Entenda a questão dos atletas militares do Brasil: quem são, quais seus resultados olímpicos e porque prestam continência no pódio

A cena é cada vez mais comum: o hino começa a tocar, a bandeira é hasteada e então a mão direita sobe esticada à têmpora. O personagem? Um dos vários atletas militares do Brasil.

Mas não pense você que são militares atletas. Apesar da continência e da patente oficial, não espere deles um “sim senhor” ou uma marcha logo pela manhã. Espere, isso sim, medalhas. Muitas delas.

Quem são esses atletas das forças armadas? Como funciona seu alistamento, quais as suas responsabilidades, seus benefícios, suas conquistas? Tudo isso você pode esperar do texto a seguir.

Os atletas militares do Brasil

Imagem de Alison e Bruno, atletas militares do Brasil
(Quinn Rooney/Getty Images)

Os atletas militares do Brasil fazem parte do “Programa Atletas de Alto Rendimento”. Criado em 2008 visando os Jogos Mundiais Militares e as Olimpíadas, funciona como um apoio financeiro e estrutural a esportistas de alto rendimento.

O PAAR é oficialmente do Ministério da Defesa do governo brasileiro. Mas é resultado de um esforço conjunto entre o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), o Ministério da Cidadania (antes Ministério dos Esportes) e boa parte dos grandes clubes esportivos do país.

Como funciona o programa dos atletas militares do Brasil?

O PAAR funciona como apoio financeiro e estrutural para atletas brasileiros. Aqueles que fazem parte do programa são contratados pelo Exército, pela Marinha ou pela Aeronáutica do Brasil. Em 2020, por exemplo, os inclusos nas Forças Terrestres conquistaram o posto de terceiro sargento temporário.

O esportista contratado, então, passa ser um atleta das forças armadas, mas em um regime especial. Isso quer dizer que ele recebe todos os benefícios do seu cargo militar — salário (aproximadamente R$ 3.200), 13º, férias e assistência médica — mas sem as responsabilidades hierárquicas de sua função.

Os atletas militares têm ainda o direito ao acompanhamento de nutricionistas e fisioterapeutas, além do acesso às instalações esportivas das Forças Militares. O contrato é válido por até oito anos.

A vaga no corpo militar é pública. Assim, qualquer pessoa pode ser um atleta das forças armadas. Basta ter a capacidade para tal. O processo de adesão funciona de maneira similar à qualquer outro cargo público, com edital de chamada e concurso.

As provas, claro, incluem exames físicos e avaliação curricular e de índices esportivos. Outra diferença é que os aprovados podem ser contemplados por outros benefícios, como o Bolsa Atleta, e podem assinar contratos de patrocínio.

As contrapartidas não são muitas. Tirando a presença em alguns eventos e solenidades, os atletas passam a integrar a equipe brasileira dos Jogos Mundiais Militares.

O evento esportivo, considerado o terceiro maior do mundo, foi o grande catalisador do programa. O seu sucesso o fez ser estendido para o Projeto Olímpico Brasileiro.

Por que atletas prestam continência no pódio?

Muitos atletas prestam continência no pódio por conta de sua ligação com Exército Brasileiro, por meio do Programa Atletas de Alto Rendimento. O gesto, norma hierárquica dentro da instituição, é uma espécie de etiqueta para as solenidades das conquistas.

Afinal, se para os atleta militares o PAAR oferece subsídios para a sua atividade esportiva, para o Exército o ganho é em publicidade. Cada conquista dos membros do programa é também uma conquista das Forças Armadas — são atletas militares, afinal.

Nesse sentido, é forte a imagem de um medalhista com as cores da bandeira brasileira fazendo o característico gesto da instituição. Tanto que a continência no pódio foi uma recomendação para o Pan-Americano de Toronto, em 2015.

As repercussões negativas, no entanto, fizeram a recomendação passar para uma sugestão a partir de 2016. O que não impediu das continências seguirem acontecendo. E nos Jogos do Rio foram muitas.

Expanda seus conhecimentos! Confira outros conteúdos da Esportelândia:

Os resultados do programa de atletas militares do Brasil

Entre polêmicas e críticas, o Programa Atletas de Alto Rendimento segue com um fato incontestável: o sucesso nos resultados.

O programa já começou a render em 2011, nos Jogos Mundiais Militares. Sediado no Rio — fato que impulsionou a sua criação como forma de obter melhor desempenho — o evento teve como líder do quadro de medalhas o próprio anfitrião.

Com 114 medalhas (45 de ouro), a campanha não só rendeu o primeiro “título” brasileiro na competição como representou um absurdo salto de desempenho. Em outras quatro edições, o máximo que o país alcançou foi uma 15ª colocação, com seis medalhas no total.

Os resultados, claro, turbinaram o programa e serviram muito bem como parte do ciclo olímpico da maioria dos atletas militares.

Na Olimpíada de 2012, em Londres, eles conquistaram cinco das 17 medalhas do “Time Brasil”. Duas delas foram de ouro, com Arthur Zanetti e Sarah Menezes. Eles contruibuíram para o até então maior número de pódios em uma única edição dos Jogos.

O sucesso foi só aumentando desde então. No Pan-Americano de Toronto, 64 das 115 medalhas brasileiras foram conquistadas por atletas militares. No mesmo ano, o Brasil ficou com o vice dos Jogos Militares.

Na Olimpíada do Rio, em 2016, 114 atletas das forças armadas participaram de 27 modalidades esportivas, ou 30% da delegação. Nos resultados, conseguiram 14 das 19 medalhas brasileiras.

O ciclo olímpico seguinte viu mais do mesmo: em 2019, terceira colocação geral nos Jogos Militares e 93 das 171 medalhas conquistadas no Pan de Lima. A expectativa para a Olimpíada de Tóquio, como você pode imaginar, é alta.

As críticas ao programa de atletas militares do Brasil

Apesar dos grandes resultados em termos de conquistas, o programa de atletas militares do Brasil não está livre de críticas. Os principais pontos de discordância estão na continência e nos atletas inclusos pelo PAAR.

Quanto à continência nos pódios, há quem considere uma representação irreal da contribuição das Forças Armadas. O técnico de Arthur Zanetti, Marcos Goto, por exemplo, ressaltou a ausência da participação do programa para além do apoio financeiro.

A outra crítica, ratificada por Goto, é da falta de trabalho de base do PAAR, que de fato investe, na maioria das vezes, em atletas “prontos”.

A resposta do Ministério da Defesa a esse segundo ponto é o programa “Força no Esporte”. A proposta deste é a identificação de talentos e trabalho de base em escolas de regiões carentes. O seu sucesso ou não só poderá ser vista daqui um tempo — o FnP foi criado em 2018.

Os principais atletas olímpicos militares

Alison Cerutti

Alison durante as Olimpíadas de Londres
(Getty)
  • Ramo: Marinha
  • Modalidade: Vôlei de Praia
  • Olimpíadas: 2012 e 2016
  • Medalhas: Prata (2012) e Ouro (2016)

Arthur Zanetti

medalhas de arthur zanetti

  • Ramo: Aeronáutica
  • Modalidade: Ginástica – Argolas
  • Olimpíadas: 2012 e 2016
  • Medalhas: Ouro (2012) e Prata (2016)

Arthur Nory

nory jogos olimpicos rio 2016

  • Ramo: Aeronáutica
  • Modalidade: Ginástica
  • Olimpíadas: 2016
  • Medalhas: Bronze (2016)

Beatriz Ferreira

Beatriz com a medalha de Ouro do Pan 2019
(Jonne Roriz/COB)
  • Ramo: Marinha
  • Modalidade: Boxe
  • Olimpíadas: Nenhuma – participou do Pan de 2019
  • Medalhas: Nenhuma – foi medalha de Ouro do Pan de 2019

Darlan Romani

Imagem de Darlan Romani na Olimpíada do Rio
(Reuters/Kai Pfaffenbach)
  • Ramo: Aeronáutica
  • Modalidade: Atletismo – Arremesso de Peso
  • Olimpíadas: 2016
  • Medalhas: Nenhuma – foi 4º em 2016

Felipe Wu

Imagem de Felipe Wu, atleta militar brasileiro
(Wander Roberto/COB)
  • Ramo: Exército
  • Modalidade: Tiro
  • Olimpíadas: 2016
  • Medalhas: Prata (2016)

Martine Grael

Imagem de Martine e Kahena comemorando medalha olímpica
(Danilo Borges/brasil2016.gov.br)
  • Ramo: Marinha
  • Modalidade: Vela – 49fx
  • Olimpíadas: 2016
  • Medalhas: Ouro (2016)

Mayra Aguiar

Equipamentos do judô judogi
No judô feminino, atletas são obrigadas a usar camiseta branca sob o judogi
  • Ramo: Marinha
  • Modalidade: Judô
  • Olimpíadas: 2012 e 2016
  • Medalhas: Bronze (2012 e 2016)

Poliana Okimoto

Imagem de Poliana Okimoto, atleta militar
(Satiro Sodré/SSPress)
  • Ramo: Exército
  • Modalidade: Maratona Aquática
  • Olimpíadas: 2012 e 2016
  • Medalhas: Bronze (2016)

Rafael Silva

Rafael Silva no pódio da Olimpíada de 2016

  • Ramo: Exército
  • Modalidade: Judô
  • Olimpíadas:  2012 e 2016
  • Medalhas: Bronze (2012 e 2016)

Rafaela Silva

doping rafaela silva

  • Ramo: Marinha
  • Modalidade: Judô
  • Olimpíadas: 2016
  • Medalhas: Ouro (2016)

Thiago Braz

Regras do salto com vara

  • Ramo: Aeronáutica
  • Modalidade: Salto com vara
  • Olimpíadas: 2016
  • Medalhas: Ouro (2016)

Depois de entender a questão dos atletas militares, confira outros conteúdos sobre Olimpíadas:

*Última atualização em 29 de dezembro de 2020

Salvar