Entenda como a Mercedes construiu uma hegemonia na F1: a estrutura, o novo motor e os papéis de Toto Wolff, Lauda e Lewis Hamilton

A temporada de 2019 serviu para acabar com qualquer dúvida sobre a hegemonia da Mercedes na Fórmula 1.

Os seis títulos da montadora igualaram o indiscutível domínio da Ferrari entre o fim da década de 1990 e meados dos anos 2000, e o hexa de Lewis Hamilton fez da escuderia a recordista em conquistas consecutivas de seus pilotos.

Hamilton, inclusive, alcançou em 2019 o panteão de Michael Schumacher e agora acelera ruma à ultrapassagem dos recordes do alemão.

A Mercedes deve muito do seu momento ao piloto inglês, mas também tem muitos méritos nesse processo, incluindo a contratação em si do agora hexacampeão.

A história da mais nova hegemonia da F1 passa por uma tragédia, por um negócio perfeito, por dois ex-pilotos — um campeão e outro fracassado — e tem seu ponto de virada numa das maiores mudanças na dinâmica de competição da categoria.

A história da Mercedes na F1

A Mercedes-Benz esteve presente na Fórmula 1 desde os primórdios. Foi inclusive campeã de duas das cinco primeiras edições da competição, em 1954 e 1955. O campeão, na verdade, foi o argentino Juan Manuel Fangio, que chegou ao bicampeonato três anos antes de existir a disputa oficial de montadoras.

Glória e tragédia conviveram no esporte em 1955, que comemorou o bi da Mercedes mas chorou o acidente de Le Mans, a maior tragédia da história do automobilismo, que vitimou mais de 80 pessoas e motivou o afastamento da empresa alemã das corridas.

Fangio durante corrida da F1 em 1954
Fangio durante corrida em 1954. Ele já tinha sido o campeão de 1951, com a Alfa Romeo (Agridecumantes/ CC)

A parceria com a McLaren e a compra da Brawn

O retorno definitivo da Mercedes à F1 só foi acontecer em 1994, primeiro numa breve parceria com a Sauber e, enfim, no projeto de longo prazo com o fornecimento de motores à McLaren. A conexão Alemanha-Inglaterra nos boxes deu frutos nas pistas.

Foram dois títulos seguidos de Mika Häkkinen, em 1997 e 1998, e o tri veio 10 anos depois com Lewis Hamilton. Naquela altura, a sociedade internacional já começava a se deteriorar. A McLaren buscava maior autonomia para construir seus modelos, e a Mercedes queria novamente ter uma equipe própria.

A oportunidade de ouro veio ao fim de 2009. A Brawn GP, equipe sensação da temporada e campeã no primeiro ano de sua existência, estava à venda. Foi devidamente comprada e absorvida pela montadora alemã.

Toto Wolff e a nova Mercedes

Nico Rosberg e Michael Schumacher formaram a primeira equipe da “nova” Mercedes, em 2010. Time mais alemão, impossível. Mas não deu em muita coisa. Foram três anos de resultados medíocres antes da primeira grande transformação acontecer. E não estamos falando da saída de Schumacher em 2012.

Ao final desse mesmo ano, Ross Brawn, que tinha sido “absorvido” junto da compra da escuderia homônima, deu lugar a Niki Lauda no cargo de Diretor Não-Executivo. Tricampeão da Fórmula 1, Lauda fazia a ponte entre a empresa e a montadora.

O empresário Toto Wolff veio na sequência. Ex-piloto frustrado, o austríaco se aproximou da categoria como agente de pilotos e se consolidou como “salvador” da Williams, dono de 15% da equipe inglesa e depois Diretor Executivo.

A chegada de Wolf foi essencial para o sucesso da Mercedes. O “forasteiro” conseguiu emplacar uma nova visão sobre a gestão de equipes Fórmula 1, baseada na compartimentação das áreas técnicas e na descentralização das decisões.

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A contratação milionária de Lewis Hamilton pela Mercedes

Nesse esquema, Niki Lauda tinha um poder maior do que o normal para o cargo, no que diz respeito a questões desportivas. E assim, o austríaco conseguiu uma das melhores “contratações” da história da categoria.

A partir de muito convencimento, seja do piloto, seja da empresa, Lauda conseguiu costurar um acordo entre Lewis Hamilton e a Mercedes.

Hamilton aceitou o desafio de correr por uma nova montadora, e os engravatados alemães concordaram em pegar tudo o que o campeão de 2008 pedia. A adesão do inglês à equipe aconteceu no início de 2013 e mudou a história da equipe e de toda a F1.

Lauda e Lewis Hamilton
Falecido em 2019, Lauda foi tricampeão da F1. (Foto: F1Mania)

Mercedes, a dona da “era híbrida” da F1

Toto, Lauda, Hamilton e Rosberg formavam um belo time, mas o adversário era implacável. A Red Bull Racing de Sebastian Vettel vinha construindo sua própria hegemonia e, em 2013, no primeiro ano da “nova nova Mercedes”, levou o tetracampeonato.

Então, a grande transformação. Em 2014, a Fórmula 1 entrou na sua “era híbrida”, com motores de menor potência, mais pesados e que alteraram completamente a lógica da montagem dos veículos.

Para alguns especialistas, deixaram ainda mais importante o papel do engenheiro nas competições

Enquanto muitas equipes quebravam a cabeça para se adaptar, a descentralizada Mercedes tinha o genial Andy Cowell pronto para trabalhar as mudanças específicas nos módulos dos novos motores.

2014, o início da hegemonia da Mercedes

Definitivamente, a Mercedes saiu por cima da mudança.

A temporada de 2014 foi mágica. Hamilton e Rosberg fizeram nada menos que 11 dobradinhas e combinaram para 16 vitórias de 19 GPs. Foram ainda donos de 12 voltas mais rápidas e fizeram 18 pole positions.

Com 11 corridas conquistadas, Lewis Hamilton foi o campeão, e Rosberg ficou com o vice. Na disputa de construtores, lavada: 701 pontos para a Mercedes e 405 para a Red Bull. Era o início de um domínio que parecia sem precedentes na história da Fórmula 1.

Os títulos da Mercedes na F1

Entre 2014 e 2016, a Mercedes correu livre, leve e solta na Fórmula 1. Como ninguém conseguia se equiparar às soluções de Cowell para o motor híbrido, a disputa ficava mesmo entre Hamilton e Rosberg. O inglês levou em 2014 e 2015; o alemão, em 2016.

Nessa época, o maior desafio para Wolff e Lauda era a gestão de egos. Em 2017, no entanto…

Se em 2014 a Organização “chocou” com os motores híbridos, três anos depois foi a vez de subir o sarrafo ao obrigar todo mundo a desenhar os modelos do zero.

A hegemonia de Lewis Hamilton na F1

Naquela altura, entendia-se que o domínio da Mercedes começaria a minguar. Tudo indicava que a Ferrari tinha conseguido equiparar a tecnologia dos motores e a tradição em desenhos da montadora italiana poderia mudar a competição.

Em uma tacada só, menosprezaram a Mercedes e Lewis Hamilton. Com a eficiência do motor equiparada, o chassi dos alemães começou a brilhar. E todo o talento do piloto inglês fez a diferença.

Logo no primeiro ano dos projetos zerados, Hamilton levou 9 dos 20 GPs e formou outros quatro pódios. Foi campeão no México, com duas corridas a serem disputadas e passou o número de poles conquistadas por Ayrton Senna (vídeo abaixo) . Em 2018, 11 vitórias, seis pódios e novamente campeão, com dois GPs de antecedência.

A temporada de 2019 fez de Lewis Hamilton o segundo piloto da história da Fórmula 1 a vencer seis títulos mundiais. Mais campeão que ele, só Michael Schumacher.

Novamente, foram 11 vitórias, seis pódios e apenas cinco poles, o menor número entre todas as suas campanhas vitoriosas. A conquista, como de praxe, veio com duas corridas a serem disputadas.

A polêmica da Mercedes Rosa

Para quem duvidava, a Mercedes consolidou seu domínio. Igualou os seis títulos consecutivos da Ferrari, entre 1999 e 2004, e superou os italianos em conquistas consecutivas dos seus pilotos — em 1999, o campeão foi, ironicamente, da McLaren-Mercedes.

Tamanho é o sucesso da equipe alemã, que teve adversário que decidiu “copiá-la”. A temporada 2020 foi marcada já desde o começo pela épica vitória de Lewis Hamilton no GP da Inglaterra, terminando a corrida com apenas três pneus inteiros.

Mas outra coisa chamou a atenção: o carro da Racing Point Force India. A construtora, que já conta com motores da Mercedes, também pôs na pista um modelo muito similar ao dos hexacampeões.

A cópia parcial foi admitida pela Racing Point, que tem sido chamada de “Mercedes Rosa” e a manobra foi punida pela FIA, mas ainda assim, apenas pelo sistema de freios e dentro do regulamento esportivo, ou seja, na parte técnica, está tudo mais ou menos liberado.

Seria a estratégia da “nanica” o caminho para acabar com o domínio dos alemães?

Vale lembrar que por toda a história da categoria, as inovações de uma construtora foram sendo copiadas ou pelo menos “absorvidas” pelas rivais, e, equiparadas as questões técnicas, o que sobrava era a competição no volante.

Independentemente do que é o melhor ou o mais justo, o fato é que a F1 foi o esporte que mais cresceu em audiência nos últimos anos. E já está bom o bastante para a organização.

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*Última atualização em 4 de agosto de 2020

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