeiro por uma piscina e por duas quadras de tênis antes de finalmente enxergar um campo de futebol, que é cercado por uma pista de corrida.

Atualmente o calcio é disparado o esporte predominante em Coverciano. O ideal, porém, de troca de conhecimento, de inovação, de evolução constante permanece como conhecimento pedagógico, na forma de método de ensino. Os alunos? Os futuros treinadores italianos.

A escola italiana de treinadores de futebol

Carlo Ancelotti melhores técnicos da Itália
Ancelotti foi campeão nacional na Alemanha, na França, na Espanha, na Inglaterra e na Itália

Por um ano, Andrea Pirlo, Thiago Motta, Gabriel Batistuta e toda a turma de 2019 iam duas vezes por semana à Florença para cumprir o conteúdo programático da academia italiana de técnicos de futebol.

Nos cinco dias restantes eles, assim como fizeram os membros das as outras mais de sessenta turmas antes deles, iam buscar conhecimento à sua maneira. Estágios, análise de jogos, tour de treinos, o que fosse necessário para atender as demandas de Coverciano.

Entre essas demandas, dois testes ao final do curso: uma prova de conhecimentos específicos e a defesa de uma tese, a ser escrita durante esse ano de vai e vem florentino.

É justamente a produção acadêmica (ainda que não academicista) o grande diferencial do curso da escola italiana de treinadores de futebol. Ela consegue resumir todo o intuito do método de ensino e todo o teor ideológico da pedagogia coverciana.

O tema dos “TCCs” é absolutamente livre dentro do universo do futebol. Antonio Conte detalhou o sistema “4-3-1-2” e Spaletti o “3-5-2”; Carlo Ancelotti ensaiou a necessidade de maior dinamismo dentro de campo e Fabio Capello destrinchou a marcação por zona.

Na verdade, há duas regras — a proibição de duas expressões, para ser mais exato: “no meu tempo” e “o meu futebol”. Mais do que meros caprichos, as limitações estão no âmago do ideal inovador curso, pensado desde a época de Luigi Ridolfi.

Vá além do Futebol:

A pedagogia da escola italiana de técnicos

Aula de Renzo Ulivieri na Academia Italiana de treinadores de futebol
O ex-treinador Renzo Ulivieri é a mente por trás da pedagogia atual de Coverciano (Reprodução/FIGC)

Se o antigo dirigente queria que o intercâmbio entre esportes auxiliasse a capacitação dos boleiros, os professores de hoje querem que a troca entre aspirantes a treinadores seja a principal ferramenta de seu aprendizado.

Para tal, a informação tem de ser livre e o ensino, dinâmico. Apesar de uma vasta biblioteca disponível — inclusive com todas as teses dos antigos alunos —, não há livros obrigatórios. A explicação é que, no momento em que são publicados, eles já são “ultrapassados”.

Tudo o que é ensinado — debatido talvez seja uma melhor definição — se comunica com o que se faz e com o que provavelmente será feito nos anos seguintes. Os trabalhos de Ancelotti e de Capello, de temas bastante atuais, são dos anos oitenta, para se ter noção.

Os métodos da escola italiana de técnicos

Assim, falar “no meu tempo” não faz sentido algum. O “meu futebol” também não: o estímulo do curso é maior, para não dizer completo, à busca de respostas e soluções do que ao da absorção de ideais ou filosofias.

Em outros termos, a escola italiana de treinadores de futebol não busca formar “bielsistas” ou “cruyffistas”, sequer “sarristas” ou “ancelistas”. Tudo é pensado para capacitar e “libertar” o aluno. Daí que chamamos o ensino em Coverciano de baseado em Paulo Freire.

O melhor exemplo para ilustrar essa metodologia é a maneira como são feitos os exercícios de análise.

A partir de um VT, dois alunos são separados e designados como treinadores de cada time da partida exibida. De 15 em 15 minutos, o professor pausa a reprodução para perguntar a cada um dos adversários o que fariam, o que e se mudariam e como executariam essa ideia.

Claro que esse exercício denota uma interpretação específica do futebol, a de maior dinâmica, de flexibilização de formações, sistemas e esquemas. Mas isso não é necessariamente escondido ou mesmo problemático. O próprio Paulo Freire defendia esse criticismo na educação.

Andrea Pirlo e a nova geração de treinadores italianos

Pirlo como técnico da Juventus durante treinamento
Na Juventus, Pirlo substituiu Maurizio Sarri, seu “veterano de curso”(Reprodução/Juventus)

Se as revoluções de Arrigo Sacchi, Fabio Capello e Carlo Ancelotti serviram como referência e os títulos de Maurizio Sarri e Antonio Conte na Inglaterra renovaram a fama — sem falar da brilhante Atalanta de Gian Pero Gasperini—, o trabalho de Andrea Pirlo na Juventus será o mais recente bastião da academia italiana de treinadores de futebol.

As condições com a qual o ex-volante assumiu a Velha Senhora — um reconhecido entendedor do jogo mas um completo inexperiente no banco de reservas — deixarão em evidência qual é exatamente o nível de capacitação de Coverciano.

Não que a escola italiana de treinadores tenha a obrigação de preparar pessoas para ter absoluto sucesso em seus primeiros anos. É que com Pirlo será mais fácil de visualizar qual o peso da sua pedagogia na formação dos técnicos do futuro.

As ideias de Pirlo na Juventus

As ideias do “Maestro“, pelo menos, já sabemos. A Federação Italiana disponibilizou a tese do campeão do mundo de 2006 (que foi traduzida e resumida aqui). Nelas, podemos ver tantos as marcas do curso como a assinatura do aluno.

Pirlo, como um bom armador que era, quer montar times proativos e ofensivos, com uma criação paciente, com a saída de bola pensada e preferencialmente pelo meio, para aumentar as possibilidades de jogadas e, de quebra, a indecisão da marcação.

Como bom aluno de Coverciano, ele descreve nas páginas as soluções e ideias por trás do chamado Jogo de Posição — modelo de jogo de domínio da posse e dos espaços, com técnicas de treino, metodologias de posicionamento e de gestos técnicos de certa forma preestabelecidos — sem citá-lo diretamente.

Ele fala de usar a posição da bola como referencial para a criação de espaços, da hierarquia das posições e do trabalho para que a bola chegue a elas e não o contrário, até da liberdade criativa nas últimas porções do campo antes do gol adversários.

O seu jogo, porém, não pretende ser guardiolista, cruyffista ou barcelonista. Quer ser dinâmico, fluído, inteligente. O jogo de Andrea Pirlo, enfim. De mais um aluno da academia italiana de treinadores de futebol.

Depois de ler sobre a grande Academia de Técnicos Italianos, que tal conferir outros conteúdos sobre as maiores mentes do futebol? Veja também:

*Última atualização em 19 de outubro de 2020

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