Caracterizada por golpes e movimentos ágeis e complexos, essa é uma das principais bases da Capoeira. Porém, você conhece como surgiu e a história do esporte?

Se não, aqui no Esportelândia você fica por dentro de tudo da modalidade.

O que é a Capoeira?

Capoeira: o que é, origem, história e graduações
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A capoeira, também conhecida como capoeiragem, é uma expressão cultural e esporte afro-brasileiro que combina artes marciais, dança e música. Surgiu possivelmente no final do século XVI no Quilombo dos Palmares, resistente comunidade de descendentes de escravos africanos no atual estado de Alagoas, na antiga Capitania de Pernambuco.

Caracterizada por movimentos ágeis e complexos, a capoeira utiliza principalmente chutes, rasteiras, cabeçadas, joelhadas, cotoveladas, além de acrobacias no solo ou no ar.

O diferencial está na musicalidade, pois os praticantes, chamados de capoeiristas, não apenas aprendem a lutar e a jogar, mas também a tocar instrumentos típicos e a cantar.

Aqueles que negligenciam a musicalidade são considerados lutadores incompletos, pois a capoeira valoriza não apenas a habilidade física, mas também a expressão cultural e o espírito esportivo.

A história da Capoeira

A origem da Capoeira

No século XVI, Portugal começou a enviar escravos africanos para o Brasil, originários principalmente da África Ocidental. Esses escravos, vindos das etnias iorubá, jeje, hauçá e do grupo banto, oriundos de regiões atuais de Angola e Congo, foram os mais frequentemente vendidos no Brasil.

No século XVII, povos pastores do sul de Angola celebravam a iniciação dos jovens à vida adulta com uma cerimônia chamada n'golo, onde homens competiam em uma luta ao som de atabaques, buscando tocar o pé na cabeça do adversário. O vencedor ganhava o direito de escolher uma noiva, sem precisar pagar o dote.

 

Capoeira: o que é, origem, história e graduações
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Com a chegada dos portugueses e a escravização dos africanos, essa forma de luta foi trazida para o Brasil. Propõe-se que a capoeira tenha surgido na época da Colônia como uma expressão dos desejos de liberdade da raça negra e como uma necessidade de defesa contra senhores inimigos.

A maior parte desses povos estava desarmada, utilizando seus próprios corpos como método de combate, mesclando danças, cantigas e movimentos das culturas africanas.

A capoeira, assim, nasceu como uma forma de resistência e expressão cultural, representando não apenas uma arte de luta, mas também um legado de tradições africanas adaptadas ao contexto brasileiro colonial.

Capoeira da Angola

A Capoeira Angola é uma expressão única da capoeira, diferenciando-se da luta regional baiana de Mestre Bimba por seu foco no jogo, na brincadeira e na conexão com a ancestralidade.

Caracterizada por movimentos mais lentos, rasteiros e lúdicos, a “roda de Angola” é um espaço onde coexistem diferentes estéticas dos grupos e a individualidade de cada “angoleiro”, em busca do “axé”, dentro dos fundamentos da arte.

Embora não haja uma data ou uma pessoa específica atribuída à criação da Capoeira Angola, o nome de Mestre Pastinha está intrinsecamente ligado a ela.

Pastinha foi um grande defensor da Capoeira Angola, introduzindo-a na sociedade e quebrando estigmas negativos, transformando a visão marginalizada da arte em uma prática respeitada.

Ele estabeleceu a primeira escola de Capoeira Angola no Brasil, propagando-a nacional e internacionalmente.

Pastinha dedicou-se arduamente à preservação das características fundamentais da Capoeira Angola, divulgando-a em viagens pelo exterior e até mesmo pela África, representando-a com orgulho.

Além disso, ele foi um mestre para muitos alunos, garantindo assim o legado e o futuro dessa vertente da capoeira.

Atualmente, diversas associações são dedicadas exclusivamente à Capoeira Angola, buscando resgatar antigas tradições da arte.

Embora a capoeira, de maneira geral, tenha evoluído ao longo do tempo, essas associações se esforçam para preservar e renovar as tradições, graças ao empenho de muitos mestres e entusiastas da capoeira.

Libertação dos escravos e a proibição da Capoeira

No final do século XIX, a abolição da escravidão trouxe um novo cenário para os negros libertos no Brasil. Livres, porém abandonados, enfrentaram o desafio da falta de moradia, trabalho e discriminação social.

A escassez de oportunidades, aliada ao aumento da mão de obra estrangeira, marginalizou grande parte dos negros, incluindo os capoeiristas, vistos pela sociedade como vagabundos.

Com o tempo, muitos capoeiristas, privados de meios de subsistência, utilizaram suas habilidades de maneiras alternativas. Alguns tornaram-se guarda-costas, mercenários e até mesmo assassinos de aluguel. Grupos conhecidos como “maltas” aterrorizavam o Rio de Janeiro.

Em 1890, diante do caos urbano e da notável vantagem dos capoeiristas em confrontos físicos contra a polícia, a República Brasileira decretou a proibição da capoeira em todo o país.

 

Capoeira: o que é, origem, história e graduações
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O Código Penal da República, adaptado em 1890, classificou a prática da capoeira como ilegal, impondo penas de dois a seis anos de prisão para quem fosse pego participando dela. A proibição resultou em prisões, torturas e mutilações dos praticantes pela polícia.

Posteriormente, na década de 1930, Getúlio Vargas assumiu o poder e, seguindo a repressão, permitiu a prática da capoeira apenas com licença policial.

Esse período representou uma mudança significativa nas concessões sociais em relação à capoeira. Apesar de um breve período de liberdade, a prática da capoeira voltou a ser perseguida e malvista.

Dessa forma, expressões culturais como a roda de capoeira passaram a ser praticadas em locais escondidos e afastados, com capoeiristas mantendo sentinelas para alertar sobre a possível chegada da polícia.

Essa história turbulenta demonstra a resiliência e a luta pela preservação de uma manifestação cultural profundamente enraizada na história brasileira.

Bahia: o berço da Capoeira

Em um período em que a perseguição à capoeira amenizava, Mestre Bimba revolucionou a prática ao fundar, em 1932, a primeira academia de capoeira em Salvador. Observando a tendência dos capoeiristas em exibir movimentos para turistas, Bimba percebeu uma perda de eficiência da capoeira como arte marcial.

Com José Cisnando Lima, seu aluno, ele reformulou a prática, tornando-a mais eficaz para o combate ao introduzir técnicas de outras artes marciais, como o batuque. Bimba desenvolveu métodos de treinamento sistemáticos e renomeou o estilo como “Luta Regional Baiana” devido à proibição do termo “capoeira” pelo Código Penal.

Capoeira: o que é, origem, história e graduações
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Em 1937, Bimba obteve autorização para fundar o Centro de Cultura Física e Luta Regional, alcançando aceitação social ao ensinar para elites econômicas, políticas, militares e universitárias. Em 1940, a capoeira deixou definitivamente de ser considerada ilegal, marcando o início de sua desmarginalização.

Contudo, a ascensão da capoeira de Bimba gerou desconforto entre capoeiristas tradicionais, que viram seu espaço diminuir. Essa disparidade começou a se equilibrar com a inauguração, em 1941, do Centro Esportivo de Capoeira Angola por Mestre Pastinha.

Localizado no Pelourinho, em Salvador, o centro atraiu capoeiristas que buscavam manter a tradição original da prática. A notoriedade do centro consolidou o termo “capoeira angola” como nome do estilo tradicional, já utilizado informalmente durante o período imperial.

Esses eventos marcaram um momento crucial na história da capoeira, evidenciando a diversificação e a consolidação de diferentes estilos, cada um com suas características e abordagens específicas.

Como funciona as graduações na Capoeira?

Capoeira: o que é, origem, história e graduações
Foto: Luiza Lourenço

A capoeira sempre exibiu uma diversidade cultural e, em sua trajetória, nunca houve um consenso sobre o sistema de graduação entre os mestres. Este sistema é relativamente novo e foi introduzido por Mestre Bimba, fundador da Luta Regional Baiana na década de 1930.

Na época, Bimba diferenciava os alunos utilizando lenços de seda para identificá-los como alunos formados, especializados ou mestres, com os novos alunos sem qualquer graduação.

Hoje, o sistema mais comum de graduação é através de cordas, em diferentes cores, amarradas na cintura dos praticantes. No entanto, grupos variam em seus sistemas, e existem várias entidades que tentam unificar essa graduação.

A Confederação Brasileira de Capoeira é uma delas, utilizando um sistema que segue as cores da bandeira brasileira para as cordas, estabelecido na época em que a capoeira era oficialmente parte da Federação Brasileira de Pugilismo.

Entretanto, mesmo com essa difusão, muitos grupos importantes adotam cores e graduações diferentes. A própria Confederação não é universalmente aceita como a principal representante da capoeira.

Veja como funciona a graduação na Capoeira

Graduação básica adulta (a partir de 15 anos)

  • Iniciante: Sem corda ou cordão
  • Batizado: Verde
  • Graduado: Amarelo
  • Avançado: Azul
  • Intermediário: Verde e amarelo
  • Adiantado: Verde e azul
  • Estagiário: Amarelo e azul

Graduação avançada – docente de capoeira

  • Formado: Verde, amarelo e azul – 5 anos de capoeira – idade mínima 18 anos
  • Monitor: Verde e branco – 7 anos de capoeira – idade mínima 20 anos
  • Instrutor: Amarelo e branco – 12 anos de capoeira – idade mínima 25 anos
  • Contramestre: Azul e branco – 17 anos de capoeira – idade mínima 30 anos
  • Mestre: Branco – 22 anos de capoeira – idade mínima 35 anos

Sistema mais comumente usado por muitos grupos regularizados, porém não-filiados por opção à Confederação Brasileira de Capoeira. Utiliza cores primárias e secundárias nas cordas, descritas como “Transformações”.

  • Iniciante: Sem corda ou cordão
  • Batizado: Crua (sem coloração)
  • Graduado iniciante: Crua e amarela
  • Graduado: Amarela
  • Intermediário: Amarela e laranja
  • Adiantado: Laranja
  • Estagiário: Laranja e azul

Graduação avançada – docente de capoeira

  • Formado: Azul – 5 anos de capoeira – idade mínima 18 anos
  • Monitor trainee: Azul e verde – 7 anos de capoeira – idade mínima 18 anos
  • Monitor: Verde – 7 anos de capoeira – idade mínima 20 anos
  • Instrutor trainee: Verde e roxa – 12 anos de capoeira – idade mínima 23 anos
  • Instrutor: Roxa – 12 anos de capoeira – idade mínima 25 anos
  • Professor: Roxa e marrom – 17 anos de capoeira – idade mínima 28 anos
  • Contramestre: Marrom – 17 anos de capoeira – idade mínima 30 anos
  • Mestrando: Marrom e vermelha – 20 anos de capoeira – idade mínima 33 anos
  • Mestre: Vermelha – 22 anos de capoeira – idade mínima 35 anos
  • Grão-mestre: Branca – 36 anos de capoeira e pelo menos 18 anos como mestre – idade mínima 55 anos

Os Instrumentos da Capoeira, quais são?

A capoeira é mais do que movimento e habilidade. Seu ritmo é marcado por instrumentos musicais únicos, que trazem não só melodia, mas também uma conexão profunda com a história africana. Vamos conhecer alguns dos principais:

  • Berimbau
    • O berimbau é a alma da capoeira. Esse instrumento de origem banto, composto por um arco de madeira, corda de aço e cabaça, tem diferentes variações, cada uma com sua sonoridade única: gunga (grave), médio e viola (agudo). Junto com o caxixi, é responsável por guiar os movimentos e o jogo na roda.
  • Caxixi
    • Um pequeno cesto de vime repleto de sementes ou conchas do mar. Seguro ao dedo do tocador junto ao berimbau, ele cria um som de chocalho marcante durante a roda.
  • Agogô
    • Um arco com duas campânulas metálicas de tamanhos diferentes. Tocado com uma vareta de ferro, produz dois sons distintos, contribuindo para a cadência musical.
  • Atabaque
    • Este tambor cilíndrico, de origem africana, é o coração do ritmo. Seu som poderoso acompanha o berimbau gunga, ditando o compasso do jogo.
Capoeira: o que é, origem, história e graduações
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  • Pandeiro
    • Mais agudo que o atabaque, o pandeiro é um instrumento de percussão que, ao lado do caxixi, marca o ritmo da roda, mantendo a cadência e a energia do jogo.
  • Ganzá
    • Feito de metal ou plástico, o ganzá é um chocalho formado por grãos ou areia no interior. Seu som contribui para a riqueza sonora da capoeira.
  • Reco-reco
    • Confeccionado em metal ou bambu, o reco-reco é tocado com uma haste de metal, produzindo um som característico que se junta ao coro dos outros instrumentos.

Estes instrumentos, cada um com seu timbre e papel específico, formam o tecido musical que torna a capoeira uma experiência envolvente e única. Conhecer sua origem e a importância de cada um é mergulhar na riqueza cultural por trás dessa arte tão singular.